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Em Bahía de Banderas a construção aumenta 246% e o defensor ambiental Erik Saracho sofre ofensiva digital e atentado

Animal Político

Ilustración: Animal Político.

Erik Saracho Aguilar chegou a San Pancho, uma localidade no município de Bahía de Banderas, Nayarit, há 25 anos. As circunstâncias o tornaram defensor do meio ambiente. Ele combateu a contaminação e enfrentou a predação causada por um enorme boom imobiliário. Na defesa do território descobriu, da pior maneira, que há interesses capazes de tudo.

Saracho acredita na coletividade e na defesa do lugar onde vive; por isso, em San Pancho formou a Alianza Jaguar, para defender essa espécie em perigo de extinção, e junto com outros ativistas criou a RedMAS, que reúne múltiplos coletivos que tanto realizam oficinas de compostagem quanto se organizam para defender o meio ambiente.

No dia 11 de março de 2026 ocorreu um ataque que gerou medo e incerteza na comunidade. Naquela manhã, Erik Saracho havia saído de sua residência para levar a filha à escola. Ao retornar, observou um veículo que lhe pareceu suspeito, embora naquele momento não tenha dado maior importância. Quando se preparava para entrar em casa, notou que um homem caminhava em sua direção.

Atravessou o portão de segurança que o Mecanismo de Proteção para Pessoas Defensoras de Direitos Humanos e Jornalistas havia instalado e, já dentro de casa, Saracho levantou a mão direita e cumprimentou dizendo “Bom dia.” Nesse momento, o indivíduo sacou uma arma de fogo e atirou. Ao perceber a arma, Saracho só conseguiu levantar a mão esquerda e dar um passo para trás quando uma das balas o atingiu. Apesar da gravidade dos ferimentos, com a ajuda da esposa conseguiu conter a hemorragia. Uma hora depois chegou a polícia municipal; ele foi atendido no hospital regional e transferido para um hospital particular. Por fim, sobreviveu ao ataque.

A tentativa de assassinato foi apenas o clímax de múltiplos assédios em sua comunidade, perseguição judicial e uma ofensiva digital por meio da difusão de material difamatório.

O Animal Político juntou as peças do cerco.

Há o empresário local Carlos Chalita, que acusou Saracho de pedir-lhe um suborno, embora depois tenha negado. Também figuram duas pessoas responsáveis pela página Vallarta en Línea — onde foi publicada informação difamatória contra Saracho — que têm vínculos com uma empresa de marketing que recebeu contratos com o município de Vallarta entre 2020 e 2025 por pouco mais de um milhão de pesos, de acordo com informação oficial publicada na Plataforma Nacional de Transparência.

“Dizem que quanto maior for o desafio que sua comunidade enfrenta, o interesse econômico ou de recursos naturais, maior será o risco ou a vulnerabilidade de ser atacado”, afirma Saracho em entrevista, um mês após receber alta do hospital.

Esta reportagem faz parte da investigação Taladores Digitales (Madeireiros Digitais), uma colaboração liderada pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística, CLIP, da qual participou o Animal Político junto com outros seis veículos da América Latina e com o apoio da Iniciativa Global para a Integridade da Informação sobre Mudança Climática. Juntos vêm investigando quem está por trás dos ataques contra defensores do território e do meio ambiente na Guatemala, México, Honduras, Colômbia, Brasil e Panamá.

A predação imobiliária

Em 2018, ao término do sexênio de Enrique Peña Nieto, a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Naturais (Semarnat) autorizou a construção de 508 casas e apartamentos em Bahía de Banderas, Nayarit. Já ao término do mandato de Andrés Manuel López Obrador houve o maior número de construções autorizadas: 1.759. Um aumento de 246% em apenas seis anos.

O Animal Político revisou a Gaceta Ecológica publicada semanalmente nos últimos oito anos. Nela constam as solicitações e autorizações de construção. No total, Bahía de Banderas teve 7 mil novos imóveis entre 2019 e 2026. Além das casas e apartamentos, também foram construídas 268 vilas e chalés (cabañas), 13 hotéis, 6 restaurantes, 3 centros esportivos e 5 centros de entretenimento.

