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A morte da lagoa habitada pela sucuri de cabeça de cera na Amazônia venezuelana

Morichales

Los morichales actúan como esponjas naturales del agua dulce y sirven como reservorios en tiempos de sequía. Además, son un importante hábitat de aves, mamíferos y reptiles. Foto María Ramírez Cabello

Em Apoipó, comunidade indígena pemón às margens do rio Kukenán, na Amazônia venezuelana, não há meio-termo. Seu líder, Constantino Díaz, apoia abertamente o garimpo, pois, para ele, não existe outra alternativa para sobreviver. O aumento da extração de ouro já provocou o desaparecimento de um buritizal e da lagoa Morompo Deuta, onde os moradores pescavam e nadavam quando eram crianças. “Está tudo contaminado, os peixinhos do rio Kukenán estão contaminados”, lamenta o líder indígena José Bolívar.

Por: María de los Ángeles Ramírez (Correo del Caroní)

Muita coisa mudou ao redor da comunidade indígena de Apoipó, no município de Gran Sabana, no extremo sudeste da Venezuela, a poucos quilômetros da fronteira com o Brasil. A floresta amazônica ao longo do caminho sinuoso até a comunidade já não é tão densa quanto há décadas, os animais que costumavam caçar, como veados, jacus e guácharos, já não são abundantes, o rio já não é cristalino, e o clima mudou: hoje está mais quente. A única constante, desde a infância dos anciãos, é o garimpo de ouro, que, segundo contam, acontece há mais de seis décadas.

José Bolívar, de 65 anos, secretário da capitania comunitária do povo indígena pemón, se lembra das antigas máquinas de mineração que operavam no território amazônico como gigantes de metal, por baixo dos quais caminhava quando era criança. As máquinas pertenciam às mineradoras. Bolívar garante que “quando a comunidade se organizou, em 1952, já havia garimpo” — uma afirmação que não pode ser verificada em imagens de satélite, já que o primeiro satélite dedicado a monitorar a superfície da Terra, o Landsat 1, foi lançado 20 anos depois. “Quando a primeira empresa foi embora, veio outra. Quando (Hugo) Chávez chega à presidência, muda o esquema, mas a comunidade continuou trabalhando de forma artesanal e com motores”. 

Nos anos seguintes, o garimpo se intensificou ainda mais com a crise econômica na Venezuela, apesar de esses territórios não estarem dentro do polígono do megaprojeto estatal Arco Mineiro do Orinoco, que atravessa a Amazônia na margem sul do rio Orinoco. Por isso, a extração de minerais no território dos indígenas pemón é ilegal.

Além das máquinas que reviravam a terra em busca de ouro, Bolívar se lembra de uma enorme lagoa cercada de buritizais, que conheciam como Morompo Deuta. Em português, Morompo significa cera e Deuta, buraco. Segundo a cosmovisão pemón, nesse espelho d’água habitava uma sucuri de cabeça de cera. Ali, a comunidade e os visitantes costumavam pescar. “A lagoa não existe mais, agora está tudo contaminado. Ainda restam algumas lagoas onde não jogam sujeira, mas os peixinhos do rio principal, o Kukenán, estão todos contaminados”, lamenta.

Apoipó se destaca em qualquer imagem de satélite pelas imensas marcas que o garimpo deixou na região, mas também pela atividade das dragas no rio Kukenán, como é conhecido o primeiro trecho do rio Caroní, a partir de sua nascente. A artéria fluvial da bacia do Caroní, que abriga três usinas hidrelétricas, incluindo Simón Bolívar, em Guri, abastece mais de 60% da demanda elétrica do país.  

