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Crescem ataques digitais e criminalização contra quem denuncia danos ambientais e perda de floresta em Yucatán

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Ilustración: Alejandra Saavedra López.

Em Yucatán, no sul do México, a violência digital contra defensores ambientais começou a ganhar força desde 2023. Em casos como os de Sergio Oceransky, diretor da Fundación Yansa, e de Wilberth Nahuat, líder da comunidade de Santa María Chi que conseguiu fechar uma granja de suínos que afetava seu território, esses ataques escalaram. As agressões contra os defensores não se limitaram ao mundo virtual — ambos enfrentam processos judiciais.

Por Thelma Gómez Durán e Ana Laura Vásquez / Mongabay Latam

O vídeo tem um título provocador, em letras maiúsculas: “SINISTRO PLANO SECRETO para DIVIDIR O MÉXICO E CONQUISTÁ-LO: ELITE GLOBAL busca REVOLUÇÃO INDÍGENA”. Durante pouco mais de 36 minutos, o homem que aparece na tela afirma que o México está prestes a desaparecer por culpa do “falso indigenismo que destruiu nações inteiras”. Com a mesma postura adotada por analistas de telejornais, adverte que o país pode terminar na “africanização, que seria parecido com balcanizar ou palestinizar”. E garante que o responsável por tudo isso é um espanhol chamado Sergio Oceransky. Por isso, sugere que “o quanto antes, estimados mexicanos, se organizem de forma pacífica para expulsá-lo do país”.

O vídeo foi transmitido no dia 10 de dezembro de 2025 no canal do YouTube Los Liberales, do argentino Nicolás Morás. É o primeiro de pelo menos seis vídeos que ele transmitiu contra Sergio Oceransky Losana, fundador e diretor da Fundación Yansa desde 2009, organização não governamental que a partir de 2019 assessora comunidades que denunciam o espolio de seus territórios e, em especial, a expansão de projetos imobiliários em Yucatán, no sul do México.

O canal do YouTube Los Liberales é apenas um dos vários espaços do mundo digital que nos últimos três anos difundiram mensagens contra Oceransky, informações que enfatizam o fato de ele ser “espanhol” ou o apresentam como um “falso ativista” que engana e manipula as comunidades.

Oceransky não é o único defensor do meio ambiente no México que denunciou ser alvo de publicações contra si veiculadas na internet ou nas redes sociais. Essa violência também atingiu moradores de comunidades que se organizaram para defender seu território e deter a perda de importantes extensões de áreas naturais que hoje afeta a Península de Yucatán. Nessa região do país está a maior extensão de floresta tropical mais ao norte do continente americano. Trata-se da Selva Maya. Esse território também é um dos poucos lugares do mundo onde é possível encontrar cavernas com água subterrânea, batizadas de cenotes pelos antigos maias.

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21 de março de 2026. Nas ruas de Mérida, capital de Yucatán, moradores de diferentes comunidades realizaram uma marcha pela defesa do território. Foto: Coletivo Defensores y Protectores del Futuro de Ixil

Algumas das páginas do Facebook que nas comunidades servem para divulgar a venda de produtos ou avisos, agora também são usadas para publicar mensagens contra as pessoas defensoras do meio ambiente e do território. Em alguns casos, esses ataques escalaram para níveis mais amplos.

Em Yucatán, por exemplo, essa violência digital foi dirigida sobretudo a duas pessoas: Sergio Oceransky — que além de assessorar comunidades, também apresentou uma denúncia cidadã junto às autoridades ambientais contra uma empresa imobiliária por realizar mudança de uso do solo florestal — e Wilberth Nahuath Puc, comissário municipal de Santa María Chi, a pessoa mais visível do um movimento que conseguiu fechar uma granja de suínos.

Entre setembro de 2023 e até 14 de maio de 2026, foram difundidas pouco mais de 149 publicações contra o diretor da Fundación Yansa. E, entre março e dezembro de 2024, em cerca de trinta portais de internet se propagaram pelo menos 60 textos contra Nahuat, de acordo com o banco de dados integrado para esta investigação.

Em ambos os casos, as campanhas usaram padrões similares: textos apresentados como matérias jornalísticas, mas sem fontes, com títulos e conteúdos que pareciam copiados. Além disso, foram distribuídos pelos mesmos canais: sobretudo portais de internet que, em sua maioria, pertencem aos mesmos grupos de notícias ou têm algum tipo de vínculo. Para a campanha contra Oceransky, também foram criadas páginas do Facebook a partir das quais se difundem matérias e vídeos contra o diretor da Fundación Yansa.

As publicações se intensificaram em momentos-chave: quando as pessoas obtiveram alguma conquista em seu movimento, denunciaram irregularidades de projetos imobiliários ou foram a audiências nos tribunais. As publicações também coincidiram com ações judiciais contra os ambientalistas.

Estes são alguns dos achados desta investigação realizada pela Mongabay Latam, como parte de Taladores digitales (Madeireiros digitais), projeto em que participam sete veículos de comunicação, coordenados pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP), que investigou os ataques digitais contra pessoas e movimentos que realizam defesa do meio ambiente na América Latina.

Redes de ataque PORTUGUES (1)
Ilustração: Oldemar.

Organizar-se para defender o território

Desde 2018, moradores de Ixil começaram a se organizar para evitar que fossem expropriados de suas terras ejidais e comunitárias. O estopim foi um parque eólico que uma empresa buscou construir em terrenos que, segundo se afirmava, eram privados. Nesse contexto, Oceransky, por meio da Fundación Yansa, começa a acompanhar o coletivo Defensores y Protectores del Futuro de Ixil. O ativista já havia trabalhado com comunidades de Oaxaca que se opuseram à instalação de parques eólicos no Istmo de Tehuantepec, operados por transnacionais e com contratos apontados como desiguais para os moradores da região.