O crescimento desenfreado ocorreu também enquanto o crime organizado se apoderava da região. O Cártel Jalisco Nueva Generación (CJNG) tem grande poder em Nayarit, estado mexicano a oeste do país. Essa organização criminosa tem negócios além do tráfico de drogas, em outros setores como o imobiliário, conforme documentou o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos em uma investigação divulgada no início de 2026 que resultou em sanções contra 17 empresas e cinco pessoas.

Entre as empresas sancionadas por sua relação com o cartel, os Estados Unidos apontaram a VG Desarrollos de la Bahía, S.A. de C.V. Em 2024, antes do apontamento do Departamento do Tesouro, a Semarnat emitiu uma autorização para construir um edifício com 95 apartamentos. Segundo documentos do Registro Público de Comércio, a empresa é propriedade de Carlos Humberto Rivera Miramontes, que foi apontado pela OFAC em um comunicado de imprensa por ter “um longo histórico de colaboração com narcotraficantes”.

A construção de imóveis continua, apesar das denúncias de possíveis vínculos com organizações criminosas. Só nos primeiros cinco meses de 2026, a Semarnat autorizou a construção de mais 230 apartamentos.

Tampouco há avanços nas investigações do atentado contra Saracho. A única coisa que mudou é a vida do defensor. Ele teve que abandonar sua casa e se mudar para outro lugar no México, na tentativa de viver com um pouco mais de segurança do que em Nayarit. A defesa do território o deslocou a ele, não aos predadores.

Mais construções, mais resistência

Em San Pancho nunca se resignaram a ceder sua comunidade diante de diferentes problemas. Há mais de duas décadas formaram diferentes coletivos integrados na Red por el Medio Ambiente y la Sustentabilidad (RedMAS) em San Pancho. Realizam assembleias para discutir os problemas e encontrar soluções juntos.

Uma das controvérsias mais recentes foi o empreendimento chamado Ysuri, do empresário local Carlos Chalita Kaim. Um complexo turístico formado por 6 edifícios de 6 andares cada, um estacionamento para 63 carros, além de espaços comerciais, área de alimentação, piscina, área de espreguiçadeiras e guarda-sóis na praia. A área impactada seria de 9.821 metros quadrados, conforme explicado na Manifestación de Impacto Ambiental solicitada em 2 de outubro de 2025 pela razão social Operadora de Inmueble Yuri, S. A. de C. V.

No entanto, o cerco começou antes desse pedido. Em 29 de setembro de 2025, no Centro Comunitario Entre Amigos, a comunidade participou de uma assembleia para debater o tema, com a presença do prefeito de Bahía de Banderas, Héctor Santana, e de funcionários de desenvolvimento urbano.

Os ativistas demonstraram documentalmente as violações da obra: uma invasão de 58 metros quadrados da zona federal do estuário; o projeto ultrapassava o limite legal de apartamentos (projetava 74 quando o máximo é 50); a falta de vagas de estacionamento (propuseram apenas 64, descumprindo o regulamento local); e o depósito ilegal de entulho na rodovia federal 200.

A esse clima de hostilidade somou-se a participação de atores locais que defenderam a imobiliária. De acordo com o próprio testemunho de Erik Saracho, durante a assembleia de 29 de dezembro destacou-se a presença de uma mulher identificada como “Katy”, que atuou como defensora muito vocal do projeto.

Essa defesa, explica Saracho, respondia a uma estratégia do incorporador para conquistar apoio social: a empresa teria prometido doar 100 mil pesos à escola pública local, onde essa mulher colabora. Isso foi confirmado por informação divulgada pelo próprio empresário Chalita Kaim entre membros da comunidade. O empresário enviou mensagens pelo WhatsApp listando as obras de “trabalho social” dentro da comunidade, como “compra de palmeiras”, “doação direta à escola”, entre outros “apoios”, “instalações elétricas”, além de cartas de apoio dos moradores.