Esse território não se destaca só por isso, mas também pela perda de superfície de água natural e pelo surgimento do que os cientistas chamam de “água antrópica” associada ao garimpo, segundo os mapas do MapBiomas, consórcio de organizações não governamentais da Amazônia que mapeia as mudanças no uso da terra e a evolução de corpos d’água submetidos a múltiplas pressões. Água antrópica entende-se os corpos de água superficiais criados ou alterados por alguma atividade humana, como o garimpo. Neste caso, as lagoas verde-azuladas próximas a cavas de mineração, os poços onde são despejados diretamente os rejeitos do garimpo e os acúmulos de água resultantes de atividades extrativas.

Há uma década, o desaparecimento da lagoa em Apoipó — habitat da sucuri de cabeça de cera, a poucos quilômetros do povoado — serve de alerta para o crescente interesse de moradores locais e empresas internacionais pelos minerais do subsolo amazônico. Esse interesse aumentou depois que os Estados Unidos depuseram e capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro de 2026. Meses depois, o governo aprovou uma reforma da Lei de Minas que abriu as portas do setor extrativo ao capital estrangeiro.

O problema do Kukenán não é isolado. O Correo del Caroní e o Mongabay Latam percorreram quatro rios, identificados com apoio de cientistas do MapBiomas e do programa de formação em ecologia quantitativa do Instituto Serrapilheira, do Brasil, como parte da investigação Águas Partidas, coordenada pelo Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (CLIP) em parceria com oito veículos de imprensa da região. 

No total, a aliança jornalística analisou 722 microbacias de quatro países — 63% delas em território de pelo menos 74 povos indígenas — usando informações da plataforma MapBiomas Água. Os resultados são contundentes: um padrão de perda de água natural e ganho de águas antrópicas associadas a atividades humanas, com consequências não só ambientais, mas também sociais. 

Na Venezuela, a bacia do Caroní é a segunda com maior perda de superfície de água no país. No Peru, 45 das 84 microbacias estudadas registraram aumento de água artificial, e 99,7% delas com presença de mineração legal e ilegal. Na Bolívia, as microbacias com mineração ilegal ganharam 21,5% de superfície de água em 25 anos, enquanto as que não têm nenhuma mineração perderam 17,2%. Na Colômbia, onde o desmatamento causado pela pecuária é a pressão dominante, há microbacias em que o desmatamento acumulado cobre mais da metade do território, e as mais desmatadas também perdem água. E de cada cinco hectares dessa água artificial, mais de quatro aparecem em território indígena.

Nas quatro bacias, repete-se um padrão mais refinado: uma em cada seis microbacias perde água natural e ganha água artificial ao mesmo tempo, no mesmo lugar. Na região de Apoipó, a superfície de água natural detectável foi reduzida de 200 para 43,2 hectares (78%) em duas décadas.

Apoipó foi fundada em 1952. A marca do garimpo no território se expandiu com os anos e ocupa uma superfície de 326 hectares em 2024

Mapa Localizacio?n Apoipo? PNC
Mapa de Localização de Apoipó – Elaborado por Carlos Maytín
Apoipo
“Os animais se afastaram; não há mais caça como antes, e o garimpo fez com que as pessoas passassem a comprar frango e carne”, disse o indígena José Bolívar, durante o trajeto até a comunidade de Apoipó | Foto: María Ramírez Cabello

Décadas de garimpo à margem de Canaima

O rio Kukenán nasce em um tepui, as gigantescas mesetas rochosas que emergem no setor oriental do Parque Nacional Canaima e que, para a cultura pemón, são montanhas sagradas. Enquanto esse setor atrai os turistas que decidem fazer a popular excursão ao tepui Roraima, o trecho ocidental do parque guarda o Auyantepui e o Churún-Merú ou Kerepakupai-Merú — conhecido como Salto Ángel —, a queda d’água mais alta do mundo, em um ecossistema tão singular que já foi imortalizado em obras como O Mundo Perdido, de Arthur Conan Doyle, e o filme Up: Altas Aventuras, da Pixar. 

Por seu enorme valor biológico e paisagístico, o Parque Nacional, com três milhões de hectares — quase o tamanho da Bélgica —, foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1994. 

