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Nas redes os chamaram de “falsos ambientalistas”, três estão mortos e mais de 400 no exílio

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Ilustración: Contracorriente.

Após quase uma década defendendo o rio Guapinol, os líderes ambientais do Comitê de Tocoa em Honduras enfrentaram prisão, exílio e o assassinato de três companheiros. Em paralelo, uma operação coordenada nas redes sociais e em mídias digitais financiadas por empresas do Grupo EMCO instalou a narrativa dos “falsos ambientalistas” antes de cada um dos ataques. Uma investigação da Contracorriente em aliança com o CLIP e outros seis veículos documenta o padrão de difamação digital e a rede de contas vinculadas às empresas do Grupo EMCO de Lenir Pérez.

Por: Jennifer Avila e Fernando Silva (Contracorriente)

Em seu novo quintal, num país distante e frio, Reynaldo usa o pouco tempo livre que lhe resta para cultivar a terra. “Onde quer que vamos, nós vamos produzir”, diz. É a segunda vez que o vemos com sua família longe de sua comunidade — fugiram de um conflito mineiro que primeiro se ensaiou (ensañó) com eles nas redes sociais e depois escalou com o assassinato de três defensores do rio Guapinol, ao norte de Honduras, e de um de seus irmãos. A milhares de quilômetros daquele lugar, aqui agora há uma horta, um galinheiro, um feijoal e 43 pessoas de uma só família que não deveriam estar aqui, mas sim no lugar de onde tiveram que fugir — lá onde Reynaldo nasceu e onde quer ser enterrado.

“Esses países tendem a individualizar as pessoas, mas eu digo que se nos mantivermos unidos tudo vai dar certo”, acrescenta enquanto nos mostra a área onde já colheu os tomates e pimentas. Com 61 anos, adaptar-se a um novo país é um desafio — Reynaldo vive com diabetes e trabalha no que aparecer. Sua esposa, suas filhas e seus filhos também encaixam horas como cuidadores de bebês, limpando casas ou colocando telhados e cercas para estabelecimentos de grandes empresas. Saíram como refugiados com apoio de uma agência internacional e de parentes que haviam migrado de Honduras décadas atrás.

Quando mataram os irmãos de Reynaldo — Aly Domínguez, em janeiro de 2023, e depois Óscar Oquelí Domínguez, em junho do mesmo ano —, a sentença já estava escrita: o próximo era Reynaldo. Depois de oito anos defendendo o rio Guapinol, no município de Tocoa, departamento de Colón, no norte do país, ele já intuía que a violência os alcançaria. As redes sociais diziam isso, e a impunidade com que a empresa mineradora operava confirmava. Mas quando mataram seus dois irmãos — a Oquelí na frente da família —, Reynaldo pegou a esposa, os filhos e os netos e se mudou para outra cidade de Honduras, para uma casa onde mal cabiam, com saudade do rio, dos pastos e das plantações que deixou para trás.

Ana Mabel, sua esposa, conta que sente que tudo isso é uma repetição da história. Quando jovem, viu seu pai, seu Isaías de la O, lutar ao lado de Carlos Escaleras, um dos primeiros ambientalistas da região e considerado o primeiro mártir do Aguán pela defesa do parque nacional “Montaña de Botaderos”, assassinado em 1997 num conflito provocado pela instalação de uma usina de extração de óleo de palma de propriedade do empresário Miguel Facussé (falecido em 2015) perto do rio Guapinol. Esse parque hoje leva o nome de Carlos Escaleras.

“Carlitos disse ao meu pai: “tu vai embora, que a você vão encontrar primeiro, você está na comunidade; eu posso me esconder mais fácil”. Meu pai foi, e quando estava passando pela Guatemala mataram Carlos”, lembra Mabel, e sua voz falha ao recordar o sofrimento de seu pai.

Décadas depois, o megaprojeto minerário Los Pinares, propriedade de Ana Facussé (filha de Miguel Facussé) e seu marido Lenir Pérez, se instalou justamente na zona que Escaleras e seu Isaías haviam defendido. O sofrimento voltou. “Meu pai motivava os jovens; ia aos protestos e ao acampamento. Até jogaram gás nele e tiveram que chamar a ambulância. Por isso depois ficou com os pulmões comprometidos”, conta Mabel. A última vez que o viu, seu pai, com a memória já frágil, pedia que ela lhe contasse uma e outra vez a luta de Reynaldo e dos defensores de Guapinol.

Em abril de 2025, quando Mabel e sua família já estavam há vários meses fora do país, seu Isaías morreu. “Não pude vê-lo, só o via pelo telefone. Desde que adoeceu não conseguiu mais se levantar. A nossa ausência o entristeceu muito”.

Reynaldo conta que Juan López, ambientalista assassinado em setembro de 2024 e seu companheiro mais próximo, lhe disse quase as mesmas palavras que Carlos Escaleras havia dito ao seu sogro: “o senhor vá embora, que vão vir atrás do senhor”. Reynaldo foi, mas Juan ficou e foi assassinado.

“Nas redes dizem que somos gente ruim, que por bêbados, por maus, mataram os companheiros. Eu ficava respondendo, mas depois alguém me disse: “não responda mais a eles”. Eu sei que essa não é a verdade”, diz Reynaldo.

Mabel tem o choro permanentemente contido. Diz que não chora na frente de Reynaldo e que evita falar do que sente falta, porque dói: sente falta de tudo, e sabe que mesmo voltando as coisas não serão iguais.