Oceransky nasceu em Astúrias, na Espanha. Vários integrantes de sua família são mexicanos. Ele tem dupla nacionalidade: espanhola e mexicana. Fez parte do movimento antinuclear e de coletivos que impulsionam uma transição energética que leve em conta as comunidades.

Com o acompanhamento da Fundación Yansa, o coletivo Defensores y Protectores del Futuro de Ixil conseguiu que a empresa cancelasse seus planos de construir o parque eólico e que as autoridades ambientais interrompessem a edificação de, pelo menos, dois projetos imobiliários. Mas há anos tentam reverter, nos tribunais, as ações realizadas por um homem que prometeu regularizar seus documentos como ejidatarios, mas que foi denunciado por utilizar suas assinaturas para mudar o destino das terras ejidais, como documentaram diversos veículos e estudos acadêmicos.

Há algum tempo, os Defensores y Protectores del Futuro de Ixil têm outra luta: buscam que sejam reconhecidas como terras comunitárias 324 hectares que empresários de Yucatán afirmam ter comprado. Para o coletivo, essa venda não é válida. Esses terrenos, afirmam, foram cedidos pela comunidade à hacienda que funcionou durante décadas em Ixil. Nela se produzia henequén, fibra natural muito resistente que no século XIX viveu um grande auge. Quando a hacienda fechou, esses terrenos, onde predomina a mata baixa (selva baja), foram utilizados para cultivar hortaliças. Assim o fizeram os avós e pais dos camponeses que nessas terras continuam cultivando cebolas, alfaces ou coentro que depois vendem na cidade de Mérida.

“Tem quem diga que são brigas de terra. Não é isso. É defender o que é nosso”, diz em entrevista a mulher, a quem chamaremos de María para preservar sua identidade. Suas palavras são seguidas por mais de 20 pessoas reunidas no pátio de uma casa em Ixil. Durante pouco mais de duas horas, lembram como se organizaram e por que não querem que os projetos imobiliários continuem derrubando o mato: “As imobiliárias que vêm agora (ahorita) vêm para destruir o que durante muitos anos a terra cuidou, o que durante muitos anos a terra teve”.

Lamentam que sua luta tenha lhes trazido ataques, divisão na comunidade e que também tentem difamá-los por meio de comentários publicados no Facebook: “Puseram coisas feias sobre minha filha”, “Nos insultam”, “Dizem que nos pagam, que não somos defensores”…

Os integrantes do coletivo dizem que a maioria desses ataques é lançada a partir de perfis que não podem ser identificados. Para eles, é incômodo ler essas mensagens, mas não é algo que os tire o sono. O que mais os preocupa agora é a criminalização contra integrantes de seu movimento.

A criminalização que mencionam começou em abril de 2023, quando os empresários de Yucatán que afirmam ser donos das 324 hectares apresentaram uma queixa criminal contra Guillermo Yam Ek, Cecilio Cisneros e Sergio Oceransky. Os acusaram de esbulho possessório (despojo).

Meses depois, em meados de agosto de 2023, policiais estaduais chegaram a Ixil para colocar cercas de arame ao redor das 324 hectares que os empresários reivindicam como suas. Moradores da comunidade tentaram impedir, sem conseguir. Fotografias daquele momento foram usadas nas primeiras publicações contra Oceransky.

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Agosto de 2023. Policiais estaduais guardam as 324 hectares que moradores de Ixil defendem. Foto retirada da página do Facebook do coletivo Defensores y Protectores del Futuro de Ixil.

 

Começam as publicações

Em 8 de setembro de 2023, o canal do YouTube Noticias Teleplay divulgou um vídeo intitulado: “CONFLITO DE IXIL TERIA NOME E SOBRENOME: SERGIO OCERANSKY”. Nele se afirma que o diretor da Fundación Yansa, “homem de origem espanhola, é o suposto responsável pelos conflitos e atos de violência” em Ixil. A voz enfatiza que o ativista é um estrangeiro que engana os moradores da comunidade, “fazendo-os acreditar que os ajudará a recuperar suas terras”. Também se afirma que as mais de 300 hectares foram vendidas pelos próprios ejidatarios e que pertencem “de forma legítima ao setor privado”.

O canal Noticias Teleplay faz parte da Teleplay.tv, cujos direitos estão em nome de Rojas Sarlat Producciones, produtora de vídeo do sudeste mexicano. O diretor é José Luis Rojas Sarlat, que de acordo com seu perfil no LinkedIn esteve à frente da direção de produção do Canal Trece, da Televisión Yucateca, entre 2004 e 2007. Na página do Facebook da produtora, Rojas Sarlat postou várias imagens em que ele aparece com políticos de Yucatán, entre eles o atual governador, Joaquín Jesús Díaz Mena, e a prefeita da cidade de Mérida, Cecilia Patrón Laviada.

Esta aliança jornalística enviou um e-mail a Rojas Sarlat para perguntar sobre a publicação deste vídeo. O diretor da Teleplay Networks respondeu que “uma moradora que trabalhava aqui nos escritórios e vivia em Ixil foi quem trouxe os vídeos”. Ele afirmou que a publicação foi uma decisão tomada pela pessoa que então ocupava o cargo de diretora de notícias e por um assessor. Ambos, apontou, não trabalham mais em sua empresa. Rojas Sarlat mencionou que nem Oceransky nem alguém de sua equipe solicitaram direito de resposta. Também afirmou que um grupo de moradores de Ixil pediu outra matéria, “mas não aceitei, justamente porque vejo que é um tema com muitos interesses que desconheço por trás. Mas não deixa de ser um conflito de terras entre particulares, como há muitíssimos com esse boom imobiliário que existe em Yucatán”.