Depois, Chalita Kaim acusou o ativista de exigir-lhe um milhão de dólares e um apartamento em troca de permitir a obra, relata Saracho. O empresário chegou a procurar a jornalista Susana Carreño, reconhecida por sua cobertura ambiental. Após sobreviver a um atentado em 2022, ela tem escoltas como parte do mecanismo de proteção para jornalistas e defensores de direitos humanos.

O encontro ocorreu em 2025, após a cobertura dela do protesto dos moradores contra o empreendimento imobiliário Ysuri. Durante a conversa, o empresário pediu “ajuda”, falou do tamanho de seus investimentos e da rejeição dos ambientalistas. Quando ela retrucou que “eles têm razão”, Chalita respondeu: “É que a senhora não conhece o Erik Saracho. Ele tentou me extorquir.”

A jornalista respondeu que ela não era o caminho. “Então não é comigo que o senhor precisa falar, e sim com o Ministério Público para fazer a denúncia.” Em seguida se retirou, lembra Susana Carreño.

O Animal Político procurou Carlos Chalita, mas ele recusou conceder uma entrevista. Respondeu apenas via WhatsApp, negando tudo: “Em nenhum momento fui vítima de qualquer tipo de extorsão por parte da pessoa mencionada.”

Embora na solicitação não tenha sido mencionado o atentado, o empresário afirmou não ter “nada a compartilhar diante deste caso trágico e condenável; manifesto meu apoio e solidariedade ao senhor Saracho e sua família. Espero que as instituições possam prover a justiça necessária para essa família.”

A ofensiva digital

Sem conseguir frear a defesa territorial nas assembleias, veio uma guerra digital. Em 9 de dezembro de 2025, o portal “Vallarta en Línea” publicou uma matéria assinada por “JoseR”, intitulada: “Señalan a Erick Saracho, activista, por bloquear el progreso turístico en San Pancho”, na qual o acusavam, sem apresentar provas, de frear o desenvolvimento estadual sob um suposto monopólio de aluguéis pelo Airbnb.

Paralelamente, foi difundido um vídeo difamatório contra Saracho no Facebook, além de comentários ofensivos no grupo do Facebook “San Pancho Nayarit Comunidad Propositiva”, um espaço de 41 mil membros co-fundado por Saracho e Luis Morales, outro morador.

O custo da afronta digital teve efeitos emocionais e sociais, explica Saracho. “No início eu achava que eram irrelevantes, porque quem nada deve nada teme, mas quando geram desprestígio ao seu redor, as pessoas ao seu redor acreditam, e embora você seja imune a esse veneno, ele permeia nas pessoas ao seu redor. Então, de repente, você começa a ser odiado pelas suas comunidades.”

Para esta investigação, o Animal Político rastreou informações sobre as diferentes publicações para encontrar os responsáveis. O vídeo difamatório foi denunciado por usuários como informação falsa e a plataforma o removeu. No entanto, buscou-se a URL da publicação, que continha um identificador numérico único que o Facebook atribui exclusivamente a perfis e páginas dentro da plataforma.

Ao inserir diretamente esse identificador, o sistema redireciona automaticamente para a página “Vallarta en Línea”. Isso permite estabelecer que essa conta foi a responsável por publicar originalmente o vídeo posteriormente removido.

Fontes do município confirmaram que o dono da página é José Reyes Burgos, a mesma pessoa que assina matérias com seu nome completo ou com “JoseR”, como ocorreu com a matéria difamatória contra Saracho.

Reyes Burgos, além disso, aparece como “contato” da empresa SGS Marketing Solutions no cadastro de fornecedores do governo de Puerto Vallarta para o período 2024-2027, de acordo com o listado oficial publicado na Plataforma Nacional de Transparência. Trata-se do único vínculo entre Burgos e a empresa, uma vez que quem aparece como proprietário nas escrituras notariais são Estanislao Ramírez Alonso, depois Abigail Jiménez Agustín e, por fim, Teresa Pérez Cholula.