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O rio San Pedro, uma das fontes de água que o Comitê Municipal pela Defesa dos Bens Comuns e Públicos de Tocoa defende, organização alvo de campanhas de desprestígio digital. Tocoa, Colón, 28 de abril de 2026. Foto CC/Fernando Silva.

O padrão: difamação, exílio, assassinato

O megaprojeto minerário de Inversiones Los Pinares afetou a zona núcleo do Parque Nacional Carlos Escaleras e os rios Guapinol, San Pedro e La Ceibita, fontes de água para a comunidade de Guapinol, 13 comunidades do setor San Pedro e 14 do setor La Abisinia, nas densas montanhas próximas ao Caribe hondurenho.

O último plano de manejo do Parque elaborado em 2013 pelo Instituto de Conservación Forestal (ICF) descreve a importância dessa zona localizada no corredor biológico mesoamericano do Caribe hondurenho: com uma extensão de 96.755 hectares distribuídas entre os departamentos de Colón, Olancho e Yoro, a montanha dá origem a oito sub-bacias e abriga 34 microbacias que abastecem de água potável seis municípios da região. Em termos de biodiversidade, o documento descreve que a área é habitat de uma diversidade de mamíferos como a jaguatirica (tigrillo), veados, esquilos, macacos, aves e serpentes, além de uma grande variedade de espécies florestais madeireiras e não madeireiras. Entre as espécies de principal atenção estão o beija-flor-esmeralda hondurenho (Amazilia luciae) — endêmico do país — e o pavão-do-mato (pajuil, Crax rubra), classificado como espécie ameaçada.

Diante da instalação do megaprojeto minerário Los Pinares, os comitês ambientais das comunidades de influência se agruparam no Comitê Municipal pela Defesa dos Bens Comuns e Públicos de Tocoa (CMBCPT). Esse comitê foi liderado por Juan López e Reynaldo Domínguez, mas eles já não estão, e quem ficou estima que são 400 as pessoas deslocadas forçosamente por conta do conflito socioambiental. A mais golpeada é Guapinol, a cerca de 20 minutos da cidade de Tocoa.

O deslocamento — dizem integrantes do Comitê — rompeu o frágil tecido social da região e obrigou os ambientalistas a repensar sua luta.

Gabriela Sorto, integrante do Comitê e filha de Porfirio Sorto, um dos ambientalistas encarcerados em 2019 pelos crimes de incêndio agravado e privação ilegal de liberdade após um incidente de setembro de 2018 em que pessoal de segurança da empresa mineradora atirou contra um manifestante e os protestantes retiveram um empreiteiro antes de entregá-lo à polícia, diz que a ruptura ficou evidente quando Reynaldo e sua família foram embora — algo impensável dado o papel que ele ocupava na organização comunitária.

“Imagina: o Rei (Rey), um companheiro que no acampamento dizia “companheiras, aqui é até a morte, aqui não vamos largar a luta”. E não teve outra, foi embora. Começaram com a família, com seus irmãos, com a mãe. O padrão dessas empresas é se meter com a família, e com ele foi isso. Criaram terror na comunidade. A gente dizia: “temos que ir embora ou vão nos assassinar”. Muita gente começou a sair para os Estados Unidos, também para a Espanha, também dentro do próprio país”.

Para o Comitê, as campanhas de desprestígio nas redes e páginas web cumprem funções precisas e seguem padrões reconhecíveis. A primeira função, explica Gabriela, é servir de antessala ao assassinato. Esses padrões também foram comprovados pela Contracorriente durante a investigação colaborativa “Taladores Digitales” (Madeireiros Digitais), que buscou desvendar quais interesses estão por trás das campanhas de desprestígio no espaço digital contra ativistas ambientais de seis países latino-americanos. Foi realizada em aliança com sete veículos e coordenada pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística, CLIP.

“É um padrão que depois leva à morte. Com Reynaldo começaram a dizer que ele e sua família eram assassinos, que tinham problemas. E quando as coisas acontecem, quando assassinam um companheiro, as pessoas não acreditam que foi pela luta ambiental, porque a campanha de desprestígio vinha muito antes, e isso entra na cabeça das pessoas”.

Quando a difamação não termina em assassinato, diz Gabriela, ainda assim rompe o tecido comunitário: instala ódio contra os defensores e os deixa mais expostos. No dia a dia, na rua, as pessoas lhes dizem “ali vai o que não deixa entrar o desenvolvimento”.

A rede por trás do assassinato de Oquelí

Em 15 de junho de 2023, o mesmo dia em que Oquelí Domínguez foi assassinado dentro de sua casa em Guapinol, uma campanha coordenada nas redes sociais — com indícios de comportamento inautêntico — se ativou em questão de horas.

De uma rede de 26 contas dedicadas a promover o Aeroporto Internacional Palmerola e a empresa Alutech, 16 perfis no X (então Twitter) publicaram, entre 16h20 e 18h (horário de Honduras), um ou dois tweets sobre o assassinato de Domínguez. As publicações, em resposta a tuítes de veículos nacionais, o desacreditavam: negavam sua condição de defensor ambiental e o criminalizavam.

Os textos eram similares, mas não idênticos, o que sugere que foram escritos por uma pessoa e não por um sistema automatizado.

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A conta @JustinM26746499, por exemplo, respondeu à TV Azteca Honduras: “Queremos ver a investigação deste caso porque estão distorcendo as informações, que história, nem defensor ambiental ele era”. Todas as publicações próprias dessa conta, entre 10 de abril de 2023 e 5 de fevereiro de 2024, promovem o Aeroporto Palmerola.