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Desde agosto de 2023, policiais do governo do estado guardam as 324 hectares que estão em litígio em Ixil. Foto: Ana Laura Vásquez

As imagens e a narrativa que Noticias Teleplay usou em seu vídeo são semelhantes às que vários portais digitais e, inclusive, o canal do YouTube Los Liberales difundiram contra Oceransky.

Dois dias depois de Notícias Teleplay veicular o vídeo, pelo menos cinco portais publicaram quase a mesma matéria, afirmando que um “espanhol” ou “estrangeiro” “manipulava ixileños para se apropriar de suas terras”.

El Observador Gráfico Yucatán foi um dos portais onde foram publicadas as primeiras matérias contra Oceransky. O site foi criado por José Pallota, fotógrafo que trabalhou em um dos jornais locais de maior circulação em Yucatán. “Quando houve uma demissão em massa nos jornais, todo mundo começou a criar sua própria página (web)”, conta no estúdio de fotografia onde também preparou um espaço para realizar transmissões no YouTube.

Sobre a publicação que seu portal fez em 11 de setembro de 2023, Pallota não lembra como obteve os dados que acusam Oceransky de supostamente manipular pessoas de Ixil. Talvez, diz, o texto tenha sido passado por algum de seus colegas que, como ele, também criaram portais de notícias. É comum, garante, que alguns deles distribuam “matérias”, incluindo as fotografias que devem acompanhá-las. Às vezes pedem que o texto seja publicado exatamente como está, sem nenhuma alteração.

Outros portais que, em 11 de setembro de 2023, difundiram quase o mesmo texto contra Oceransky foram El Cronista Yucatán, Diario de la Península, Presidio e Vector Yucatán. Após esse dia, não publicaram mais informações contra o diretor da Fundación Yansa.

Em setembro de 2023, a página do Facebook Verificado México (não associada ao veículo de checagem de fatos mexicano Verificado) também difundiu um post contra Oceransky. Para que sua publicação tivesse maior alcance, pagou publicidade à rede social. O e-mail cadastrado para realizar o anúncio foi info@cuatrojos.mx. O domínio cuatrojos.mx esteve registrado em nome de Roberto Emmanuel Durán Flores, pessoa responsável pela diretoria de difusão e comunicação da Secretaria de Segurança Pública de Yucatán, de acordo com o diretório disponível na página oficial do governo estadual.

Esta aliança jornalística procurou Durán Flores, que por mensagens de WhatsApp afirmou não ter registrado o domínio cuatrojos.mx. No entanto, reconheceu: “colaborei com Cuatrojos entre janeiro e março de 2018”. Perguntado sobre os nomes da empresa ou das pessoas com quem colaborou: “sinceramente não me lembro, faz muitos anos e não era uma empresa, era um grupo de conhecidos que usavam esse nome em seu empreendimento e me convidaram a colaborar”.

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A página do Facebook Verificado México pagou publicidade no Facebook para que sua publicação contra Oceransky tivesse maior alcance. O e-mail cadastrado está vinculado ao domínio cuatrojos.mx

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Por meio de uma consulta WHOIS, que mostra dados de propriedade de páginas *web*, é possível saber que, em junho de 2022, uma pessoa chamada Roberto Emmanuel Durán Flores registrou o domínio [cuatrojos.mx](http://cuatrojos.mx)
Integrantes do coletivo Defensores y Protectores del Futuro de Ixil lembram em entrevista que pessoas da comunidade, próximas ao homem que denunciaram por fazer a mudança de destino das terras ejidais, encarregaram-se de espalhar pela comunidade as primeiras matérias publicadas contra Oceransky: “um deles andava com seu celular dizendo: ‘Olhem quem é esse espanhol. Vejam quem é esse espanhol que está enganando vocês’. Isso tem sido uma constante, dizer que Sergio vai ficar com as terras, que vai construir um parque eólico”.

María também lembra que chegaram a dizer que o diretor da Fundación Yansa já tem terras em Ixil: “dizemos a eles: ‘nos mostre quais terras'”. Os integrantes do coletivo consideram que as publicações contra Oceransky, assim como os ataques contra eles nas páginas do Facebook, começaram a ser mais agressivos “quando viram a força do nosso grupo. Quando viram que não éramos poucos”.

As publicações contra Oceransky não abalaram os integrantes do coletivo: “nada do que dizem é verdade. Sergio sempre foi claro conosco; sempre faz reuniões públicas onde tudo é dito. Conhecemos seu trabalho”.

As publicações contra Oceransky cessaram por um tempo. Entre janeiro e maio de 2024, foram difundidas algumas, não mais de cinco. Mas foi a partir de novembro de 2025 que as publicações se intensificaram. Além disso, integrantes do coletivo mencionam que nas redes sociais começaram a circular mensagens como estas: “que informações podem dar sobre esse espanhol?”. E afirmam que se oferecia dinheiro para participar de uma marcha contra o diretor da Fundación Yansa.

Meses antes, em setembro de 2025, o Conselho Comunitário de Ixil conseguiu que o município de Ixil fosse retirado do convênio de criação da Zona Metropolitana de Mérida. Os integrantes do conselho argumentaram que a comunidade não foi consultada. Para eles, essa medida abria ainda mais a porta para a expansão de empreendimentos imobiliários em seu território. Nesse processo, a Fundación Yansa também acompanhou juridicamente o Conselho Comunitário de Ixil.

