Sob a copa de árvores centenárias na Área de Conservação Regional Alto Nanay-Pintuyacu Chambira, dezenas de dragas cavam o leito dos rios em busca de ouro, destruindo o equilíbrio de diversos ecossistemas com grande biodiversidade e que são fonte vital de água potável para mais de meio milhão de pessoas em Iquitos. Ninguém foi condenado por esse garimpo ilegal, e são os próprios moradores que assumiram, sem armas nem respaldo oficial, a defesa de seu território.
Por: Leandro Amaya Camacho (Revista Nube Roja)
A noite ficou para trás na selva de Loreto, e o mundo surgia ruidoso, colorido e selvagem nas curvas do rio Nanay. A escuridão se dissolvia em forma de floresta. Incontáveis buritis, paus-mulatos e licurizeiros avançavam em direção à água. Naquele momento, a luz do sol escorria calorosamente entre as copas das árvores e pousava sobre a espalda escura e mansa do rio. Os galhos e o céu refletiam nele. E o canto alvoroçado dos pássaros despertava as antas, queixadas e pacas. Os galhos estalavam. O dia amanheceu.
Esse lugar, distante e antigo na Amazônia norte peruana, é apenas uma das margens da Área de Conservação Alto Nanay-Pintuyacu Chambira, que se estende, como um mar verde e imensurável, ao longo de mais de 950 mil hectares de florestas de areia branca, florestas de altitude e florestas alagáveis, ou igapós.
Criada em 2011 pelo Ministério do Meio Ambiente, a área foi pensada para proteger os rios Pintuyacu, Chambira e Nanay, principal fonte de água potável de Iquitos, a maior cidade amazônica do Perú.
Segundo o Ministério do Meio Ambiente, a área também tem o objetivo de proteger espécies raras e encontradas na Amazônia peruana, como a inquieta ariranha, o peixe-boi e a choca-de-crista-preta, além de garantir o “funcionamento de processos ecológicos” como a desova dos peixes e suas rotas migratórias.
A área sustenta a vida de 19 comunidades – entre grupos indígenas e ribeirinhos – espalhadas pelo entorno e interior da floresta, ao longo das bacias dos rios Pintuyacu e Nanay. Ali vivem 494 espécies de animais, das quais sete estão em perigo de extinção de acordo com a Lista Vermelha da UICN, além de 670 tipos de plantas.
Embora os igapós ajudem a estocar carbono, desde sua criação a área já perdeu mais de 2,4 milhões de toneladas de CO?, uma quantidade equivalente a das emissões de quase 50 mil pessoas por onze anos, de acordo com dados levantados por Pedro Paulo Souza-Lopes, que faz parte do Programa de Formação em Ecologia Quantitativa do Instituto Serrapilheira. Esta reportagem é fruto de uma parceria entre jornalistas e cientistas latinoamericanos, apoiada pelo instituto brasileiro, em parceria com o Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (CLIP), para explorar como os danos à biodiversidade da Amazônia afetam os diversos serviços ambientais que a floresta presta ao continente.
A perda de CO? é um grave alerta da degradação ambiental. As causas ainda não são totalmente claras, mas podem estar associadas à pressão de atividades ilegais, como o garimpo de ouro nos leito dos rios, que ameaça este ecossistema claro e fresco, repleto de vida e movimento.

As dragas e o rio
O ruído agitado da natureza amazônica é interrompido pelo rugido de um motor. Perto da mata espessa, repousa uma barcaça de madeira úmida que respira ofegante. Dentro dela, cinco ou seis homens se movem apressadamente. Parece uma casa flutuante: três arcos sustentam um teto de plástico, e dos caibros pendem algumas redes, panelas e jarras. A balsa está repleta de galões azuis cheios de combustível, que servirá para manter o motor em funcionamento durante vários dias de jornada. Trata-se de uma draga: um monstro de madeira movido a petróleo, prestes a farejar o leito do rio em busca de ouro.
Uma mangueira, presa na lateral da draga, se estende até a água; um mergulhador a ajusta e começa a sucção. O motor berra com tanta força que assusta os pássaros, os peixes e todos os bichos da mata. Um tripulante vigia uma rampa – que vai da proa à popa -, atento para ver se o ouro chega. Se partículas douradas surgirem, ele dará o aviso: Aqui tem! Então a draga não sai mais daquele lugar.