Segundo uma análise compartilhada por pesquisadores independentes especializados em investigação de riscos digitais e proteção de defensores de direitos humanos, que pediram para omitir seus nomes, e as verificações da Contracorriente, as 16 contas fazem parte de uma rede coordenada. Assim o indicam várias características: a maioria das contas foi criada em janeiro de 2023, duas em março do mesmo ano. Três usam fotos retiradas de contas do Instagram em outros países; duas compartilham a mesma imagem. Têm pouca atividade orgânica: a conta com mais seguidores mal alcança 31, e muitas se seguem entre si.

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“Tatiana García” é o pseudônimo de uma das contas que faz parte da rede coordenada. A foto de perfil dessa conta foi retirada da influenciadora argentina Marti Benza, que não tem nenhum vínculo com a rede.
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Contas que compartilham fotos de perfil e imagens.

Essa rede de contas — cuja primeira publicação foi um comentário favorável sobre o Aeroporto de Palmerola ou a empresa Alutech, ambas parte do conglomerado da EMCO Holding Inc., uma corporação registrada em Delaware, Estados Unidos, de propriedade do empresário Lenir Pérez — publicou até 21 de junho de 2023 um total de 1.140 tweets em favor de empresas do grupo EMCO. As 16 contas acumularam 2.540 publicações no total, com uma média de entre 100 e 200 por perfil. 45% menciona o Aeroporto Palmerola, e a maioria são respostas a outras publicações, uma prática que dificulta detectar a coordenação entre elas.

Também defenderam Lenir Pérez em momentos críticos: quando se soube, no fim de abril de 2023, que o FBI o havia interrogado nos Estados Unidos, nove das contas reagiram a publicações sobre o tema classificando a informação como falsa.

Outro padrão conecta essas contas ao portal Hondunews: várias têm como seguidor o usuário @hondunewshn. Por exemplo, o único seguidor de @JustinM26746499 é @hondunewshn.

Entre 9 de janeiro de 2023, após o assassinato dos defensores Jairo Bonilla e Aly Domínguez, e 29 de junho de 2023, após o assassinato de Oquelí Domínguez, o Hondunews publicou pelo menos oito matérias que sustentam a narrativa dos “falsos ambientalistas” contra os opositores ao projeto minerário Los Pinares.

Ao revisar o código-fonte do Hondunews, um dos usuários e autores principais dos artigos é dvilleda, e os números de contato nas redes sociais da página correspondem a Daniel Villeda, que em seus perfis de redes sociais e LinkedIn se identifica como coordenador geral do site de notícias. Segundo seu perfil no LinkedIn, Villeda também é chefe de redação do jornal La Tribuna, um dos periódicos de maior tradição e circulação do país.

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Perfil de Daniel Villeda no X (@VilledaTribuna), onde se identifica como chefe de redação do jornal La Tribuna e coordenador geral de hondunewshnn.com.

O portal também difundiu conteúdos favoráveis a Sergio Rodríguez, condenado em 2019 pelo assassinato da liderança ambientalista Berta Cáceres, e publicou matérias sobre os impactos do fechamento da mina Los Pinares quando, em junho de 2023, o governo anunciou que não havia aprovado a licença ambiental.

Em entrevista para esta investigação, Daniel Villeda confirmou que é o proprietário do Hondunews e que o usuário dvilleda no código-fonte do portal lhe corresponde. Villeda também garantiu que sua atividade no Hondunews é completamente independente de seu cargo como chefe de redação de La Tribuna: “Não há relação do jornal digital que dirijo com La Tribuna. La Tribuna tem sua política editorial definida. São duas coisas distintas”.

Villeda reconheceu que redigiu as matérias em que os integrantes do Comitê eram classificados como “falsos ambientalistas”. Justificou que naquela época trabalhava em Tegucigalpa e reconheceu que tinha informações limitadas sobre o conflito, baseando-se no que ouvia em estações de rádio e telejornais, bem como em declarações de jornalistas locais.

Além disso, Villeda revelou que o Hondunews manteve contratos de publicidade com empresas do Grupo EMCO — Aeroporto Internacional Palmerola e Alutech — aproximadamente entre 2019 e 2023. Confirmou que a relação comercial não se limitava a anúncios pagos, mas incluía a publicação de notas de imprensa fornecidas pelas empresas.

Villeda admitiu que algumas dessas notas de imprensa se referiam aos defensores ambientais como “falsos ambientalistas” e que foram publicadas durante a vigência dos contratos. Explicou que “mandavam boletins, e pela linha econômica de qualquer veículo de comunicação aqui em Honduras, por força tinham que ser publicados”.

As declarações de Villeda apontam para a existência de um circuito em que empresas do Grupo EMCO pagavam publicidade a veículos de comunicação e plataformas digitais, e no marco desses contratos publicavam conteúdo que reforçava as narrativas de “falsos ambientalistas” e material em que os defensores do meio ambiente em Tocoa eram desprestigiados.

Sobre a conexão do Hondunews no X (antes Twitter) com as contas que esta investigação identificou como uma rede coordenada contra os defensores ambientais que operava com conteúdo em favor de empresas do Grupo EMCO, Villeda explicou que o Hondunews seguia essas contas como parte de um trabalho de investigação jornalística; no entanto, não pôde apresentar nenhuma investigação publicada como resultado desse monitoramento.

Sobre a publicação de conteúdo favorável a Sergio Rodríguez, condenado pelo assassinato de Berta Cáceres, Villeda confirmou que redigiu a matéria e o justificou como uma técnica de infiltração: “Defendeu-se essa pessoa, por quê? Porque dessa maneira um jornalista tem acesso a informações que não teria se já se colocasse a antagonizar”, disse. Tampouco neste caso apresentou evidência de que a suposta infiltração tenha produzido alguma investigação publicada.