A comunidade de Apoipó está encravada na margem esquerda do rio Kukenán, que marca a fronteira natural do Parque Nacional Canaima, cerca de 100 quilômetros abaixo de sua nascente, no tepui de mesmo nome. Apoipó tem cerca de 700 habitantes, população que aumenta se somados os outros sete povoados nesse mesmo território. 

Os anciãos lembram que, há pelo menos seis décadas, houve concessões de mineração formais, aprovadas pelo governo, que atraíram os moradores locais a essa atividade paralelamente à prática da agricultura. “Os avós eram contra, mas, pela necessidade e pela falta de serviços, praticava-se o garimpo até mesmo contra a vontade dos anciãos”, aponta Bolívar. 

O garimpo de ouro cresceu nos últimos anos na Amazônia venezuelana, região que abrange 51% do território nacional, segundo os limites definidos pela Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (Raisg). A organização destacou que, entre 1985 e 2022, a maior parte do desmatamento em cada país amazônico ocorreu fora dos territórios indígenas (TI) e das Áreas Naturais Protegidas (ANP), mas em alguns países houve um forte impacto nas TI e ANP, como no caso da Venezuela, com 45% do desmatamento total ocorrendo dentro dessas categorias.

Uma investigação da Armando.info contabilizava, até 2021, mais de 3.700 pontos de garimpo no sul da Venezuela e cerca de 40 pistas de pouso clandestinas, dentro e fora de territórios indígenas e áreas protegidas.

O Plano Diretor da bacia do rio Caroní, elaborado pela estatal Electrificación del Caroní (Edelca) em 2003, identificava a área sob contratos e concessões no Alto Caroní em 62.171 hectares, enquanto a área em exploração girava em torno de 24.523 hectares. Era a maior concentração extrativista (30,88%) da bacia, em comparação com o baixo (1,58%) e o médio Caroní (9,89%).

No geoportal do MapBiomas, as primeiras marcas do garimpo na região de Apoipó aparecem em 1992, ano em que se observa apenas um foco de garimpo a nordeste do território indígena, próximo às margens do rio Kukenán (ou Caroní), ocupando meio hectare. Em 2024, a superfície de uso minerário alcançou cerca de 326 hectares. 

A análise na ferramenta indica que, em consequência da expansão do garimpo, hoje há menos superfície de savanas arbustivas, o ecossistema com maior perda. A área passou de 1.762 hectares em 1985 para 1.443 hectares em 2024. Essas superfícies costumam ser usadas para depositar os materiais já processados e previamente extraídos das cavas, a maioria localizada em ecossistemas de área úmida do tipo herbáceo ou arbustivo inundável, ou perto deles. Em 1985, essas áreas úmidas ocupavam cerca de 353 hectares, ao passo que em 2024 abrangiam 340 hectares. São setores em que os garimpeiros costumam extrair material e abrir cavas, que tendem a se transformar, com o tempo, nas típicas lagoas artificiais cheias de água contaminada.

Deslize o cursor para comparar as alterações na cobertura vegetal em Apoipó

A comunidade de Apoipó não está dentro do Parque Nacional Canaima, mas está em sua zona de amortecimento, o que faz com que o garimpo ao redor possa afetar a área protegida. Sobretudo porque o rio Caroní — às margens do território de Apoipó — está localizado dentro do parque, explica Carlos Maytín, doutor em ciências ambientais e pesquisador da Universidad Nacional Experimental de Guayana (UNEG). “Essa área, que faz parte de uma grande planície aluvial no Alto Caroní e de grande valor ecológico e paisagístico, é a mais afetada pela atividade do garimpo, em especial na mina de Apoipó”, diz. 

“Ainda restam lagoas onde não se despejam rejeito, mas os peixinhos que estão no rio principal, no Kukenán, estão contaminados. Todos podem ver, não temos como esconder”.