A mesma rampa despeja os rejeitos arrancados do fundo do rio, deixando atrás de si um rastro branco de sedimentos, sobre o leito escuro do rio: uma cicatriz difícil de apagar.
No caso do Nanay – um rio de águas negras -, essa turbidez fora do comum altera todos os processos ecológicos: diminui a fotossíntese, mata espécies aquáticas adaptadas a essas condições, como o jaraqui, o tucunaré, o jaú e a piranha-vermelha. “Um dos maiores potenciais do Nanay é o aproveitamento sustentável dos peixes ornamentais. Se você olhar para as marcas que a draga deixa, a turbidez da água é de arrepiar. É alarmante”, indica Martín Arana, engenheiro florestal e líder de gestão territorial amazônica na Fundação para a Conservação e Desenvolvimento Sustentável (FCDS).
O ruído agitado da natureza amazônica é interrompido pelo rugido de um motor. Perto da mata espessa, repousa uma barcaça de madeira úmida que respira ofegante. Dentro dela, cinco ou seis homens se movem apressadamente. Parece uma casa flutuante: três arcos sustentam um teto de plástico, e dos caibros pendem algumas redes, panelas e jarras. A balsa está repleta de galões azuis cheios de combustível, que servirá para manter o motor em funcionamento durante vários dias de jornada. Trata-se de uma draga: um monstro de madeira movido a petróleo, prestes a farejar o leito do rio em busca de ouro.
Uma mangueira, presa na lateral da draga, se estende até a água; um mergulhador a ajusta e começa a sucção. O motor berra com tanta força que assusta os pássaros, os peixes e todos os bichos da mata. Um tripulante vigia uma rampa – que vai da proa à popa -, atento para ver se o ouro chega. Se partículas douradas surgirem, ele dará o aviso: Aqui tem! Então a draga não sai mais daquele lugar.
A mesma rampa despeja os rejeitos arrancados do fundo do rio, deixando atrás de si um rastro branco de sedimentos, sobre o leito escuro do rio: uma cicatriz difícil de apagar.
No caso do Nanay – um rio de águas negras -, essa turbidez fora do comum altera todos os processos ecológicos: diminui a fotossíntese, mata espécies aquáticas adaptadas a essas condições, como o jaraqui, o tucunaré, o jaú e a piranha-vermelha. “Um dos maiores potenciais do Nanay é o aproveitamento sustentável dos peixes ornamentais. Se você olhar para as marcas que a draga deixa, a turbidez da água é de arrepiar. É alarmante”, indica Martín Arana, engenheiro florestal e líder de gestão territorial amazônica na Fundação para a Conservação e Desenvolvimento Sustentável (FCDS).

A draga insaciável segue revolvendo o rio, enquanto escava e fere suas entranhas. Como ela, há dezenas de outras fincadas no alto e no médio Nanay: o projeto de Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP), de um consórcio de organizações ambientais conhecido como Amazon Conservation, contabilizou, apenas em 2024, 221 ocorrências da operação de dragas. Entre janeiro e abril de 2024, foram detectadas 99 estruturas do garimpo.
Algumas delas se aproximaram da orla do rio. Outras engoliram as margens, derrubando árvores dos igapós e dando início a um alarmante rastro de desmatamento. Por exemplo, em março de 2024, o MAAP informou que dois mil metros quadrados de cobertura florestal haviam desaparecido da área de conservação, por conta do garimpo.
A Marinha de Guerra do Peru afirma ter destruído 169 dragas no rio Nanay – entre 2020 e 2024 – e nove no Pintuyacu. Contudo, até o momento em 2025, nenhuma operação mista contra o garimpo foi realizada no Nanay.
“Estamos sem orçamento para realizar operações contra o garimpo ilegal”, afirmou uma fonte da Promotoria Ambiental Especializada de Loreto, que não quis revelar seu nome por não estar autorizada a dar declarações para a imprensa.

Ao encerrarem a jornada, os garimpeiros recolheram o material extraído em galões de plástico e aplicaram mercúrio para separar o ouro das impurezas. Em seguida, agitaram a mistura até o amálgama dos metais se assentar no fundo dos galões para, então, ser coletada e aquecida ao ar livre, para que o mercúrio evapore – e se espalhe como um veneno sobre a floresta, causando a contaminação da atmosfera e da água -, até sobrar apenas o ouro brilhante.