A operação se amplia: mídias afins e momentos-chave

As contas vinculadas ao Aeroporto Palmerola e ao Hondunews foram apenas uma parte. A Contracorriente detectou que entre 9 de janeiro de 2023 e 3 de outubro de 2025, pelo menos nove veículos de comunicação — alguns de grande alcance, como La Tribuna — publicaram matérias com conteúdo similar ao do Hondunews e similares entre si. As publicações difundiram desinformação e ataques reputacionais que apontavam os defensores do Comitê como “falsos ambientalistas” e “assassinos”.

A maioria dessas matérias reproduzia declarações de pessoas que se identificam como moradores de comunidades de influência do projeto minerário — no Parque Nacional Carlos Escaleras — e que apoiam o megaprojeto. Várias delas foram identificadas demonstrando apoio a Lenir Pérez na audiência que ele enfrentou em 27 de março de 2026, pelo caso que o Ministério Público de Honduras instrui contra ele por supostos danos ambientais causados pela mineradora Los Pinares à montanha protegida.

As campanhas digitais foram ativadas em momentos-chave. Durante essa audiência, quatro contas do Facebook publicaram mensagens quase copiadas que acusavam os ambientalistas: “moradores do setor montanha de Tocoa chegam a Tegucigalpa para exigir justiça pela morte de 13 pessoas, em sua maioria empregados de empresas mineradoras, por supostos falsos ambientalistas que desde 2018 chegaram como impostores a tomar decisões pelas verdadeiras áreas de influência”.

Embora nessas publicações os ambientalistas sejam responsabilizados pela morte de “13 pessoas” favoráveis ao projeto minerário, a empresa apenas descreveu publicamente nove em coletivas de imprensa em que pediu investigação: quatro trabalhadores do projeto, dois militares e três membros das comunidades. E embora o Ministério Público (MP) tenha acusado treze membros do Comitê e um tribunal tenha mantido em prisão preventiva por mais de dois anos oito dos defensores, eles nunca foram acusados por crimes de homicídio. Além disso, todas as acusações relacionadas a danos a propriedades da empresa foram arquivadas.

Leonel George, integrante do Comitê Municipal pela Defesa dos Bens Comuns e Públicos de Tocoa e uma das figuras mais atacadas nessas campanhas, descreve: “em momentos em que havia audiências programadas para os companheiros privados de liberdade, as campanhas se ativavam para dizer: “são criminosos, são assassinos, são aproveitadores (vividores), estão recebendo dólares”. Essa má imagem é para que as pessoas nos repudiem. Quando havia audiência, quando se faziam coletivas de imprensa ou denúncias contra a empresa, as campanhas se ativavam”.

Entre as contas apontadas pelo Comitê destaca a página do Facebook “Noticias de Colón”, gerida pelo jornalista Héctor Madrid, que publica constantemente em favor da Inversiones Los Pinares e do ex-prefeito Adán Fúnez, um reconhecido cacique (caudillo) do Partido Libertad y Refundación (Libre) atualmente formalmente acusado pelo Ministério Público pela suposta autoria intelectual do assassinato do ambientalista Juan López e também reconhecido em um vídeo publicado pelo InSight Crime em que aparece supostamente negociando propinas com narcotraficantes em favor de seu partido. A página tem sido um veículo recorrente de desinformação contra o Comitê em momentos de tensão.

No contexto da audiência contra Lenir Pérez, Noticias de Colón acusou os integrantes do Comitê de serem “falsos ambientalistas” e responsáveis pelo assassinato de 13 pessoas favoráveis ao projeto minerário.

Entre 6 de junho e 5 de julho de 2024 — em torno do cabildo aberto (audiência pública) em que Tocoa votou contra a usina termelétrica do Grupo Emco — Notícias de Colón publicou pelo menos doze matérias em que chamava os ambientalistas de “geradores de ódio”, “grupos organizados para delinquir” e “terroristas”, e os responsabilizava pela morte de pessoas favoráveis à empresa. As publicações foram replicadas em múltiplos grupos do Facebook.

Em 5 de julho de 2024, dia em que pegaram fogo vários escritórios da prefeitura (municipalidad) de Tocoa — o incidente, segundo o corpo de bombeiros, teve origem nas áreas de tesouraria e tributação —, a página de Madrid publicou uma série de fotos atribuindo o dano ao Comitê: “Até quando a campanha de Ódio do Comitê [sic] de Bens Comuns de Tocoa grupo político disfarçado de ambiente [sic]. Atenção Programa ONU Meio Ambiente vai parar [sic] de causar tanto dano à paz de Tocoa? E CHEGA DE TANTO DESASTRE Tocoa não merece que esses grupos vândalos façam tanto estrago” [sic].

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Por seu cargo de vereador (regidor), Juan López foi mencionado pelo nome. Em 14 de junho de 2024, Noticias de Colón os chamou de “sem-vergonhas”, “irresponsáveis” e “mentirosos” — a ele e a Leonel George, também vereador. Três meses depois, Juan López, além de vereador, líder do Comitê e delegado da Palavra da Igreja Católica, foi assassinado.

Em novembro de 2025, a Contracorriente publicou uma investigação que revelou que Héctor Madrid, correspondente da rede de televisão hondurenha Televicentro, recebeu em 2016 a doação de um terreno em Tocoa por parte do então prefeito Adán Fúnez. A investigação documentou que suas plataformas nas redes sustentaram campanhas contra organizações camponesas do Bajo Aguán, defenderam pessoas investigadas pelo Ministério Público por supostos vínculos com o crime organizado, e promoveram a gestão de Fúnez mesmo após a divulgação do vídeo publicado pelo portal InSight Crime em que ele aparece supostamente negociando com narcotraficantes.