José Bolívar, secretário

Maytín aponta que as minas não afetam apenas o leito do rio, mas também despejam seus rejeitos diretamente no Caroní. Eles carregam, explica, “não só materiais sedimentáveis, mas também contaminantes, especialmente metais pesados, mercúrio, os associados ao uso de graxas e óleos, entre outros, comuns pelo tipo de maquinário utilizado em diferentes atividades típicas do tipo de garimpo praticado no Alto Caroní”.  

Um relatório da ONG ambiental SOS Orinoco, de 2020, aponta que as minas em Apoipó não se limitam a trabalhos em suas margens, mas também dentro do rio Caroní. “Antes e depois da queda d’água encontram-se numerosas balsas, cerca de 30, cada uma com entre 10 e 12 mergulhadores, a maioria indígenas com grande experiência nesse ofício, que se revezam em turnos para que a operação não pare 24 horas por dia, 365 dias por ano”, escreveram.

Draga minera
Impacto Draga

Uma draga de garimpo vista da margem esquerda do rio Kukenán durante uma visita ao território no início de agosto de 2026 | Foto: María Ramírez Cabello

Corpos de água natural em perigo

Morompo Deuta, a lagoa cercada de buritizais que desapareceu há cerca de uma década, sofreu o impacto direto do garimpo. Embora fosse um lugar destinado à pesca, os garimpeiros foram se aproximando pouco a pouco. Primeiro, extraíram ouro nos buritizais e, à medida que avançavam ano após ano, o corpo d’água secou e parte da vegetação original se perdeu.

“Essa lagoa está coberta de yuma. As pessoas iam pescar lá, era saudável; essa yuma é o rejeito arenoso produzido pelo garimpo, dá para recuperar; mas os buritizais, esses sim, morreram por completo, já não existem”, confirmou Eude Piñero, presidente do Conselho de Anciãos de Apoipó e ex-capitão.

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Bolívar marca em marrom a lagoa Morompo Deuta, que desapareceu após anos de garimpo | Foto: María Ramírez Cabello

Dados do MapBiomas Venezuela revelam que a superfície detectada por satélite dos corpos de água natural em Apoipó e arredores equivalia a 200 hectares no ano 2000. As duas décadas seguintes mostram uma tendência de perda de superfície de água natural observável. Em 2024, houve uma queda de 78%, chegando a 43,2 hectares.

A água associada ao garimpo passou de um nível praticamente indetectável (menos de 0,1 hectare, da ordem de um pixel de satélite) em 2000 para cerca de 2,7 hectares em 2024.

O coordenador técnico do MapBiomas Águas Venezuela, Anderson Albarrán, explicou que os resultados da Coleção 3 mostram um sinal importante: durante o período de 2000 a 2024, observa-se uma tendência nacional de redução no total de água superficial. “Em 2024, foram detectados 3,17 milhões de hectares de água superficial, equivalentes a cerca de 3% do território nacional. Essa superfície é aproximadamente 3% menor do que a média histórica, estimada em 3,31 milhões de hectares. Além disso, nos últimos dez anos a superfície de água se manteve abaixo dessa média”.

Albarrán, que também coordena os Sistemas de Informação Socioambiental da Wataniba, afirmou que essa dinâmica ocorre em um contexto de crise climática e crescente variabilidade hidrológica. “O volume mais baixo já registrado ocorreu em março de 2016, durante um forte evento de El Niño: a superfície de água superficial estava 12% menor que a média histórica. Esse resultado não significa que todos os corpos de água se comportem da mesma maneira, mas evidencia a sensibilidade do território venezuelano a períodos de seca e a alterações nos padrões de precipitação”. 

