A Corte de Constitucionalidade da Guatemala concluiu em setembro de 2018 que o Ministério de Energia e Minas havia concedido licenças de exploração da mina Escobal violando o direito do povo Xinka de ser consultado previamente, de forma livre e informada, sobre o projeto, conforme previsto pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), um tratado internacional assinado pela Guatemala que protege os direitos dos povos originários. O povo Xinka é uma das quatro grandes culturas da Guatemala, originária do sudeste do país.
No momento da decisão da Corte, a mina Escobal, a cerca de 74 quilômetros da capital guatemalteca, em San Rafael Las Flores, Santa Rosa, era propriedade da Tahoe Resources. A empresa havia extraído prata e outros minerais como ouro, chumbo e zinco desde 2013 até 2017. Em fevereiro de 2019, a Pan American Silver, uma multinacional com sede no Canadá — e uma das maiores produtoras de prata do mundo — concluiu a aquisição da mina, conforme reportado pela própria Pan American a seus acionistas em seu relatório anual de 2018. O documento também registra que a mina foi propriedade da Tahoe Resources.
Nesse mesmo relatório, a mineradora canadense descreve a Escobal como “uma das melhores minas de prata do mundo, com reservas prováveis e provadas de 264 milhões de onças de prata” e anuncia planos para reativá-la, passando das 20 milhões de onças de prata produzidas no último ano em que operou — entre 2016 e 2017 — para 50 milhões anuais, que é seu potencial.
Para conseguir reativar a licença minerária da Escobal, a Pan American garantiu que apoiaria a consulta com os habitantes indígenas e “trabalharia para conquistar o apoio das comunidades locais em favor da operação da mina”.
A consulta com os Xinkas levou sete anos, com visitas de campo, análise técnica e deliberações. Em 8 de maio de 2025, esse povo apresentou suas conclusões ao presidente Bernardo Arévalo. Por maioria, disseram não à mina.

As mensagens se intensificaram após a consulta. Publicações e comentários nas redes sociais atacando o povo Xinka, com mensagens que poderiam ter caráter difamatório ou racista; desinformação e até ameaças que parecem buscar desacreditar suas lideranças. Essas mensagens haviam começado desde 2018, quando a operação da mina havia sido suspensa.
Entre aquele ano e abril de 2026, segundo apurou a Agência Ocote, foram difundidas ao menos 201 publicações e comentários no Facebook e na rede social X com esse tipo de insultos. Esta reportagem faz parte da investigação colaborativa e transfronteiriça Taladores Digitales (Madeireiros Digitais), liderada pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP) que, junto com outros seis veículos da região e com o apoio da Iniciativa Global para a Integridade da Informação sobre Mudança Climática, vem investigando quem poderia estar por trás dos ataques contra defensores do território e do meio ambiente na Guatemala, México, Honduras, Colômbia, Brasil e Panamá.
Esta investigação jornalística encontrou 8 perfis do Facebook que difundem mensagens hostis contra os Xinkas. São eles: Flor de Jumaytepeque, Jesika Azucena Navichoque, Juan Crisostomo Gonzalez, Juanito Obervador Colis, Juan Ricardo Berganza, La Caja de Pandora, Marito Navichoque Juárez e Memes Colis. Há também três páginas da internet que publicam ataques: MEMES Jumaytepeque, Comunidad Agrícola Jumaitepeque e Hechos Santa Rosa.
Os oito perfis e as três páginas do Facebook que criminalizam, estigmatizam ou desinformado sobre o povo Xinka também compartilham informações locais. Em algumas publicações, essas páginas e perfis compartilharam as mesmas fotografias ou repetiram relatos idênticos.
Três das contas têm nomes relacionados a uma aldeia: Jumaytepeque. Trata-se de uma localidade no município de Nueva Santa Rosa, a cerca de 30 quilômetros da mina. Faz parte da área de impacto das operações do projeto.
O conteúdo dessas contas se concentra em fatos sobre esse território, mas também inclui informações dos territórios vizinhos, alguns deles também envolvidos no processo de resistência à mineração.
A narrativa do ódio
Dos 11 perfis e páginas, 10 não permitem identificar seus administradores — não publicam número de telefone nem e-mail —, o que dificulta identificar a pessoa por trás da conta. Suas fotos de capa e de perfil são de ilustrações, obras de arte, paisagens, igrejas, parques, edifícios, placas turísticas, estradas ou objetos, como cadeiras de rodas, cântaros ou escudos.