Em entrevista com a Contracorriente, Madrid defendeu suas publicações e assegurou que suas acusações são sustentadas “na vida real, na vivência, na experiência que tenho aqui”, e repetiu seus apontamentos contra os membros do Comitê como autores intelectuais de crimes, embora tenha assegurado que não sabe quem seriam os autores materiais dos mesmos e que não tem evidências para sustentar suas acusações. Por exemplo, no caso de suas acusações sobre o incêndio na prefeitura de Tocoa, apontou que “não tenho a evidência, não tenho nada disso. Então não posso garantir que foram eles”.

Diante da insistência deste veículo de que o MP nunca acusou os defensores por homicídio e arquivou as acusações por danos a propriedades, Madrid igualmente reiterou sua posição: “Continuo mantendo e vou manter até o último dia da minha vida”. Além disso, Madrid rejeitou que suas publicações tenham contribuído para um clima de hostilidade contra os defensores ambientais, e os descreveu como “políticos disfarçados de ambientalistas”.

Sobre se teve algum tipo de relação comercial ou trabalhista com as empresas do Grupo EMCO, Madrid admitiu que manteve uma relação comercial com o conglomerado empresarial por meio de sua empresa Producciones Madrid. Explicou que vendeu publicidade ao grupo empresarial de Lenir Pérez até que Inversiones Los Pinares suspendeu operações em agosto de 2023. Madrid minimizou a relevância do vínculo argumentando que também vende publicidade para outras empresas.

Dessa forma, Madrid não apenas recebeu uma doação de terreno do ex-prefeito Adán Fúnez, como também obteve receitas de publicidade do mesmo grupo empresarial cujo projeto minerário defendia a partir de sua plataforma Noticias de Colón.

Enviamos um e-mail por meio da página oficial do Grupo Emco, e ao e-mail representantelegal@alutech.hn para dar o espaço correspondente à empresa para responder sobre seu envolvimento nessas campanhas de desprestígio contra defensores ambientais; no entanto, até o fechamento desta edição não haviam respondido.

O decreto que protegeu o parque, atacado nas redes

O assassinato de Aly e Oquelí ocorreu entre janeiro e junho de 2023, apenas um ano depois de o governo de esquerda do Partido Libre, com Xiomara Castro na presidência, assumir a condução do país após dois períodos e oito anos de controle do conservador Partido Nacional, encabeçado por Juan Orlando Hernández, que posteriormente seria condenado por tráfico de drogas nos Estados Unidos e depois indultado por Donald Trump em dezembro de 2025. Para Reynaldo, esse é um dado importante, sobretudo porque admite que trabalhou para que o Partido Libre chegasse ao poder — acreditava no projeto que supostamente a presidenta Xiomara Castro carregava, o de uma Honduras “socialista”.

Aly foi criminalizado junto com Reynaldo e Juan López em 2019, e naquela época Aly era um ativista do Partido Nacional, que governava sob o ex-presidente e ex-condenado Juan Orlando Hernández. “Eu dizia a ele: “o teu presidente te prendeu”, ele era o coordenador do Vida Mejor na comunidade”, conta Reynaldo que dizia ao irmão enquanto ambos passavam pela criminalização. “Vida Mejor” foi o programa clientelista mais importante do governo de Hernández, que prometia reduzir a pobreza por meio de ajudas sociais, mas que organizações como o Centro de Estudo para a Democracia (CESPAD) apontaram por opacidade, clientelismo e uso irregular de fundos públicos. Esse governo manteve Honduras numa crise política que terminou dando lugar ao governo de Xiomara Castro; um ano depois disso, Aly foi assassinado junto com Jairo Bonilla, outro companheiro ambientalista.

“Essas coisas nos deixam perdidos, nos perdem nessa caminhada das lutas. Por que isso não aconteceu quando estava o governo anterior de Juan Orlando? O que aconteceu ali? Quem tem culpa nisso? Como isso aconteceu no governo de Xiomara, em quem depositamos toda a esperança, nos dedicamos de tudo para que essas coisas realmente mudassem”, diz Reynaldo, embora reconheça que naquele governo conseguiram que fosse aprovada a restituição das coordenadas do Parque Nacional Montaña de Botaderos, com o que as concessões minerárias ficam proibidas em toda a área que Los Pinares pretendia explorar. Agora, diz Reynaldo, “falta que o implementem”.

Em maio de 2024, entrou em vigor o decreto 18-2024, aprovado pelo Congresso Nacional, que recupera e protege a zona núcleo do Parque Nacional Montaña de Botaderos “Carlos Escaleras Mejía”, onde parte do megaprojeto havia sido instalada.

A emissão do decreto disparou uma das campanhas de difamação digital que o Comitê considera mais eficazes e perigosas, novamente orquestrada a partir do Noticias de Colón.

As publicações acusavam o Comitê de Bens Comuns de Tocoa e a Fundação San Alonso Rodríguez de impulsionar o decreto, ao qual chamavam de “causador do iminente deslocamento forçado de pelo menos 50 mil pessoas”. Outras apontavam dois integrantes do Comitê — então vereadores municipais — como responsáveis por famílias do setor montanha perderem suas terras, e os acusavam de “usar a causa ambiental para fins político-partidários e de ocultar que os mortos em conflitos relacionados eram empregados de uma empresa que operava na zona”.