Em 2024, cerca de 80% da superfície de água mapeada correspondia a corpos de água naturais, enquanto cerca de 20% correspondia a corpos de água antrópicos, vinculados a usos e infraestruturas humanas. “No entanto, a superfície de corpos de água naturais era 7% menor do que em 2000. A bacia do Caroní é uma das mais relevantes nesse contexto: entre as bacias analisadas, apresenta a segunda maior perda líquida de água superficial do país, 33,9 mil hectares entre 2000 e 2024. Só a bacia do Lago de Maracaibo mostra uma perda maior, de 52,7 mil hectares; em seguida vem a bacia do Caura, com 10,7 mil hectares”.

Na bacia do Caroní, a maior proporção está concentrada nos corpos de água para uso hidrelétrico, que sofreram uma leve variação para baixo nas últimas duas décadas. No entanto, no mesmo período, os dados do MapBiomas Venezuela mostram que os corpos de água natural observáveis por satélite diminuíram de 125 mil para 72 mil hectares, uma contração de 42%. Em contraste, as águas associadas ao uso de garimpo mais que dobraram, passando de 46 para 129 hectares.

A análise regional da investigação — a que comparou 722 microbacias nas quatro bacias — constatou que o Caroní segue o mesmo padrão do Peru e da Bolívia: quase toda a água artificial nova de seus rios surgiu onde há garimpo. E, como nas outras bacias, essa substituição recai sobre território indígena: quase todo o Caroní — 95% de suas microbacias — é território pemón.

Sobre o aumento das superfícies de água associadas ao garimpo, Albarrán alerta que devem ser interpretadas como um “alerta territorial”. “Em escala nacional, a superfície de água associada ao garimpo aumentou cerca de 50% entre 2000 e 2024 e se concentra principalmente no bioma Amazônia, ao sul do Orinoco. Em Apoipó, o sinal técnico mais relevante seria identificar onde coincidem quatro fatores: perda de vegetação natural, redução de água natural, transição para superfícies alteradas e surgimento ou expansão de água antrópica associada ao garimpo ou a outros usos”.

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O doutor em ciências ambientais Carlos Maytín acrescenta que um aspecto importante em relação à redução da água de origem natural em Apoipó, sobretudo após a queda no volume pluviométrico causada pelos efeitos do fenômeno El Niño, “é que essa redução ocorre apesar de as médias espaciais de precipitação acumulada terem aumentado na área (…) Essa tendência já dura cerca de 12 anos”. Segundo ele, antes de 2012, houve um período de alerta na dinâmica dos corpos de água, com valores de superfície muito baixos entre 2008 e 2011. Além da queda na superfície detectada de corpos de água natural, a perda de vegetação também é notável, com as maiores perdas a partir de 2012, chegando a 390 hectares em 2024, de acordo com os dados do MapBiomas. “Tudo aponta para um efeito negativo do aumento da superfície de uso minerário e a consequente perda de cobertura vegetal ao longo do tempo, que não foi compensada por períodos de aumento nas precipitações”, disse Maytín.

O especialista explicou que a perda de cobertura vegetal contribui para a diminuição da superfície de corpos de água naturais, “já que favorece processos de sedimentação e seu eventual assoreamento, devido a uma intensificação da erosão dos solos, ao transporte posterior e, finalmente, à sedimentação dos materiais erodidos nos setores mais baixos do terreno, onde se localiza a maioria dos corpos de água naturais”. 

“Na bacia do Caroní se articulam florestas, savanas, tepuis, rios, áreas úmidas, buritizais e territórios indígenas, de modo que qualquer transformação deve ser entendida como parte de um sistema interconectado. A importância desse olhar sistêmico é que o que acontece em um riacho, em uma cabeceira de bacia, em um buritizal ou em uma área de savana pode ter efeitos cumulativos rio abaixo”.