Também usam fotos publicadas em meios de comunicação. Por exemplo, em 2024, Flor de Jumaytepeque colocou como foto de perfil uma imagem do veículo Prensa Libre sobre uma notícia de escassez de água.
Embora o nome do povo Xinka se escreva com “k”, o perfil Flor de Jumaytepeque e os demais perfis e páginas coincidem em grafá-lo com “c”. Entre as coincidências das mensagens que publicam, costumam se referir ao povo Xinka como “supostos”, “falsos” ou “os que dizem ser”, chegando inclusive a questionar sua existência: “realmente, existem Xincas?”.
“Não são perguntas inocentes. São atos de negação ontológica. Está sendo negado o direito de um povo a existir, com identidade, história própria, território e direitos próprios coletivos e individuais garantidos em marcos internacionais e nacionais”, explica em entrevista à *Agencia Ocote* a antropóloga Irma Alicia Velásquez Nimatuj.
Nas publicações, ridiculariza-se a organização do povo Xinka e suas lideranças; acusa-se seus líderes de não fazer “nada de concreto” pelo povo; questiona-se sua autenticidade; chamam-nos de “lobos disfarçados”, “acarretados” (pessoas trazidas de fora para inflar manifestações).
“Há um padrão de desumanização progressiva contra os indígenas”, diz Velásquez Nimatuj. “Em nenhum momento essas publicações reconhecem a historicidade, a memória coletiva ou os desafios que enfrenta o povo Xinka. Fala-se sobre eles, mas nunca com eles, nem a partir de sua perspectiva ou perspectivas.”

As mensagens das publicações também costumam criticar a oposição do povo Xinka ao projeto minerário.
“Pueblo xinca san francisco de jumaytepeque mi tierra así dice ese rótulo que pusieron unos xincas en protesta para la mina irónicamente abajo está un basurero que contamina el aire el agua y la gente que pasa abajo estaba un mojón de la línea de jumay y ni cuenta se dan [sic]”, é parte do texto de uma das publicações da conta Flor de Juamaytepeque, de 8 de junho de 2025.
As autoridades indígenas também tomaram medidas legais e se pronunciaram publicamente sobre o problema dos lixões.
“As comunidades Xinka estão tentando estabelecer um precedente que faça respeitar seu direito de decidir sobre seu próprio território”, disse em entrevista para esta investigação Guadalupe García, diretora do Observatorio de Industrias Extractivas (OIE).
Em comentários registrados em resposta a publicações feitas na conta oficial do Parlamento do Povo Xinka, as mensagens são semelhantes. Algumas não contêm mensagens de ódio, mas tentam desinformar. Por exemplo, buscam retirar a responsabilidade da atividade minerária pela contaminação da água com arsênio, embora estudos tenham demonstrado que essa é uma das consequências dessa operação.
“Muestren análisis no sean pajeros. Arsénico hay en la parte alta y el agua no corre para arriba. Es obvio que van haber metales, es una zona de minerales. No hay necesidad que haya mina para eso esté presente, es algo natural. [sic]”, comentário do perfil @SofiaMV, publicado em 8 de maio de 2025.
Há comentários favoráveis à mina que não contêm violência — simplesmente a apoiam e questionam a oposição. Entre esses, há mensagens do perfil Jennifer MoRales (Yeya), usuária do Facebook que se identifica como funcionária da Pan American Silver Guatemala.
O povo Xinka se opõe à mineração em seu território com a convicção de proteger o meio ambiente — principalmente a água —, buscando evitar que seu volume se reduza ou que se contamine com arsênio e outros minerais.
“Há pessoas que dizem que a mineradora traz desenvolvimento, mas nós que vivemos nas áreas rurais podemos perceber que não, porque afeta nossos bens naturais. Principalmente na perda de muita água”, disse Ayda Cortéz Carrillo, secretária da comissão da juventude do Parlamento do Povo Xinka.

No mesmo sentido de defesa, Patricia Gregorio, autoridade indígena Xinka de Nueva Santa Rosa, expressa: “Amo a vida, defendo o território porque defendo as florestas, a água, as nascentes de água que existem aqui em nosso território — muitas delas já estão perdendo seu aquífero.”