A SGS Marketing Solutions se dedica à “prestação de serviços como assessorias, consultorias, desenvolvimento de programas, design, produção em matéria de marketing impresso, digital ou qualquer outro meio, por conta própria ou mediante terceiros”, segundo seu contrato social.

Foi registrada em cartório em Puebla em 12 de fevereiro de 2020 e, quatro meses depois, em 25 de junho de 2020, o governo de Puerto Vallarta — então sob a administração do prefeito Arturo Dávalos Peña — lhe concedeu um contrato de 83 mil pesos (cerca de US$ 4.700) pela difusão de avisos institucionais.

Entre as informações do governo de Vallarta disponíveis na internet estão extratos de sua conta bancária, verificados junto ao banco para confirmar a autenticidade. Entre os registros consta um pagamento à SGS Marketing Solutions de 125 mil pesos pelo conceito “vídeo full HD para redes”, emitido em 21 de outubro de 2025, dois meses antes da publicação do vídeo difamatório contra Saracho.

Há também um contrato de 257 mil pesos (aproximadamente US$ 14.800) que o município de Vallarta firmou com a empresa SGS Marketing Solutions para a publicação de banners durante 30 dias no portal “Vallarta en Línea”, de acordo com registros na Plataforma Nacional de Transparência.

A empresa declarou como endereço fiscal um domicílio em Puebla, dentro de uma zona residencial. No entanto, no cadastro de fornecedores de Puerto Vallarta registrou o endereço França 388, Casa B-1, colônia Versalles, Puerto Vallarta, Jalisco, CEP 48328. Atualmente, esse endereço aparece vinculado a um estabelecimento de fisioterapia e, em registros de fornecedores, também é utilizado como endereço de um escritório de advocacia.

Por sua vez, o site “Vallarta en Línea” não tem diretório e os dados do proprietário do domínio estão censurados. Embora tenham um e-mail e telefone de contato, nenhum dos dois está em funcionamento.

O Animal Político buscou esse número de telefone por meio de uma ferramenta que rastreia diferentes fontes digitais para saber a quem pertence. Assim, descobriu-se que o número está vinculado a “Cynthia Roman Staf”, com registro em Puerto Vallarta, Jalisco. Trata-se de uma “criadora digital e blogueira”, conforme se descreve em página do Facebook, cujo conteúdo está voltado para a promoção da vida turística e social de Puerto Vallarta.

Ao ser contactada, disse que já não “colaborava” com o Vallarta en Línea havia um ano. No entanto, ao ser informada de que seu contato aparece como responsável pela página do Facebook, respondeu: “já tentei que me tirem de lá e não consegui.” Embora em seu perfil ainda aparecesse como seu histórico de trabalho atual: Vallarta en Línea.

Cynthia ofereceu avisar “à redação” sobre esta investigação, mas recusou fornecer o contato que mencionava. Minutos após a conversa, o portal Vallarta en Línea removeu a publicação da matéria difamatória contra Saracho.

Na conversa, também se pediu a Cynthia o contato de José Reyes Burgos, mas ela respondeu que não o conhecia. No entanto, ela aparece em vídeos do canal do YouTube dele, que foram apagados minutos após a conversa. Mensagens foram enviadas ao chat da página do Facebook de Vallarta en Línea, mas não houve resposta.

Semanas antes do atentado sofrido por Saracho em março de 2026, foi desencadeada uma ofensiva digital contra ele dentro do grupo do Facebook “San Pancho”, criado por Saracho e outros ambientalistas. Embora os administradores e moderadores tenham removido todas as publicações e comentários agressivos, as evidências obtidas por esta investigação — algumas capturas de tela preservadas, as conversas com Erik Saracho e o testemunho dos moderadores e administradores do grupo do Facebook San Pancho Nayarit Comunidad Propositiva — mostram que a campanha buscava desacreditar e assediar o ativista, criando um ambiente de ódio e agressão permanente.