Anderson Albarrán, coordenador técnico do MapBiomas Venezuela

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A poucos metros do rio Kukenán há acampamentos onde vivem garimpeiros. As mulheres recolhem água da chuva e caminham até um riacho, a 20 minutos de distância, em busca de água | Foto: María Ramírez Cabello

“Os rios pedem socorro”

O impacto ambiental fica evidente no trajeto até a comunidade indígena pemón e também em sua entrada principal. Ali, a terra de um enorme buritizal — ecossistema do tipo área úmida em que predomina a palmeira de buriti (Mauritia flexuosa), chamada de moriche em outros países amazônicos — aparece revolvida à medida que o veículo avança. Não há máquinas nem garimpeiros no momento. Até poucos anos atrás, as famílias caminhavam até essa e outras fontes em busca de água para as tarefas do dia a dia. “Esse buritizal, acabaram com ele atrás de ouro”, disse uma mulher indígena, que pediu para não ser identificada por medo de represálias.

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Apoipó resalta en el mapa por la extensa huella minera y ahora también por la pérdida de agua natural en su territorio, de acuerdo con datos de MapBiomas Venezuela. La comunidad ha construido dos diques para el suministro de agua hasta el poblado | Foto María Ramírez Cabello

Os buritizais podem reter água e amortecer déficits hídricos, embora essa capacidade dependa do tipo de área úmida e do contexto local. Além disso, são um importante habitat de aves, mamíferos e répteis. “Quando se elimina ou fragmenta a vegetação de um buritizal ou de seu entorno, o solo fica mais exposto”, explicou o coordenador do MapBiomas Água | Foto: María Ramírez Cabello

Jhony Pérez, responsável pelo comitê de garimpo da comunidade, lembra que iam com recipientes de plástico para se abastecer de água. “O buritizal era bom, mas o garimpo afetou muito”, diz. A extração de ouro ocorreu por volta de 2006, mas, por causa dos danos, tiveram que interrompê-la, precisa o presidente do Conselho de Anciãos, Eude Piñero.

O homem lembra que pelos riachos corria água pura, mas os garimpeiros taparam alguns cursos d’água. “Eram rios saudáveis, lugares de lazer, naturais. A gente se banhava, pescava, eu vivi isso. Era bonito, não havia contaminação como agora. Por volta de 1994, as empresas já tinham introduzido maquinário pesado”, conta. “Trechos de riachos desapareceram; nas cabeceiras eles ainda existem, mas uma parte — calculo que até 500 metros — está totalmente tampada em alguns riachos”.

Piñero, que também garimpa, diz que, se os rios pudessem se comunicar, pediriam socorro. “É uma preocupação muito grande, porque a destruição está à vista. Como membros da comunidade, quisemos trabalhar de forma controlada, mas alguns líderes permitiram a entrada de maquinário pesado. Eu não permiti isso quando fui capitão. Depois houve uma briga interna. Quando larguei tudo, veio o desastre. Mas é a única fonte que está gerando renda”. 

Constantino Díaz, capitão da comunidade, diz que, para garantir o fornecimento de água para consumo, decidiram construir duas represas que abastecem Apoipó por gravidade. Uma foi construída em 2023 e outra em 2026. Há uma norma comunitária clara: é proibido garimpar nas áreas altas que abastecem as represas. “Depois que ganhei a capitania, o território já estava afetado, então nós também compramos motores, porque, tendo ouro debaixo da terra, é preciso tirá-lo para sustentar a comunidade (…) O que entra com o garimpo tem sido investido em obras, em educação e saúde”, diz.

https://recursos.elclip.org/aguas-partidas/video-apoipo.mp4

Díaz, que exerce seu segundo mandato como autoridade indígena, é um defensor declarado do garimpo e, inclusive, o pratica. “Todo mundo menciona Apoipó, mas nós é que recebemos toda essa contaminação, porque aqui mais acima também há garimpo”, diz o capitão de 45 anos.

A comunidade tem um regulamento geral com 11 artigos sobre as atividades de pequeno garimpo, que estabelece que “todo membro e morador da comunidade tem direito ao trabalho que gere renda para o sustento da família e cubra as despesas de manutenção do lar, sem nenhuma restrição que piore a qualidade de vida de cada um dos membros da família”.