Marisol Guerra, presidente da comissão da mulher do Parlamento Xinka, acrescenta que a luta não é apenas contra a mineração, pois dentro do território Xinka — que abrange os departamentos de Santa Rosa, Jutiapa e Jalapa — também empreenderam lutas para preservar as florestas e se opor ao desmatamento.
A pioneira dos ataques
A resistência Xinka à mina enfrentou desde 2013 perseguição policial, atentados e assassinatos. Na faixa de boas-vindas que há na entrada da humilde sede de sua resistência estão as evidências: fotografias de 27 de abril de 2013, de dois homens com o rosto ensanguentado, de manifestantes e da polícia os reprimindo. A sede é composta por dois quartos de madeira e zinco que servem de capela e alojamento para quem faz turnos para impedir a passagem do combustível que a mina precisa para gerar energia elétrica e operar.
Naquele dia de abril, conforme estabeleceu o Ministério Público, pelo menos sete pessoas ficaram feridas; agentes de segurança privada saíram para reprimir com armas os manifestantes, por ordem de Alberto Rotondo, chefe de segurança da mina.

A violência não parou por aí. Um ano depois, Merilyn Topacio Reynoso, de 16 anos, coordenadora de um movimento juvenil local contra a mineração, foi assassinada.
Mas somente a partir de 2018, quando a Corte confirmou a suspensão da operação na mina Escobal, detectam-se as primeiras mensagens online direcionadas contra representantes do povo Xinka. Foram publicadas pelo perfil “Comunidad Agrícola Jumaitepeque” em uma página do Facebook. Esse perfil fez sua última publicação em abril de 2020, sem comunicar nenhum motivo. Até abril de 2026, ainda aparece com 1.200 seguidores.
De acordo exclusivamente com o conteúdo da página “Comunidad Agrícola Jumaitepeque”, ela representa a organização comunitária de mesmo nome, sediada na aldeia de Jumaytepeque, e seu líder é Domingo Fabián Sánchez.
Na aldeia de Jumaytepeque há uma divisão entre as lideranças. De um lado, a Junta de Principales del Pueblo Xinka de San Francisco Jumaytepeque, que mantém a denominação ancestral para reafirmar sua identidade e legitimidade como organização indígena e que foi reconhecida pela maioria da comunidade; do outro, o grupo que, segundo fontes comunitárias, se autoproclamou autoridade e conserva o nome de Comunidad Agrícola.

As publicações do perfil “Comunidad Agrícola Jumaytepeque” eram direcionadas contra Amílvar Urías, então presidente da Junta de Principales de Jumaytepeque e desde 2023 também presidente do Parlamento do Povo Xinka, uma das lideranças mais visíveis na oposição ao projeto minerário Escobal.
O Parlamento do Povo Xinka é uma organização dedicada a preservar a aliança entre as comunidades. Representa legalmente o povo Xinka em processos de consulta e diálogos com o Estado. Também resgata e pesquisa o idioma e a cultura Xinka.
Outra figura atacada por essa página é Quelvin Jiménez Villalta, advogado do Povo Xinka e, desde 20 de março de 2026, magistrado do Tribunal Supremo Electoral (TSE). O assédio contra Jiménez não foi apenas digital. De acordo com as denúncias, ele foi ameaçado, perseguido e monitorado fisicamente a tal ponto que, em julho de 2019, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos lhe concedeu medidas cautelares.
A Agência Ocote pediu a Jiménez que falasse sobre os ataques que recebeu, mas ele preferiu não se manifestar, pois disse que poderia provocar um conflito de interesses com seu papel como magistrado.

De acordo com testemunhos comunitários recolhidos no estudo El pueblo xinka y sus percepciones sobre el impacto cultural y espiritual del proyecto minero Escobal, o grupo da Comunidad Agrícola se mostrou favorável à presença da empresa mineradora na região. No entanto, naquele tumultuoso 2018, a conta Comunidad Agrícola de Jumaytepeque compartilhou um vídeo de integrantes dessa comunidade que negaram ter vínculo com a mineradora.
Dois anos depois, porém, a antropóloga Claudia Dary, que pesquisou as percepções do povo Xinka sobre o impacto do projeto minerário Escobal e entrevistou moradores, ouviu deles que a Comunidad Agrícola Jumaytepeque havia “aceitado presentes ou apoios por parte do projeto (minerário)”. Isso ficou registrado no mesmo estudo, realizado por Dary.