“Usavam o que acontecia nas áreas de reserva em Olancho, onde de fato retiraram famílias de zonas protegidas, e diziam: “isso mesmo vai acontecer aqui”. Houve pessoas que faziam parte da luta e disseram: “se vão nos tirar daqui, então já não lutamos””, lembra Leonel George.

A desinformação chegou às comunidades mais distantes, dentro e às margens do Parque Nacional. No setor San Pedro, o rumor de que o decreto lhes tiraria a terra resultou em ameaças.

José Olayo, morador de Meangul — dentro do Parque Nacional Carlos Escaleras — e um dos primeiros integrantes do Comitê, lembra o momento mais tenso: “Vieram e disseram às pessoas que o governo ia tirar suas terras. Alguns se irritaram e disseram: “se vierem tirar nossas terras, os primeiros que vão embora são os membros do comitê”. Até trouxeram grupos para protestar. Era uma campanha falsa”.

Alguns vizinhos dessa comunidade chegaram a ameaçar integrantes do Comitê, mas a confiança acumulada permitiu conter a tensão, casa por casa, explicando o alcance real do decreto.

“O Comitê sempre andou de frente, e quando diz algo tem provas na mão. Por isso há campanhas que não surtiram efeito. Se fôssemos falsos não andaríamos de frente. Há documentação de tudo: as denúncias que foram feitas, contra quem e por quê”, diz Olayo.

Apesar desse trabalho, os assassinatos, os deslocamentos e as ameaças enfraqueceram a luta. “Depois da morte de Juan houve um grande silêncio. A família sempre nos dizia: “mataram esse homem, ele tinha medidas de proteção, não adiantaram”. A família é o que mais faz a pessoa sentir medo e dizer: ‘isso já não vale a pena’. Mas superamos todos esses momentos”.

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José Olayo, morador da comunidade de Meangul, dentro do Parque Nacional Carlos Escaleras, e um dos primeiros integrantes do Comitê. Tocoa, Colón, 28 de abril de 2026. Foto CC/Fernando Silva.

Orbin Hernández, membro do Comitê processado judicialmente em 2019 e morador de Vado Ancho, diz que as campanhas de desprestígio não o afetam pessoalmente — “os casos não se ganham nas redes sociais, se ganham nos tribunais” — mas afetam sua mãe, que agora sofre de paralisia facial por causa da tensão.

“A luta é inegociável e não podemos abandoná-la. A responsabilidade de um cidadão bem nascido é defender pelo menos onde vive. Se nos calarmos diante do que conhecemos e não explicarmos ao povo, eles acabam acreditando mais neles”, sustenta.

Mais abaixo na montanha, em Mala Falda, o professor Javier Maradiaga, também do Comitê, adverte sobre o alcance das campanhas mesmo em zonas distantes. “Ao ter um veículo como Noticias de Colón — uma página nas redes a que muita gente tem acesso —, as pessoas tendem a se confundir. Eles estão apresentando outra versão e, pelos seus próprios interesses, deslegitimam a luta social”.

Sobre o deslocamento de lideranças como Reynaldo e o assassinato de Juan, Javier acrescenta: “quando se atinge membros do grupo, afeta emocionalmente e gera maior risco para quem andamos na linha de frente. Nem toda a gente tem a decisão de morrer por uma luta; isso diminui a vontade do povo de enfrentar esses projetos”.

Javier vive em meio à riqueza natural do Parque Nacional e tem a dez minutos a cachoeira de água cristalina El Sereno, que costuma visitar com a família para se refrescar do intenso calor da costa hondurenha. Em sua casa, debaixo de uma frondosa árvore, diz que não pensa em ir embora, mas sua família sente medo, e as campanhas de difamação os limitaram até na vida social. Aponta também a parcialidade dos órgãos de investigação e justiça: “quando eles apresentaram suas denúncias falsas contra nós, o Ministério Público agiu de ofício. Quando fizemos denúncias contra essas pessoas que estão realmente difamando, não se vê vontade de investigá-las”.

Reynaldo e Juan eram a cabeça do comitê ambiental — ambos viajavam, faziam turnês nacionais e internacionais, se reuniam com autoridades, organizavam as pessoas. No meio de uma turnê internacional, Reynaldo soube que mataram Aly e Jairo; e quando mataram seu outro irmão Oquelí, Reynaldo estava nos Estados Unidos durante outra turnê de incidência. Lá, nos Estados Unidos, encontra-se uma empresa com a qual Los Pinares manteve transações comerciais ativas até 2023, o gigante produtor de aço Nucor Corporation.

“Diziam nas redes sociais que em Guapinol tem gente ruim. Se fôssemos gente ruim, por que os mortos são só de 2017 a 2024? Diziam também que há famílias se enfrentando — é mentira. Lá as famílias se conhecem bem, somos gente muito próspera, cada um empenhado no seu trabalho. Guapinol tem uma virtude grande: a gente que migrou para os EUA investiu seu capital na comunidade e tem seus pequenos negócios (empresitas). Essas campanhas fazem trabalho de encobrimento (opacidad), vão construindo para desmentir qualquer ação verdadeira, e juízes e promotores se agarram nisso de acreditar nas redes sociais”, diz Reynaldo, enquanto Mabel e suas filhas cozinham uma sopa de frutos do mar depois de terem buscado os ingredientes mais próximos possível do sabor hondurenho.

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Javier Maradiaga, professor e integrante do Comitê, na cachoeira El Sereno, perto de sua comunidade, Mala Falda, dentro do Parque Nacional Carlos Escaleras. Tocoa, Colón, 28 de abril de 2026. Foto CC/Fernando Silva.