Mais algo aconteceu nesses meses: um juiz suspendeu temporariamente as obras de um projeto imobiliário localizado no município de Progreso, que anos antes havia sido denunciado por Oceransky.

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Obras do projeto imobiliário que está sendo erguido no município de Progreso e que, a partir de uma denúncia apresentada por Oceransky, um juiz suspendeu em outubro de 2025. Foto: Profepa.

Roteiros do YouTube

O criador do canal do YouTube “Los Liberales”, Nicolás Morás, nasceu em 1994, reside no Paraguai — país que elogia por considerar que tem “o capitalismo mais saudável” — e é um “liberal anarquista”, de acordo com a descrição em sua conta do X. Afirma defender “o capitalismo de livre mercado e a liberdade absoluta do ser humano”. É crítico do ecologismo, do feminismo, do discurso de proteção ao meio ambiente, dos objetivos da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, da Organização das Nações Unidas (ONU) e dos movimentos indígenas de defesa do território.

O canal do YouTube de Morás divulgou o primeiro vídeo sobre Oceransky em 10 de dezembro de 2025, poucos dias depois de vários portais e páginas do Facebook intensificarem a publicação de textos contra o diretor da Fundación Yansa.

Nos primeiros minutos do vídeo, Morás se refere ao ativista como “um agitador profissional”, que está “tentando, de forma descarada, sujar as empresas mexicanas competentes”. No minuto 05:36, a imagem se divide: do lado esquerdo continua aparecendo Morás; do lado direito vê-se a tela do computador com o roteiro que o apresentador lê: “Oceransky se apresenta como um nobre ativista que tem denunciado essas empresas por querer privatizar e expropriar das suas terras ejidais os nativos indígenas de Ixil, na zona de Yucatán”.

Morás enfatiza certas palavras, improvisa e acrescenta algumas frases. Por exemplo, em vez de “essas empresas”, diz: “essas companhias mexicanas, muitas delas conhecidas por um grande investimento social, ou seja, em obras solidárias e filantrópicas”. Mais adiante, menciona nomes: “empresas que, como Ciudad Maderas, geram milhares de empregos regionais diretos e indiretos”.

O roteiro que Morás lê, e que aparece na tela por cerca de três minutos, está em um documento intitulado “Guión-Sergio-Oceransky-Caso Jury”.

De acordo com documentos consultados no Registro Público de Comercio da Secretaria de Economia, Jury é o sobrenome da maioria dos acionistas de duas empresas: o Centro Inmobiliario del Bajío e a Inmobiliaria Plaza Querétaro.

A primeira, o Centro Inmobiliario del Bajío, foi a empresa que tramitou a Manifestación de Impacto Ambiental (MIA) para a etapa de construção de vias de Ciudad Maderas II, projeto em desenvolvimento no município de Progreso, cuja segunda fase busca urbanizar pelo menos 531,75 hectares, de acordo com o documento disponível na página da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Naturais (Semarnat). A autorização da MIA é apenas uma das licenças necessárias para construir um empreendimento imobiliário em terrenos florestais.

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Zona onde está sendo construído o empreendimento imobiliário Ciudad Maderas, no município de Progreso. Foto: Profepa

O Centro Inmobiliario del Bajío tem entre seus acionistas e representantes legais Jaime Salvador Jury Estefan, Gastón Jury Arce e Daniela Jury Lazo, de acordo com documentos do Registro Público de Comercio da Secretaria de Economia.

Em fevereiro de 2023, Oceransky apresentou uma denúncia cidadã à Procuradoria Federal de Proteção ao Meio Ambiente (Profepa) contra o Centro Inmobiliario del Bajío, pela suposta mudança de uso do solo florestal nos terrenos onde está sendo construído o Ciudad Maderas Península. Em 2022, “já estavam fazendo construções. Não apenas abrindo estradas, já estavam construindo casas”, explica em entrevista à Mongabay Latam.

O ativista afirma que apresentou a denúncia popular “a título pessoal, nem mesmo como Fundación Yansa, para não colocar em risco pessoas da comunidade de Chuburná (uma das mais próximas ao empreendimento) nem a equipe da Yansa”. Em 2025, Oceransky também entrou com um mandado de segurança (amparo) contra a Profepa, por considerar que não atendeu sua denúncia cidadã. Como resultado dessas ações, em outubro daquele ano um juiz suspendeu as obras em Ciudad Maderas, enquanto o processo é resolvido.

Esta aliança jornalística enviou e-mails a Nicolás Morás para conhecer sua versão sobre por que o roteiro de um de seus vídeos trazia o título “Caso Jury”. Não houve resposta.

Ciudad Maderas tem licenças?

A Mongabay Latam solicitou entrevista à Semarnat. A assessoria de imprensa pediu que o questionário fosse enviado. Uma das perguntas foi se o projeto imobiliário Ciudad Maderas Península, em suas fases I e II, possui autorizações de mudança de uso do solo em terrenos florestais, licença necessária para desmatar.

A resposta recebida foi que “o Escritório de Representação da Semarnat em Yucatán NÃO EMITIU NENHUMA [sic] autorização de mudança de uso do solo em terrenos florestais para os projetos imobiliários ‘Ciudad Maderas Península I’ e ‘Ciudad Maderas Península II’, localizados no município de Progreso, Yucatán”.