Enquanto esteve ativa, a página também usou a plataforma para convocar uma atividade em que foram registrados ataques físicos. O perfil difundiu chamados a protestos e assembleias orientados a deslocar as autoridades da Junta de Principales — então liderada por Urías.
Em 21 de junho de 2019, a página publicou a convocatória para uma assembleia: “Fazer presença na praça central para decidir se querem que o senhor Amilbar seja o representante de Jumaytepeque”, diz a publicação. O Parlamento do Povo Xinka também foi convidado.
Ao chegar à assembleia, os representantes do parlamento foram recebidos de forma violenta por um grupo de pessoas. Alguns portavam facões e armas de fogo. Ameaçaram queimar os representantes e o então advogado do parlamento, Quelvin Jiménez. O fato foi denunciado publicamente em um comunicado e no Ministério Público.
Esses não foram os únicos ataques físicos contra as lideranças do povo Xinka. Em 2021, Luis Fernando García Monroy, membro do Parlamento Xinka, recebeu uma ameaça de morte e, em 2023, o mesmo aconteceu com Eduardo Donias. Naquele ano, em abril, homens atacaram com armas a residência de Patricia Gregorio, líder Xinka — ela denunciou o fato ao Ministério Público. Em outubro do mesmo ano, assassinaram Noé Gomez Barrera, também líder desse povo originário.
Humor com insulto
A partir de 2021, os ataques contra o povo Xinka passaram a contar com contas mais ativas na difusão de mensagens: as páginas locais MEMES de Jumaytepeque e Flor de Jumaytepeque.
Tem narrativas quase idênticas e estilo de escrita semelhante. O perfil Flor de Jumaytepeque republicou conteúdo da página MEMES Jumaytepeque em sua conta e em grupos. Inclusive, o perfil recomendou a seus amigos que seguissem a página. Republicam-se mutuamente e repetem as mensagens de difamação.
Flor de Jumaytepeque foi criada em 10 de dezembro de 2013, mas sua primeira publicação é de setembro de 2019. Desde então, mantém um ritmo constante de publicações com 12 mil seguidores. O nome de seu administrador é desconhecido. O perfil se descreve como “um lugar simples para piadas e notícias de interesse”. Compartilha notícias da localidade e arredores, memes e conteúdo humorístico. Embora afirme não ter inclinações políticas e buscar a união dos moradores, apresenta conteúdo recorrente contra o povo Xinka e contra seu presidente Amílvar Urías.
A Agência Ocote conseguiu documentar 81 publicações em que Flor de Jumaytepeque ataca o povo Xinka. Costumam chamá-los de: “os xincas das brigas”, “xincas que dividem o povo”, “falsos xincas” e “os supostos xincas que tanto briga fazem com a mina”.
Culpa os Xinkas pela crise de água em Jumaytepeque, pelos montes de lixo, pela falta de espaço no cemitério e por não contribuir para gerir o bem-estar dos moradores. Aponta-os de passar anos brigando com a mina.
“Hoy les presentamos el humo del basurero de nueva es de día y noche cada viaje de los buses de Jumay de los izotes del limar cada carro por eso les decimos que a Jumay lo ven el pueblo mas asqueroso y shuco de nueva y sin agua […] donde estan los supuestos xincas que tanto pleito le hacen a la mina [sic]”, publicou o perfil Flor de Jumaytepeque em 11 de fevereiro de 2023.
Flor de Jumaytepeque não apenas ataca, como também republica outras mensagens contra os Xinkas. Em 2024, replicou uma mensagem de 2019 de Domingo Fabián Sánchez em que ele ataca a Junta de Principales e Amílvar Urías, a quem chama de “Milvar”. Em 2023, voltou a atacá-lo junto com a Junta de Principales, acusando-os de “terem brigado” com a Comunidad Agrícola e de ter “preso o tio Mingo”. Domingo Fabián Sánchez foi denunciado pelo ex-advogado do povo Xinka Quelvin Jiménez por suposta falsificação de documentos.
Outras trincheiras
A outra página, MEMES Jumaytepeque, foi criada em 8 de junho de 2020, mas não fez nenhuma publicação desde dezembro de 2024. Tem 7 mil seguidores e também publicou conteúdo negando a existência do povo Xinka e criticando suas lideranças.