Reglamento

A norma também determina que é dever de todo dono de monitores hidráulicos — equipamento mecânico que dispara água em alta pressão para desprender as paredes das minas — contribuir para o desenvolvimento comunitário, de acordo com os planos e projetos estabelecidos pela comunidade. Um relatório de gestão da capitania mostra uma extensa lista de obras realizadas desde 2007, diante da falta de resposta das autoridades governamentais, com recursos provenientes do garimpo. A escola técnica foi construída com fundos da mina. Também o posto de saúde de atenção médica primária, o templo da religião adventista, o refeitório comunitário, o salão de usos múltiplos, a arquibancada esportiva e duas pontes sobre pequenos igarapés. Com o dinheiro do ouro, compraram uma lancha, dois geradores elétricos, insumos médicos e equipamentos de som para a comunidade. Com o ouro, pagam até os salários dos professores da escola.

Escuela te?cnica
A Escola Técnica foi construída com recursos provenientes do garimpo, de acordo com o relatório de gestão da capitania indígena

 

Nos acampamentos próximos às minas, porém, o acesso à água não é por encanamento. Neles vivem garimpeiros não indígenas vindos de diversos estados do país. Taniuzka Vásquez, comerciante de 36 anos natural do estado Sucre, recolhe água da chuva em baldes e caminha cerca de 20 minutos até um riacho para buscar água para lavar, cozinhar e beber. Embora as casas improvisadas, de madeira e lonas plásticas, fiquem a poucos metros do rio Kukenán, ninguém bebe água do rio. “Como é que eu vou beber água do rio? Está suja!”, diz Johannys Lugo, uma jovem de 25 anos, mãe de dois filhos, de oito e nove anos. “A gente recolhe água do poço e do riacho e ferve”, afirmou.

Pozo Campamento
Algunas familias buscan agua en un pozo cerca del campamento. A pocos metros está el río Kukenán | Foto María Ramírez Cabello
Agua recolectada

No programa de gestão comunitária 2025-2028 de Apoipó, um dos objetivos é estabelecer condições de trabalho para as áreas de garimpo que considerem a recuperação de áreas afetadas pela extração de minerais. O presidente do Conselho de Anciãos, Eude Piñero, contou que a comunidade tem um projeto de viveiro comunitário com capacidade para 10 mil mudas de diversas espécies, com as quais pretendem reflorestar as áreas afetadas. 

Mas vão precisar de mais, pois todos concordam que só o garimpo lhes permite sobreviver. Em maio de 2026, uma decisão pouco divulgada das autoridades indígenas colocou essa comunidade e outras, dentro e fora do Parque Nacional Canaima, diante de uma prova complicada.

A resolução determinava a paralisação das atividades de garimpo durante as duas últimas semanas de maio, com vistas à busca e avaliação de alternativas econômicas que não se baseassem na exploração de minerais nesse território de povos indígenas e ecossistema frágil, parte vital de uma das bacias mais importantes da Venezuela: a do rio Caroní. 

“Alguns propuseram três meses, mas foram só duas semanas. Até o comércio estava preocupado, porque todo mundo vive do garimpo. É uma realidade”, disse o capitão Díaz.

Depois de décadas de garimpo, que deixou marcas profundas na terra e nas próprias tradições, há uma avaliação da qual as autoridades indígenas compartilham. Como diz José Bolívar, “o garimpo só vai acabar quando o Estado venezuelano atender a comunidade como deve, em serviços, estradas, educação, saúde. Enquanto isso não acontecer, seguiremos trabalhando na mina, não há outra fonte de renda”.

Devastadores Digitais

Este projeto é resultado de uma colaboração entre jornalistas e cientistas latino-americanos, promovida pelo Instituto Serrapilheira, do Brasil, e pelo Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLIP), com o objetivo de explorar o ciclo hidrológico Atlântico – Amazônia – Andes e as perturbações nos serviços ambientais que ele proporciona ao continente. 

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