O OEFA (Organismo de Avaliação e Fiscalização Ambiental) — depois de ser consultado pela reportagem por meio da Lei de Acesso à Informação Pública — informou que, em 2024, detectou impacto ambiental na bacia do Nanay causado pelo garimpo ilegal. Mas não detalhou a gravidade do problema. Questionado sobre monitoramentos ambientais realizados na área, o OEFA respondeu que não dispunha de dados.
Em resposta a um pedido de acesso à informação, a ANA (Autoridade Nacional da Água), por sua vez, indicou que não realizou estudos específicos para detectar mercúrio nos sedimentos do leito fluvial
“Não existem avaliação sistemática [por parte do Estado] na região de Loreto, apenas estudos isolados que, pelo modo como foram realizados, não trazem informações suficientes”, explica a pesquisadora Claudia Vega, coordenadora do programa de mercúrio da ONG ambiental Centro de Inovação Científica Amazônica (CINCIA).
A febre do ouro
No Perú, a mineração em corpos d’água é uma atividade proibida desde 2012, de acordo com o Decreto Legislativo 1100. Os garimpeiros com suas dragas não deveriam estar no Nanay, nem próximos à Área da Conservação Alto Nanay Pintuyacu-Chambira. Mas elas estão lá e já faz dez anos que chegaram. Inicialmente eram poucas, observavam o comportamento das comunidades. Alguns dos garimpeiros eram antigos madeireiros ilegais e diziam que vinham da capital regional. Outros chegaram da Colômbia, onde também eram garimpeiros e, em alguns casos, tinham passado pelo exército colombiano, segundo apurações da Promotoria Ambiental de Loreto.
Às vezes se escondiam na floresta por longos períodos e, em seguida, voltavam para convencer os mais jovens a segui-los. Ofereciam dinheiro e trabalho, duas coisas raras naquela região.
“Chegaram, se misturaram às comunidades que entram em nossa área de preservação e dominaram tudo. Por exemplo, em Alvarenga e Puca Urco, são eles que impõem a lei”, conta uma moradora que vive perto do encontro dos rios Pintuyacu e Nanay, em algum dos seis povoados conhecidos como Os Seis Irmãos do Pintuyacu. Os lugares a que se referem são duas comunidades nativas localizadas estrategicamente no início e no interior da área de proteção.
“É impossível entrar ali, pois eles são muitos”, afirma outro habitante da região.
Os dois já foram ameaçados de morte e pedem para que seus nomes não sejam revelados.
Nos últimos cinco anos, os garimpeiros se multiplicaram. Os líderes – de acordo com o relato de moradores e com documentos do sistema judicial peruano – adotaram codinomes extravagantes: Moico, Tío Goldberg, Pastuso, Marino, Mago e Papillon. Para consolidar seu domínio, intimidam todos que se opõem. Na comunidade rural Diamante Azul, às margens do Nanay e conhecida pelo combate ao garimpo, eles chegaram armados em busca de um ambientalista, que foi ameaçado de morte. Pouco a pouco, conseguiram amedontrar os habitantes da região.
Até o momento, o exército e a polícia não registraram prisões de garimpeiros no Nanay. Igualmente, nenhuma pessoa foi condenada em decorrência do garimpo ilegal nos rios Nanay e Pintuyacu, e acordo com o Ministério Público do Peru.

Uma análise do número de processos abertos por esse crime na região de Loreto durante a última década revelou que, dos 102 processos registrados, 24 foram arquivados, 52 ainda estão em andamento e em apenas um deles não cabe mais recurso. O restante se encontra em fase de inquérito, ou estão com a audiência marcada. Esses números revelam a lentidão e a eficácia limitada do sistema judicial no combate ao garimpo.
Sem que os verdadeiros responsáveis sejam identificados e punidos, as operações de destruição de dragas são apenas simbólicas: as embarcações desaparecem, mas os operadores, os financiadores e o sistema que as mantêm seguem inabalados.
“Não existe atenção às pequenas comunidades com projetos sustentáveis que as ajudem a melhorar de vida. Essa é uma tragédia superável”, afirma o ambientalista José Manuyama, presidente do Comitê de Defesa da Água, em Iquitos. Para ele, reativar a economia das bacias contribuiria para derrotar o garimpo.