Em 23 de abril de 2025, a página Hechos Santa Rosa publicou uma desinformação contra a organização indígena K’iche’ 48 Cantones e os “supostos xincas”. Acusou-os de receber 864 mil dólares da USAID para bloqueios durante o Paro Nacional (Greve Nacional) de 2023 em defesa da democracia da Guatemala.
Segundo um estudo da organização Global Witness, a organização dos 48 Cantones recebeu fundos da USAID por meio de uma ONG intermediária chamada CEIDEPAZ. As subvenções somaram 99.568,64 dólares entre 2021 e 2023 e buscavam “fortalecer sua capacidade para resolver conflitos pacificamente, melhorar a coesão social, contribuir para uma boa governança local e promover a paz em seus territórios”.
O valor é pelo menos oito vezes menor do que o mencionado na publicação da página Hechos Santa Rosa e foi destinado a outros fins que não tiveram relação com o Paro Nacional de 2023. Além disso, não menciona o povo Xinka como beneficiário dos fundos.
A antropóloga Velásquez Nimatuj lembra que durante a guerra na Guatemala os povos indígenas eram apontados como “comunistas” — hoje são acusados de “agentes do imperialismo”.
“No fundo, o mecanismo utilizado é o mesmo: buscar deslegitimar a agência política própria dos atores indígenas e dos povos, negando-lhes sua capacidade de organização autônoma e reduzindo-os a fantoches de poderes estrangeiros”, diz Velásquez Nimatuj.
Hechos Santa Rosa foi criada em junho de 2019 e, até abril de 2026, tem 42 mil seguidores. Em novembro de 2025, a página divulgou uma publicação favorável à mineradora Pan American. Expressa agradecimento por ela apoiar as atividades da festa em San Rafael Las Flores, município onde funciona o projeto minerário.
Nas informações de contato no Facebook de Hechos Santa Rosa, há um número de telefone. Registros disponíveis no aplicativo Truecaller Profile, para busca gratuita de números, indicam que o número, em algum momento, esteve associado a uma pessoa chamada Marinllo Catalán.
Ao ligar para o número, Marinllo Catalán atende a chamada e confirma ser o contato da página Hechos Santa Rosa. Diz que é editor, mas que há mais pessoas administrando a página. O Facebook registra que são sete pessoas as que a administram. Após a ligação, a página ocultou o número de contato.
Catalán promete ter documentos que sustentam a publicação feita pela Hechos Santa Rosa contra o povo Xinka e promete enviá-los por e-mail. Um endereço lhe foi fornecido por mensagem de texto — até agora, não enviou nenhuma prova.
Na publicação de ataque, Hechos Santa Rosa escreveu Xinca com “c”, como costumam fazer os demais perfis e páginas que atacam. Mas em outras publicações, a página o escreveu da forma correta: Xinka. Catalán não tem explicação para isso.

Sobre o povo Xinka, diz ser originário de Jumaytepeque e que os Xinkas não existem. Quando consultado sobre os outros perfis e páginas que também sustentam uma narrativa como a sua, afirma desconhecê-los.
“Não tenho nenhum vínculo. Nós somos um veículo formal, não nos dedicamos a fazer memes, nem a atacar por meio de perfis falsos ou se escondendo sob um perfil desconhecido. Se vocês podem entrar no meu perfil, sou muito claro, muito sincero, e digo o que acredito e sinto”, disse Catalán.
O editor questiona por que a publicação de Hechos Santa Rosa foi encontrada entre centenas de publicações. Ao inserir no buscador do Google o comando site:facebook.com “supuestos xincas”, que faz parte das narrativas desta investigação, entre os resultados de busca aparece a publicação de Hechos Santa Rosa.
Sobre o vídeo da mineradora Pan American Silver Guatemala publicado pela página Hechos Santa Rosa, Catalán afirma desconhecer o motivo de sua publicação.
O editor explica que administra outra página, a do Canal 15, que reconhece como seu veículo de comunicação. No Guatecompras (portal de compras públicas), Catalán tem registrado o nome comercial Servicios Publicitarios Canal 15.