Nos escritórios de vendas que Ciudad Maderas tem em Mérida há uma maquete e plantas do projeto que está sendo construído em terrenos do município de Progreso. “Este empreendimento é lindo. Tem mais de 1.200 hectares no total… conta com dois lagos (artificiais)… mais de 20 amenidades: quadras de tênis, piscinas… A praia fica a uns seis ou sete minutos”, explica a consultora de vendas.

Las imágenes satelitales permiten conocer el antes y después de la zona donde se edifica el desarrollo inmobiliario Ciudad Maderas Península Fases I y II.

Durante dezembro de 2025, Nicolás Morás publicou mais três vídeos contra Oceransky. Um deles foi divulgado no último dia de 2025. Um dia antes, a Profepa havia informado em um comunicado de imprensa que embargava temporária e parcialmente o projeto Ciudad Maderas Península II, “por detectar o descumprimento de diversas condicionantes ambientais” estabelecidas pela Semarnat para a autorização da MIA. Uma delas foi a remoção de 151.766 metros quadrados de vegetação natural.

Para esta investigação também se solicitou entrevista com Mariana Boy, à frente da Profepa. A assessoria de imprensa enviou as respostas por escrito. A autoridade ambiental afirmou que, após o embargo de dezembro de 2025, pessoal do Escritório de Representação de Proteção Ambiental e Gestão Territorial em Yucatán realizou uma vistoria em matéria de impacto ambiental e, como medida de segurança, foi imposto um novo embargo temporário parcial do Ciudad Maderas Península Fase II.

Para Oceransky, o caso Ciudad Maderas mostra o que há alguns anos se expande em Yucatán: grandes extensões de terras florestais se transformam em áreas urbanas: “se esse empreendimento imobiliário avançar, será um incentivo para todos os demais… Há muitos projetos que estão desmatando sem permissão. Não temos vida suficiente para denunciar todos”.

De acordo com análises de imagens de satélite realizadas pela plataforma Global Forest Watch, entre 2020 e 2025, o estado de Yucatán perdeu 100.000 hectares de cobertura arbórea.

Até 30 de abril de 2026, Morás havia publicado pelo menos seis vídeos sobre Oceransky. Morás financia seu canal do YouTube com contribuições feitas via Mercado Pago ou Bitcoin. Também tem uma loja online onde vende cartas assinadas por ele ou videochamadas exclusivas. A partir de 250 dólares, os interessados podem encomendar um relatório sobre o tema desejado, “é claro que tratado com nossa abordagem”, e por 1.000 dólares é possível “conseguir um documentário de uma hora e meia”.

Uma das perguntas que esta aliança jornalística enviou a Morás, sem obter resposta, é se ele recebeu algum pagamento para publicar os vídeos contra Oceransky. Esta aliança também contatou o e-mail de imprensa e uma representante do YouTube, perguntando se os vídeos descritos nesta investigação violavam suas políticas de uso, mas não obtivemos resposta antes da publicação. Além disso, contatamos por e-mail com perguntas os representantes do Centro Inmobiliario del Bajío, mas até o momento da publicação não houve resposta.

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As autoridades ambientais embargaram as obras de construção do empreendimento imobiliário Ciudad Maderas em dezembro de 2025 e nos primeiros meses de 2026. Foto: Profepa

Portais vinculados

A suspensão judicial das obras de Ciudad Maderas coincidiu com a intensificação dos ataques digitais contra o diretor da Fundación Yansa. Entre 30 de outubro e 31 de dezembro de 2025, foram difundidas cerca de 50 publicações contra o ativista.

Pelo menos 19 publicações se propagaram em portais que fazem parte do Grupo Transmedia La Chispa, do Centro de Estudios e Investigación y Gobernabilidad S.A. de C.V., empresa criada em agosto de 2009, no estado de Tabasco, cujo objeto social abrange “realizar trabalhos de consultoria, assessoria, pesquisa, estudos e análises políticas”, “criar estratégias inerentes ao desenvolvimento dos meios de comunicação”, “a representação de agências informativas”, “o desenvolvimento de campanhas” e “o design de estratégias de comunicação social”, de acordo com documentos disponíveis no Registro Público de Comercio da Secretaria de Economia. O acionista majoritário, administrador único e diretor geral da empresa é Cruz Ulin Hernández. O diretor executivo do Grupo Transmedia La Chispa é José Cruz Ulin Romo, de acordo com seu perfil no LinkedIn.

Entre 20 e 27 de novembro de 2025, pelo menos 15 sites e páginas do Facebook publicaram textos contra o diretor da Fundación Yansa. Vários deles estão relacionados entre si. Por exemplo, El Ciudadano Voces, em sua página do Facebook, registrou o mesmo endereço de La Chispa de Yucatán. Além disso, em seu diretório informa que a “Transmedia e design” ficam a cargo de Mi Publi, agência de publicidade cujo CEO fundador é José Ulin.

Esta aliança jornalística enviou e-mails e ligou para os números de telefone relacionados ao Grupo Transmedia La Chispa, sem obter resposta.

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Outros sites que difundiram conteúdos críticos contra Oceransky são En Directo, Al Tiempo, Cyber México, Noticia Metropolitana e Fifi News. Os cinco portais publicaram textos quase idênticos sobre o ativista e todos compartilham o mesmo código AdSense fornecido pelo Google a sites para exibir anúncios. Isso significa que há grande probabilidade de que esses cinco portais compartilhem o mesmo administrador. Os dois primeiros, além disso, estão unidos por outro vínculo: têm o mesmo e-mail de contato em suas páginas web. E pelo menos outros sete sites, que também publicaram ao menos uma matéria contra o diretor da Fundación Yansa, compartilham o mesmo código Analytics do Google. Além disso, em maio de 2026, *Cyber México* e *En Directo* veicularam publicidade de um empreendimento de Ciudad Maderas em Aguascalientes.