Por exemplo, em uma das capturas de tela preservadas daquela ofensiva, um usuário sustenta que o próprio ativista teria ordenado o ataque para se beneficiar politicamente; afirma que Saracho buscava se apresentar como vítima e “sair como herói” perante a comunidade, ao mesmo tempo em que descartava a possibilidade de empresários estarem por trás da agressão, pois seriam os primeiros suspeitos. Da mesma forma, houve usuários que apoiaram esse tipo de narrativa que, em vez de condenar o atentado, promoveram versões que questionavam o ativista.

Questionados sobre isso, os administradores dizem lembrar de publicações adversas a Saracho. “Buscavam polarizar a opinião”, diz um dos administradores.

Os perfis compartilhavam um padrão, como avatares de animais ou frutas com óculos escuros, e incluíam contas como TaupePear1481 e SanPanchitoLibre, administrada por um usuário identificado como Denisse Perez. Em nenhum dos casos foi possível rastrear mais dados, pois são perfis restritos.

E após a agressão física, persistiu a digital. Por exemplo, o usuário ScenicMango737 publicou no grupo do Facebook que o próprio Saracho “se mandou baleado” para figurar como herói e manipular a comunidade de “hippies que o apoiam”.

Saracho e os moderadores próximos a ele acordaram remover os comentários e bloquear os agressores para respeitar os objetivos fundadores do grupo: fomentar um ambiente propositivo, construir tecido social e promover a participação cidadã e a consciência ecológica.

Uma dezena de pessoas eram administradores e moderadores do grupo e tinham a faculdade de decidir qual conteúdo era aceitável — e agiram em conformidade. Consultados, admitem que não preservaram registros dos comentários removidos; ainda assim, os moderadores lembram da ofensiva digital.

Da mesma forma, usuários da mesma página lembram dessa campanha, apontando a participação de usuários como skinledguaba7207, scenicmango737, Brightjackfruit805, TaupePear1481 e Indigoflamingo5412, todos com avatares de desenhos com óculos, seguindo um padrão de anonimato.

Uma revisão permitiu constatar que no total os administradores bloquearam 163 usuários, dos quais Erik Saracho conseguiu identificar pessoalmente 30 como suspeitos de participar na campanha. No entanto, não há nenhuma publicação desses usuários na ofensiva — apenas a suspeita do ativista.

De ameaças ao atentado

Por seu ativismo, Erik Saracho integra o Mecanismo Federal de Proteção para Pessoas Defensoras de Direitos Humanos, a estratégia do governo do México para proteger quem enfrenta risco de vida. Entre as medidas de proteção que lhe foram atribuídas estiveram a instalação de câmeras do lado de fora de sua casa e um botão de pânico, dispositivo para solicitar auxílio policial em situação de emergência.

Nada disso impediu o atentado.

Dois dias antes da agressão, a assistente direta de Saracho recebeu uma ligação telefônica extorsiva em que a advertiram: “Você incomodou gente muito importante, estão te seguindo e têm permissão para te matar.”

Na quarta-feira, 11 de março, a agressão ocorreu quando o ativista retornava à sua residência, sendo atingido por uma bala.

Em 18 de março de 2026, foi divulgada a detenção do suposto agressor. No entanto, de acordo com Erik Saracho, as autoridades teriam apresentado uma pessoa alheia aos fatos. Em suas próprias palavras, a suposta captura foi realizada “para baixar a pressão sobre o Ministério Público e distrair, enfim, a atenção do caso. […] pegaram outra pessoa que queriam que nós reconhecêssemos como o agressor, mas não era, porém na mídia ficou a percepção de que já o tinham capturado.”

Antes do ataque, em 19 de janeiro de 2026, Erik Saracho havia registrado uma denúncia formal junto ao Ministério Público de Sayulita pelo assédio digital. Além de exigir a investigação, pedia também que a autoridade preservasse as evidências digitais do Meta (Facebook) antes que fossem apagadas permanentemente.