Com seu negócio, Catalán recebeu entre 2019 e 2026 a adjudicação de Q460.407,03 — ao menos 60 mil dólares —, por serviços publicitários, transporte, cobertura de festa, promoção e publicidade para prefeituras como as de Santa Cruz Naranjo, Nueva Santa Rosa, Santa Rosa de Lima e Casillas. A adjudicação mais expressiva, de Q308.807,03, foi recebida em 2019 como pauta publicitária do TSE para as organizações políticas.
Em setembro de 2018, como uma coincidência verificável, a página Comunidad Agrícola Jumaytepeque mencionou Marinllo Catalán em uma publicação. Em novembro de 2017, antes do início dos ataques nas redes sociais contra o povo Xinka, também compartilhou uma imagem promovendo um evento hípico produzido por “Marinllo” e pela Comunidad Agrícola. Embora, segundo Catalán, ele desconheça a existência dessa página.
O molde
Esse tipo de ataque contra o povo Xinka não é exclusivo da Guatemala. As agressões digitais têm sido uma constante para outros defensores ambientais.
De acordo com o relatório anual Comunidades que resistem: criminalização, estigmatização e assassinato, da Unidad de Protección a Defensoras y Defensores de Derechos Humanos de Guatemala (UDEFEGUA), 96% das agressões a defensores e defensoras de direitos humanos registradas em 2025 ocorreram no âmbito digital.
Brenda Guillén, coordenadora geral da UDEFEGUA, destaca em entrevista à Agencia Ocote a participação das páginas locais nesses ataques digitais. As comunidades reduziram seu interesse em se informar por meio de veículos de comunicação tradicionais — como rádio, televisão ou jornalismo impresso — para dar prioridade às páginas locais na internet.
Sobre o padrão, relata que são contas que primeiro publicam notícias verídicas, captando assim a atenção da comunidade e de seguidores. Depois difundem informações sobre uma pessoa defensora ou uma comunidade.
“Fazem isso com alguma informação que é verídica, mas misturada com discursos estigmatizantes ou difamatórios. Isso faz com que, simbolicamente, no imaginário, gere dúvida nas pessoas da comunidade”, explica Guillén.
As contas locais se multiplicam
As contas locais do Facebook que atacam o povo Xinka e suas lideranças não se difundem apenas em Jumaytepeque.
Em Mataquescuintla, território Xinka que também se opõe à mina El Escobal, circulam publicações contra a resistência pacífica e lideranças como Julio David González Arango, que sofreu um ataque armado em 16 de janeiro de 2021. Agora está no exílio.
Os perfis Jesika Azucena Navichoque, Juanito Observador Colis, La Caja de Pandora, Memes Colis, Juan Crisostomo Gonzalez e Juan Ricardo Berganza, além de costumeiramente se citarem mutuamente nas publicações, também têm outras características em comum. Por exemplo, usam o nome julio gallo para se referir a González Arango.
Dessas contas, a que mais publicações fez contra a resistência pacífica e contra González Arango é Jesika Azucena Navichoque. O conteúdo contra Arango aumentou após o ataque armado: memes que o ridicularizam ou tentam associá-lo romanticamente ao prefeito. O perfil divulga mensagens para desacreditar a agressão física sofrida por Arango.
“Cuantos recuerdan que JULIO GALLO accidentalmente se valio con su propia Arma siendo de derechos humanos porque anda ARMADO [sic]”, publicou o perfil Jesika Azucena Navichoque em 28 de setembro de 2022.
Os ataques lançados por essas contas contra a resistência pacífica se concentram em publicar mensagens — sem provas — de que as pessoas que participam da resistência extorquem a mineradora, ou de que receberam dinheiro e que por isso têm veículos.
Esses perfis deixam poucos rastros de sua identidade. Juanito Observador Colis tem como cidade de origem South Los Angeles, Califórnia; Juan Ricardo Berganza diz estar em Cusco, Peru. Os demais, em Mataquescuintla. Do grupo de perfis, o que tem mais seguidores é Memes Colis, com 5.000, enquanto Juan Ricardo Berganza e La Caja de Pandora têm 1.100 amigos cada. Todos ocultam seus e-mails, telefones e identidade real.
Os efeitos
Embora as páginas que atacam o povo Xinka identificadas pela Agencia Ocote se identifiquem e se relacionem com Jumaytepeque, outras publicações costumam circular em outras páginas do Facebook e pelo WhatsApp.