Em janeiro de 2026, os portais do Grupo Transmedia La Chispa e o El Ciudadano Voces publicaram a mesma matéria sobre uma suposta manifestação de ejidatarios de Chuburná contra Oceransky. Não especificam em que local ocorreu essa mobilização. O Diario Cambio 22 também divulgou esse conteúdo. Ao revisar os metadados das fotografias publicadas nos diferentes portais, é possível identificar que os arquivos compartilham nome e servidor: “Inmobiliatios-yucatan-Business-1”, “Inmobiliarios-yucatam-4”, “Inmobiliarios-yucatan-1”.

O Diario Cambio 22 — site que difundiu pelo menos sete textos criticando o ativista — publicou em 6 de dezembro de 2025 uma matéria em que se afirma que “diversos atores do setor empresarial afirmam que Oceransky construiu um discurso baseado em acusações sem fundamento, afetando tanto investidores quanto centenas de famílias que dependem dos projetos que ele busca interromper”. Também destaca que, por causa das declarações de Oceransky, um dos setores mais afetados foi o imobiliário, “particularmente incorporadoras consolidadas como Ciudad Maderas”. E afirmam que os projetos da empresa contam com “licenças, estudos e autorizações vigentes”.

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Publicidade de venda de terrenos do lado de fora dos escritórios de Ciudad Maderas, na cidade de Mérida. Foto: Ana Laura Vásquez.

Os mesmos portais, outro defensor

Vários dos portais que nos últimos meses de 2025 difundiram matérias contra Oceransky, um ano antes realizaram ação semelhante contra outro defensor do meio ambiente em Yucatán, Wilberth Nahuat Puc, o comisario municipal de Santa María Chi, a pessoa mais visível do movimento que essa comunidade de cerca de 500 habitantes empreendeu para fechar a granja de suínos que contaminou seu poço de água e seu ar, de acordo com os laudos que levaram um juiz e as autoridades ambientais a ordenar seu fechamento.

Santa María Chi fica a 19 quilômetros da cidade de Mérida. Na década de 1990, nos terrenos da antiga hacienda que existe dentro da comunidade, instalou-se uma granja de suínos que cresceu até chegar a ter 73 currais, cada um com 600 a 700 porcos.

Os moradores de Santa María Chi contam que viviam como prisioneiros em suas próprias casas, com janelas e portas fechadas, para tentar conter o mau cheiro que se instalava em certas horas do dia. Não conseguiam se acostumar a lidar com as moscas que invadiam tudo. As doenças respiratórias eram recorrentes. Começaram a comprar água engarrafada, porque a que saía de seu poço cheirava e tinha gosto ruim. “Foi isso que eles nos roubaram, os da granja, nossa tranquilidade”, diz em entrevista Francisco Cauich, de 66 anos.

Assim viveram até que, em abril de 2023, a fetidez se espalhou, acompanhada de uma nuvem de fumaça que cobriu a comunidade. Só dias depois descobriram o responsável: “percebemos que era na granja, que havia um incêndio em todo o esterco, que estava queimando. O cheiro era horrível”, lembra Fernando Cruz, de 63 anos.

“Aquela queimada”, como a chamam na comunidade, detonou a mobilização cidadã. Em maio de 2023, moradores instalaram um plantón (acampamento/vigília) na entrada da granja. Lá, lembram, redigiram várias das denúncias cidadãs que somaram a tantas outras que nos meses anteriores tinham enviado a todas as autoridades que foram possível. Também apresentaram cerca de vinte mandados de segurança (amparos) pela inação governamental diante da contaminação provocada pela granja. Wilberth Nahuat começou a reunir todas as provas que permitissem demonstrar os danos ambientais: fotografias, estudos, depoimentos.

Em maio daquele 2023, trabalhadores do Grupo Porcícola San Gerardo denunciaram criminalmente Wilberth Nahuat pelos crimes de sequestro e esbulho de imóvel, alegando que por causa do bloqueio não conseguiram sair das instalações da granja. “Esta denúncia é um ato de criminalização contra quem defende seu direito a um meio ambiente saudável, garantido pela Constituição e por tratados internacionais dos quais o México é signatário”, sublinhou o Instituto Federal de Defensoría Pública (IFDP), que acompanha juridicamente Santa María Chi.

A denúncia contra Wilberth Nahuat não apagou a luta de Santa María Chi. A comunidade continuou com os processos legais contra a granja. Em 25 de abril de 2024, a comunidade obteve uma de suas conquistas: uma juíza federal ordenou uma suspensão provisória da Manifestación de Impacto Ambiental (MIA) que as autoridades estaduais estavam prestes a autorizar ao Grupo Porcícola San Gerardo.

Um dia depois, pelo menos 17 portais de internet publicaram a mesma matéria contra Wilberth Nahuat. Desses portais, onze fazem parte do Grupo Transmedia La Chispa. A mesma informação foi publicada pelos sites Visión Informática, Periódico Palacio, Al tiempo, Hombres del Poder, Cyber México, El Ciudadano Voces e El Chismógrafo en la red.

Redes de ataque PORTUGUES (1)
Ilustração: Oldemar.

Nas matérias publicadas contra Wilberth Nahuat se afirmava que moradores apontavam “incongruências” do defensor ambiental, porque ele só denunciava a granja de suínos, mas não o desmatamento realizado pelas empresas que constroem empreendimentos imobiliários ao redor da comunidade. Chegaram até a sugerir que o comisario recebeu dinheiro dessas companhias para construir sua casa.