O silêncio do Estado e uma mudança municipal incerta

Em janeiro de 2023, o Comitê apresentou uma denúncia formal ao Ministério Público por difamação e calúnia contra Héctor Madrid, apontado como uma das fontes das campanhas. Segundo o Comitê, a denúncia foi arquivada no início de 2025 por falta de investigação, mas conseguiram que uma impugnação fosse aceita e agora está numa mesa interfiscal (grupo de trabalho entre promotorias) onde será acompanhada.

Além disso, em outubro de 2023, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) decretou medidas cautelares para 13 pessoas relacionadas à luta do Comitê que haviam sofrido perseguição e ameaças por parte de grupos criminosos e forças de segurança do Estado. Entre as pessoas beneficiárias estavam Reynaldo e Juan López, sobre quem a CIDH escreveu em sua resolução que “teria sido vítima de numerosas campanhas de difamação”. Em sua resolução para a concessão das medidas, a CIDH também aludiu à “prolongada campanha de desprestígio por meio de publicações”.

Em novembro de 2025, a organização jurídica latino-americana Centro por la Justicia y el Derecho Internacional (CEJIL) apontou que até aquela data o Estado de Honduras não havia cumprido com a “implementação efetiva, integral e coletiva das medidas”. Atualmente, integrantes do Comitê continuam denunciando a falta de vontade do Estado em protegê-los.

A Contracorriente consultou o Ministério Público sobre o processo de investigação de denúncias de campanhas de desprestígio que difamam e injuriam defensores do meio ambiente, e sobre o estado da denúncia realizada pelo Comitê em 2023. Em 8 de maio de 2026, um dos porta-vozes da instituição explicou que precisavam consultar sobre o tema. Até o momento desta edição, não haviam respondido.

Outro dos apontados pelo Comitê como impulsionador das campanhas é o ex-prefeito de Tocoa Adán Fúnez, que após três mandatos consecutivos — e dos questionamentos pelo vídeo publicado pelo InSight Crime em que aparece negociando com narcotraficantes ao lado do ex-secretário do Congresso Nacional, Carlos Zelaya Rosales — deixou a cadeira para Roger Banegas, do Partido Liberal. Agora Fúnez enfrenta duas acusações do Ministério Público: uma por suposta associação para delinquir na autoria do assassinato do ambientalista Juan López, e outra por suposto abuso de autoridade em sua gestão municipal.

Na aparência, a prefeitura mudou. Mas integrantes do Comitê denunciam que parte da estrutura de funcionários que apoiava Fúnez continua operando na nova administração. Apontam diretamente a continuidade da secretária municipal Norma Agripina García, que enfrenta uma acusação do Ministério Público por suposta falsificação de documentos públicos em uma ata de cabildo aberto (audiência pública) de 2016 que deu origem à emissão de licenças de operação e licenciamentos ambientais em favor do projeto minerário.

Em junho de 2025, o Juizado de Letras Penal em San Pedro Sula decidiu o auto de formal processamento no caso contra García; além disso, a Contracorriente constatou, por meio de informação oficial publicada pela prefeitura de Tocoa em sua página de transparência, que a funcionária continua trabalhando na prefeitura.

No entanto, uma das promessas da nova administração é não continuar com as campanhas de desprestígio. É o que afirma o vice-prefeito Boris Reyes: “já tivemos duas reuniões com as pessoas do Comitê e lhes garantimos que da parte da nova administração municipal não haverá nenhuma campanha de promoção para que as minas se instalem, nem uma campanha de desprestígio contra os defensores do meio ambiente”.

“Eu os conheço a todos, são cidadãos exemplares”, assegura Reyes, e afirma que como nova administração “sem compromissos com empresas privadas”, não vão investir “um centavo” em campanhas de desprestígio nem pagarão ninguém para atacá-los. Reyes atuou como vereador municipal nas administrações de Fúnez.

A vitória de Nasry Asfura em novembro de 2025 — apoiada por Donald Trump — gerou expectativa e temor nos defensores: temem que as atividades do projeto minerário, freadas nos últimos anos, voltem a ser ativadas.

Reyes responde: “não estamos em condições de aprovar mineração a céu aberto, e isso queremos fazer com o objetivo de recuperar a confiança da cidadania”. Lembra que em cabildo aberto Tocoa se declarou livre de mineração, mas admite que, se o Governo Central aprovar as licenças, a prefeitura não poderia deter o projeto.

Apesar de tudo, Reynaldo sustenta a esperança: “tenho fé de que voltaremos de cabeça erguida, como bons lutadores, em defesa de uma causa que é de todos. Esperamos que as coisas vão mudando com as novas autoridades, filhos de Tocoa que querem o bem para Tocoa. A mineração não é solução; há outras maneiras de desenvolver o município. Se as autoridades nos falharem, será mais uma tragédia”.

Um projeto de mineração que, a essa altura, já deixou muito sangue e muita dor no Vale do Aguán.

Mabel e Reynaldo quase não saem de casa: apenas quando a algum deles aparece algum trabalho. Naquele dia, no entanto, fomos a um armazém (almacén). Um de seus filhos dirige; sua filha adolescente nos acompanha com timidez e desânimo. Não se passaram dez minutos quando uma mulher se aproxima deles quase chorando de emoção: foi sua vizinha em Guapinol, anos atrás. Mabel me conta que a mulher migrou há quatro anos, e que como ela foram muitos outros da comunidade. Hoje estão espalhados. Aqueles domingos em que tiravam as cadeiras para fora de casa para conversavam são um sonho distante. Neste país, os reencontros acontecem por acaso, no corredor de um armazém.