Assim, chegam a ser vistas pelas comunidades ao redor, que também participam da defesa do meio ambiente do povo Xinka. Isso complica a liderança indígena e gera dúvidas sobre o trabalho de líderes e lideresas.
Ayda Cortéz Carrillo é secretária da comissão da juventude do Parlamento Xinka. Seu rosto aparece em vídeos informativos de campanhas do parlamento sobre temas ambientais, que ela cria junto com outros jovens. Para ela, os ataques e comentários racistas em publicações nas redes sociais não são algo estranho.
Cortéz afirma temer que os ataques passem em algum momento do digital ao físico.
“Me causa bastante medo quando ando sozinha. Mas depois penso que, se estamos lutando, não há razão para ter medo. É bonito dizer que estou lutando por algo que não é só para mim, é para todos. Se estivermos unidos, os ataques não importam”, se convence Cortéz.
Marisol Guerra, presidente da comissão da mulher do Parlamento Xinka, afirma que “nos toca viver esclarecendo e desmentindo o que se diz nas redes sociais. Tudo para que a desinformação não vá além”.

Como consequência dos ataques físicos e digitais, o parlamento criou há alguns meses uma comissão de segurança, responsável por registrar ataques digitais em comentários e publicações.
Quando alguém da comunidade toma conhecimento de um desses ataques, informa a sua liderança, e esta por sua vez repassa à comissão. Antes de se organizarem, receberam alguns treinamentos de segurança, pois afirmam que há integrantes que conhecem pouco as redes sociais.
“Não sou especialista, nem tenho muita tecnologia, mas também não somos tolos”, se defende Patricia Gregorio, autoridade indígena de Nueva Santa Rosa e integrante da diretoria do Parlamento Xinka. “Vivemos na área rural, mas sabemos um pouquinho, e nos assediam nas redes sociais. Dói ver essas represálias — sinto que os ataques vêm com raiva para nós, com fúria, com ódio visceral, e dói.”
Gregorio, Guerra e Cortéz conversaram com a Agência Ocote e concordam que o que mais os incomoda é que se coloque em dúvida a existência do povo Xinka e que se busque anular sua identidade.
Assim como os ataques físicos levaram pessoas a se afastar da resistência contra a mina e a decidir não participar do parlamento, os ataques digitais também provocam medo ou fazem com que as pessoas prefiram se distanciar.

Diante do racismo nas redes sociais, a Comisión Presidencial Contra la Discriminación y el Racismo Contra los Pueblos Indígenas en Guatemala (Codisra) pouco pode fazer, segundo Luis Fernando García, comissário da Codisra.
García Monroy explica que no Acuerdo Gubernativo 189-2024 havia sido incluída entre as funções da Codisra monitorar os meios de comunicação para denunciar casos de discriminação e racismo contra os povos indígenas, mas a atribuição foi suspensa por um recurso de amparo impetrado pela Asociación de Periodistas de Guatemala no processo 8012-2024.
O comissário tem conhecimento dos ataques físicos sofridos pelo povo Xinka. O movimento global de direitos humanos Anistia Internacional registra que ele foi liderança indígena e sobreviveu ao ataque armado de 2013, durante um protesto; também recebeu ameaças de morte em 2021. Está ciente dos ataques digitais sofridos pelo povo Xinka e outras lideranças indígenas.
“Em torno a essa situação, a Codisra está trabalhando em seu relatório semestral, e um dos pontos importantes é entregar à presidência toda a situação que os povos indígenas estão sofrendo com os ataques nas diferentes plataformas sociais e com as diferentes formas de discriminação e racismo”, disse García em entrevista à *Agência Ocote*.

Até 2024, mais de 250 pessoas das comunidades Xinka estavam criminalizadas e 18 haviam sido assassinadas. À violência física soma-se a digital.
Devastadores Digitais é uma investigação que busca desvendar quais interesses estão por trás das campanhas de descredibilização no espaço digital contra ativistas ambientais em seis países latino-americanos, coordenada pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP), em parceria com AFP (Brasil), Colombiacheck (Colômbia), Agência Ocote (Guatemala), Contracorriente (Honduras), Animal Político e Mongabay LATAM (México) e Concolón (Panamá). Com o apoio da “Global Initiative for Information Integrity on Climate Change” e a revisão jurídica da El Veinte.