Em entrevista à Mongabay Latam, Wilberth Nahuat esclarece que a luta de Santa María Chi se concentrou apenas em fechar a granja e não em combater o avanço do desmatamento provocado pelas imobiliárias, “porque não podíamos ter tantos processos abertos. Não podíamos ter outro processo legal se não concluíamos o que já tínhamos”.

Dois anos se passaram desde essas matérias. Wilberth Nahuat lembra a “impotência horrível” que sentiu ao lê-las. Como era de se esperar, essa informação chegou até sua família, às pessoas de Santa María Chi e a seus conhecidos em outras comunidades. Além de sua atuação como comisario municipal, o defensor também dança jarana, ritmo tradicional da Península de Yucatán, razão pela qual se apresenta nas festas comunitárias. Depois das publicações, em alguns desses lugares, entre brincadeira e brincadeira, perguntavam a ele: “que você estava vendendo terras?”. Para ele, os ataques digitais tiveram um efeito prolongado: “sinto raiva só de lembrar”.

Rafael Rivas, morador de Santa María Chi, conta que as publicações não abalaram seu movimento, porque as acusações contra Wilberth Nahuat “são falsas. Nós o apoiamos. E eles só queriam nos dividir”.

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Wilberth Nahuat, comisario de Santa María Chi. Foto: Ana Laura Vásquez

Fechar a granja

Para os moradores de Santa María Chi, um dos momentos mais difíceis foi a denúncia criminal contra Wilberth Nahuat. “O denunciaram com pura mentira e veio a [polícia] judiciária querendo levá-lo, mas naquele dia todos nós saímos. Tocamos os sinos [da igreja] e ficamos com ele”, lembra em entrevista Rita De Casia, de 56 anos.

A denúncia também fez com que Wilberth Nahuat ouvisse comentários como: “não vão conseguir fechar essa empresa”, “vão te matar”, “você não tem medo?”. A resposta que ele dava era quase sempre a mesma: “se a comunidade apoia a luta, podemos seguir em frente”.

Nos dias 15 e 16 de maio de 2024, os ataques digitais contra Wilberth Nahuat se reativaram com textos que tinham os mesmos conteúdos e fotos. Seis meses depois, registrou-se uma nova onda de publicações. Entre 22 de novembro e 16 de dezembro de 2024, foram publicadas pelo menos 37 matérias contra ele nos portais do Grupo Transmedia La Chispa, El Ciudadano Voces e Visión Informativa.

Nos títulos das matérias se afirmava que o representante de Santa María Chi “não é um defensor ambiental”, “metade do povo o ignora” ou “a ONU coloca a mão no fogo por suposto criminoso”. Essas publicações coincidiram com a reeleição de Wilberth Nahuat como comisario de Santa María Chi e com uma audiência judicial realizada como acompanhamento à denúncia contra Wilberth Nahuat.

 

Em setembro de 2025, a Profepa embargou total e definitivamente a granja de suínos, pelo “descumprimento reiterado de sete medidas corretivas, entre elas a descarga direta de seus efluentes sem permissão”. Um mês depois, um juiz de Yucatán determinou que não havia provas suficientes contra Nahuat e declarou o não exercício da ação penal contra ele. No entanto, a parte acusadora recorreu da decisão, de modo que em 17 de junho de 2026 ele terá que comparecer novamente aos tribunais para uma audiência judicial.

Em 30 de abril de 2025, os moradores de Santa María Chi conseguiram o que tanto almejavam: a granja de suínos encerrou suas operações. Agora, a comunidade tem novos objetivos: fazer com que a empresa cumpra o plano de remediação ambiental e evitar que as imobiliárias continuem se expandindo. “Aqui, o espolio de terras está por todos os lados. Em qualquer comunidade que você vá, vai ouvir as reclamações. Já quase não tem mata. A selva alta está acabando”, diz Francisco Cauich, de Santa María Chi.

Em novembro de 2027, Wilberth Nahuat terminará seu segundo mandato como comisario municipal. Não poderá se reeleger, mas continuará acompanhando as ações de remediação ambiental. Fará isso a partir do Conselho Comunitário de Santa María Chi. Esta comunidade é uma das seis que, até maio de 2026 e com a assessoria da Fundación Yansa, haviam constituído esses conselhos para fortalecer suas ações de defesa do meio ambiente e do território.

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Wilberth Nahuat faz parte do Conselho Comunitário de Santa María Chi. Foto: Ana Laura Vásquez

De Yucatán a Jalisco

Em 25 de novembro de 2025, a conta do TikTok da Icer Real Estate — que divulga os empreendimentos imobiliários Ciudad Maderas construídos em diversos estados do país — publicou um vídeo originalmente veiculado pela Actualidad MX, página que publicou seu primeiro post naqueles dias, e foi justamente esse vídeo.

Como se fosse um telejornal, ouve-se: “autoridades penais de Yucatán buscam o espanhol Sergio Oceransky pela prática de diversos crimes”, sem que se especifique a quais crimes se refere. Também se afirma que na Promotoria de Yucatán havia inquéritos abertos contra o ativista, “sem que as autoridades penais tenham conseguido localizá-lo”. A Mongabay Latam perguntou à promotoria do estado se havia outras denúncias contra o diretor da Fundación Yansa. Até a publicação deste texto, não houve resposta.

Durante aqueles dias de novembro de 2025, ao contrário do que afirmava o vídeo, o paradeiro de Oceransky era fácil de encontrar, já que o ativista deu uma coletiva de imprensa na cidade de Mérida, ao lado de moradores de Ixil e Kinchil.