Assédio judicial e a “Lei Mordaça”

Erik Saracho não foi perseguido apenas física e digitalmente. Também houve autoridades que o acusaram de danos sem fundamento. O primeiro ataque registrado ocorreu em 17 de julho de 2017, quando o Ministério Público de Sayulita, chefiado por Francisco Javier Quiñones Reyes, o convocou. O motivo da convocação? Acusavam-no de ter danificado uma grade.

Para se defender dessa acusação, em 1º de setembro do mesmo ano, o ativista teve que exigir por escrito que a autoridade fosse ao local do problema com um aparelho GPS para registrar as coordenadas exatas de onde supostamente estava essa grade afetada.

Saracho fez esse pedido porque ter a localização precisa no mapa era a única maneira de provar que ele não tinha nada a ver com os fatos. Foi sua forma de exigir seu direito mais básico à defesa e demonstrar que as autoridades estavam inventando um crime para intimidá-lo e frear sua atuação no município.

O assédio judicial mais grave ocorreu em 2019, com o conflito do empreendimento chamado “Punta Paraíso”. Carlos Lemus Mateos, procurador da Pacific Lifestyle Properties, a empresa incorporadora, entrou com uma ação cível contra Erik Saracho e outros cinco defensores do território: Alfredo Gazra Leal, María Elvia García Palomera, Israel Landa Miranda, Indalecio Sánchez Rodríguez e Ismael Duñalds Ventura.

O argumento foi que os protestos, a publicação de panfletos e as entrevistas em que os ativistas denunciaram que o empreendimento imobiliário “Punta Paraíso” invadia bens públicos e estava ligado a atos de corrupção afetaram gravemente a imagem da empresa; que atentavam contra sua integridade moral e que haviam frustrado suas projeções de vendas, causando-lhes perdas econômicas quantificadas em 4.698.463 pesos mexicanos (cerca de US$ 270 mil na cotação atual).

Como resultado dessa ação, o Juiz Quarto Cível de Jalisco, Manuel Edgardo Servín Orozco, determinou medidas extraordinárias para silenciar e punir os ativistas. Por um lado, aprovou um embargo cautelar, expedindo ofícios para congelar suas contas bancárias pelo valor dos 4,6 milhões de pesos exigidos.

Por outro lado, emitiu a “lei mordaça” que os proibiu de realizar marchas, manifestações, entrevistas ou publicar qualquer tipo de informação em meios de comunicação massivos ou eletrônicos em que apontassem supostos atos de corrupção da empresa ou do projeto Punta Paraíso.

Saracho confessa que o estresse decorrente dessas agressões e campanhas digitais contra ele lhe provocou um infarto que o levou ao Instituto Nacional de Cardiología. Até hoje, as contas dos ativistas continuam congeladas.

Agora, apesar de ter sido forçado a abandonar sua comunidade, Saracho aponta que sobreviver traz consigo a responsabilidade de continuar sua defesa pelo país: “Não me parece que o privilégio de ter ficado vivo seja para desfrutar uma vida sem responsabilidade com o entorno.”

Mantém a convicção de que ainda há oportunidades para melhorar o ambiente e descarta abandonar o território nacional pelo profundo amor que lhe dedica. “O México é o melhor país do mundo; por isso nascemos aqui, e acredito que vale a pena defendê-lo.”

Devastadores Digitais

Devastadores Digitais é uma investigação que busca desvendar quais interesses estão por trás das campanhas de descredibilização no espaço digital contra ativistas ambientais em seis países latino-americanos, coordenada pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP), em parceria com AFP (Brasil), Colombiacheck (Colômbia), Agência Ocote (Guatemala), Contracorriente (Honduras), Animal Político e Mongabay LATAM (México) e Concolón (Panamá). Com o apoio da “Global Initiative for Information Integrity on Climate Change” e a revisão jurídica da El Veinte.

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