O peso sobre as famílias

Gabriela vive em Guapinol, essa comunidade dizimada pela qual ela e seus companheiros ambientalistas costumam andar em estado de hipervigilância, se protegendo do perigo; mas desta vez conversamos nos escritórios da Coordinadora de Organizaciones Populares del Aguán (COPA), um bunker de muros altos e espessos numa rua de terra quase no centro de Tocoa, blindado assim depois que vários defensores do território sofreram atentados naquele mesmo lugar.

Num escritório que também funciona como cabine de rádio, Gabriela fala de forma serena, com decisão, mas ao mesmo tempo com uma preocupação evidente pela continuidade do projeto minerário e das campanhas de desprestígio. Lembra que, antes do assassinato de Juan López, ao líder ambiental chegavam mensagens nas redes em que o ameaçavam de matá-lo e de partir seus dedos um por um. Para Gabriela, as campanhas são planejadas com antecedência até chegar ao crime, para depois poder dizer que o assassinato não se deveu à luta ambiental.

Quando as campanhas não terminam em assassinato, ainda assim golpeiam as famílias.

“Meu pai foi um dos que ficou privado de liberdade, e diziam: “não, eles não são ambientalistas, são falsos ambientalistas”. Isso, psicologicamente, prejudicou dois dos meus irmãos menores. Ainda tenho um irmão que há pouco deixou de sofrer de ansiedade porque via as redes e dizia: “vão matar meu pai, ele não vai sair da cadeia”. Para nós que estamos metidos nessa luta, o que mais nos afeta é a família”.

A milhares de quilômetros de distância, a família de Reynaldo se dispersou, mas 26 de seus membros conseguiram se manter pertos, distribuídos em duas casas de bairros contíguos. Esta noite se reuniram. É domingo e são dez horas neste país distante, mas são oito em Guapinol. Reynaldo e seus irmãos sobreviventes continuam marcando, por dentro, a hora do vilarejo. Uma dezena de crianças, entre dois e quinze anos, brinca, grita e se mete entre os adultos que tomamos café com pão numa sala grande. Reynaldo não para de contar causos (anécdotas). Fala de Juan; fala de seus outros irmãos. Amanhã voltará à luta pela sobrevivência (rebusca) neste lugar alheio.

“Juan dizia: “se a vida há que defendê-la com a vida, avante”. Juan já fez essa prova. As outras vítimas que o antecederam morreram com essa vontade de ver correr o rio claro”, nos diz.

Na família, ele é o leme. Em Guapinol foi presidente da junta de água. Seu irmão Aly era presidente da associação de pais e mães. Oquelí, membro da diretoria do patronato. Eram o pilar de uma família numerosa que vivia do que cultivava e dos animais que criava. Hoje essa família está espalhada e depende do trabalho do dia.

“Não podemos voltar, porque voltaríamos à mesma luta e nos estariam esperando. Não somos inimigos do desenvolvimento, mas sim inimigos da forma como querem explorar tudo aqui. As comunidades devem estar em primeiro lugar, sempre. Sinto medo, todos sentimos isso. Mas viver sem água um dia seria mais terrível”, diz Reynaldo.

Mabel sente falta de tudo. Dos irmãos da igreja, das madrugadas em que ordenhava a vaca e descia até o rio, andar livre em sua comunidade, em sua Honduras. “Aqui não nos sentimos livres”, diz.

Também se lembra de por que lutaram: da água do rio que chegava suja e dos uniformes dos filhos que já não se podiam lavar. E de como, depois, viram a água voltar a ficar clara. “Apesar do medo, a pessoa arruma coragem para continuar lutando”, diz. Mas a desconfiança persiste: “Esperamos que algum dia protejam os ambientalistas, os que defendem as florestas, a água, as famílias. Porque a gente vive com medo lá, e não temos confiança de que as autoridades vão nos proteger”.

Embora não olhe as redes, contaram-lhe o que se dizia sobre a família: que eram ruins, que eram violentos. A magoou. “Dois homens conhecedores da palavra de Deus… eu me recuso a escutar isso”.

A esperança eles têm retratada em alguns quadros que pendurou com colagens de fotos de Juan, Carlos Escaleras e os irmãos Domínguez fundidas numa imagem do rio Guapinol — com isso invocam justiça para Juan, aquele homem que, diz Mabel, “era tão inocente; mas com tudo e medo sempre andava na frente” — e também o desejo de voltar “pois eu quero ser enterrado na minha terra natal — diz Reynaldo —. Não quero ser enterrado aqui”.

O que lhes resta de Honduras — as receitas, as memórias das madrugadas e de sua vida inteira em Guapinol — continua os sustentando. “Só é possível por Deus e por tantos anjos na terra que nos apoiaram em todo momento”, diz Mabel.

E então ela sorri entre lágrimas. Levanta da cadeira e volta com um pedaço de tortilla e um pedaço de queijo fresco (cuajada) que nos oferece, como se estivéssemos sentadas na sua casa em Guapinol. “Esse queijo fresco eu faço aqui, mas é com leite de caixinha (de bote)”, diz, e ri.

Devastadores Digitais

Devastadores Digitais é uma investigação que busca desvendar quais interesses estão por trás das campanhas de descredibilização no espaço digital contra ativistas ambientais em seis países latino-americanos, coordenada pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP), em parceria com AFP (Brasil), Colombiacheck (Colômbia), Agência Ocote (Guatemala), Contracorriente (Honduras), Animal Político e Mongabay LATAM (México) e Concolón (Panamá). Com o apoio da “Global Initiative for Information Integrity on Climate Change” e a revisão jurídica da El Veinte.

 

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