Só nos primeiros meses de 2026 Oceransky soube que havia um processo legal contra ele, mas em tribunais de Jalisco, estado que fica a quase um dia de viagem de carro de Yucatán. Em 6 de abril de 2026, o ativista foi citado no Juzgado de Control 11 de Tonalá, Jalisco, para responder a uma denúncia contra ele pelo suposto crime de extorsão, apresentada em 25 de novembro de 2025. De acordo com o inquérito, ao qual se teve acesso, quem o acusou eram funcionários da Inmobiliaria Plaza Querétaro, S.A. de C.V., a outra empresa dos Jury, que afirmaram ter recebido ligações telefônicas de Oceransky pedindo dinheiro.

De acordo com documentos do Registro Público de Comercio da Secretaria de Economia, a Inmobiliaria Plaza Querétaro é uma empresa criada em janeiro de 1990 por Jaime Salvador Jury Estefan. Entre seus representantes legais estão Gastón Jury Arce e Daniela Jury Lazos, as mesmas pessoas acionistas ou representantes legais do Centro Inmobiliario del Bajío.

Quando Oceransky saiu da audiência, foi detido, sob o argumento de que não havia comparecido a audiências anteriores. Ficou algumas horas no Complexo Penitenciário de Puente Grande, em Jalisco; no mesmo dia, um juiz determinou sua soltura condicionada. Seis dias depois, o juiz Christopher Daniel Márquez González decidiu não pronunciá-lo a processo, por não encontrar elementos suficientes para comprovar o crime pelo qual era acusado.

Portais de internet e páginas do Facebook que no passado difundiram textos contra Oceransky publicaram a notícia de sua detenção. Pelo menos onze publicações tinham o mesmo título: “Relatam detenção de Sergio Oceransky em Jalisco”. Dois deles acrescentavam: “Sergio Oceransky se vitimiza antes de ir para trás das grades”.

Para Oceransky, as publicações contra ele “têm sido algo desgastante”, porque “afetam o processo organizativo, implicam dedicar muito tempo e espaço mental à defesa diante das acusações”. E embora tenha tentado ignorar os ataques digitais, não conseguiu mais fazê-lo quando eles se intensificaram. Ainda assim, o que mais o abalou foi a criminalização: as denúncias apresentadas pelos empresários de Yucatán que o acusam a ele e a dois moradores de Ixil pelo esbulho das 324 hectares, e a dos trabalhadores da imobiliária que constrói Ciudad Maderas. “Quando não lhes funcionar mais a criminalização, o que buscarão fazer depois?”

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Maio de 2026. Moradores de diversas comunidades foram aos tribunais para apoiar os habitantes de Ixil e o diretor da Fundación Yansa, acusados de esbulho por empresários yucatecos. Foto: Comissaria de Santa María Chi

Criminalização e ataques digitais que não cessam

No primeiro dia do ano de 2026, foi criada a página do Facebook Contra la Corrupción MX. Como foto de capa tinha o logo do Mexicanos contra la Corrupción y la Impunidad (MCCI), organização não governamental que de fato realiza investigações sobre anticorrupção, mas que não tem nenhum vínculo com quem criou essa página. Em sua descrição se apresentava como uma “fundação sem fins lucrativos que busca combater a corrupção no mexico (sic)”. Integrantes da MCCI confirmaram à Mongabay Latam que essa página do Facebook era falsa (“fake”).

Dos menos de dez posts que publicou, pelo menos seis replicavam matérias contra Oceransky. Inclusive, em março de 2026, pagou publicidade no Facebook para ampliar o alcance das publicações que difundia. A página foi derrubada pelo Facebook em meados de abril de 2026.

Não é a única página do Facebook criada para publicar matérias contra o diretor da Fundación Yansa. Outra é Ejido de Ixil (Fundación contra la corrupción). Está ativa desde o início de dezembro de 2025. O primeiro post que publicou foi para compartilhar a matéria do portal Diario Cambio 22: “Iniciativa Privada Questiona o Ativismo de Sergio Oceransky e as Práticas da Fundación Yansa em Yucatán”. Sete dos nove posts publicados foram contra o ativista.

Quem criou essa página se apresenta como “um grupo pacífico contra a corrupção, buscando erradicar más práticas”. O endereço web registrado é contralacorrupcion.com; no entanto, até 20 de maio esse domínio estava suspenso porque o endereço de e-mail do titular não havia sido validado, como exige a Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (ICANN), organização responsável por coordenar os identificadores únicos da internet.

Em meados de maio de 2026, após 12 horas de audiência, a juíza Suemy Lizama vinculou a processo o diretor da Fundación Yansa, assim como dois moradores de Ixil, Guillermo Yam Ek e Cecilio Cisneros, acusados de esbulho das 324 hectares por empresários de Yucatán. Eles recorreram. Até o início de junho de 2026, seu caso estava sendo examinado por outro juiz e, portanto, estava em aberto se o processo continuaria ou seria arquivado.

Devastadores Digitais

Devastadores Digitais é uma investigação que busca desvendar quais interesses estão por trás das campanhas de descredibilização no espaço digital contra ativistas ambientais em seis países latino-americanos, coordenada pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP), em parceria com AFP (Brasil), Colombiacheck (Colômbia), Agência Ocote (Guatemala), Contracorriente (Honduras), Animal Político e Mongabay LATAM (México) e Concolón (Panamá). Com o apoio da “Global Initiative for Information Integrity on Climate Change” e a revisão jurídica da El Veinte.

 

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