Os Seis Irmãos do Pintuyacu
Na bacia dos dois rios, mesmo que frágil e desarmada, a única resistência contra o garimpo é o comitê de vigilância dos Seis Irmãos do Pintuyacu, fundado em 2009 para proteger a Área de Conservação Regional.

Vigilantes, os membros dessa guarda são bons com o facão, ótimos remadores e pescadores ligeiros. Os membros do comitê afirmam descender dos ikitu, o povo ancestral que aprendeu a amar – e a ser amado por – essa terra brava. Eles conhecem bem os caminhos tortuosos da mata. Andam por toda parte, até mesmo de noite, sem medo de se perder. Sabem quais árvores servem para curar cada dor, em que lugar da floresta a caça é melhor e como se pesca o caparari no Pintuyacu e no Nanay. Eles aprenderam a sentir o bafo quente da floresta nas noites estreladas e ler no céu o traço invisível das linhas do cosmos.
“Meu sangue é ikitu, minha mãe é da raça ikitu”, diz uma das mulheres que lidera o comitê de vigilância dos Seis Irmãos do Pintuyacu. Seu nome é Marcelina e ela nasceu em uma das pequenas comunidades do Pintuyacu. “A floresta é o pulmão do mundo. No Peru, nós fazemos nossa parte, com milhares de hectares. Mas não temos apoio. As pessoas precisam conhecer nossa realidade”.
Nem Marcelina consegue explicar, mas algo dentro de si a levou a dedicar a vida à luta pela floresta e pelos rios. Talvez porque, há décadas, seu avô já enfrentava os homens brancos que derrubavam as árvores da bacia do rio. Talvez habite em seu peito a coragem serena, a valentia herdada dos guerreiros ikitu de quem é descendente.
O certo é que, desde os 19 anos, aprendeu a seguir os rastros na floresta: primeiro dos madeireiros, depois dos caçadores e, por fim, o esconderijo dos garimpeiros nas curvas do rio.
Às vezes ia comandava a única lancha do comitê, à frente dos outros membros da guarda; outras vezes, viajava a Iquitos ou a Lima para contar o que os garimpeiros faziam no Pintuyacu e no Nanay. Algumas vezes era bem sucedida: aparecia na capa dos jornais independentes, mas quase sempre encontra silêncio e indiferença. Então, voltava para sua comunidade através do mesmo rio que a levara para a cidade grande em busca de justiça.
Em algumas ocasiões, nem podia sair do vilarejo. Os garimpeiros proibiram sua circulação. Ameaçaram matá-la. Durante a apuração desta reportagem, chegaram a fotografar sua casa, numa clara mensagem de intimidação.
“Estavam atrás dela em todos os cantos, por pouco não foi morta”, revelou o atual presidente da guarda. Com os olhos vivos e brilhantes, e com o jeito afável próprio de quem cresceu no leste peruano, o homem falava de maneira expressiva. A vida dura da floresta não endureceu seu caráter: conserva o riso fácil e a disposição para contar histórias.
A maioria dos membros da guarda são assim: têm boa vontade para cumprir sua tarefa e estão dispostos a se arriscar para defender as árvores, as aves, os animais e os rios da área de preservação. O grupo conta com cerca de setenta integrantes e é conhecido com Os Seis Irmãos, pois seus membros vêm dos seis povoados que guardam o ponto de confluência entre o Pintuyacu e o Nanay. Mesmo com o calorão amazônico, se vestem com coletes verdes, chapéus de caçador e balaclavas no rosto. Só alguns têm botas; a maioria encara a missão de sandália no pé.
“Nos identificamos como guardiões da floresta. Protegemos os rios, nossa água, que nasce em um riachinho ao final da bacia. Cuidamos da água por nós e pelos que virão”, diz Marcelina aos jovens de sua comunidade.

A tarefa inicial do comitê era patrulhar as divisas da Área de Conservação Regional para tentar barrar o desmatamento ilegal, identificar caçadores clandestinos, evitar a pesca com explosivos e denunciar qualquer entrada não autorizada na floresta. Também precisavam garantir que ninguém abrisse novas áreas de plantio dentro da área protegida, além de participar de treinamentos sobre conservação e manter contato constante com o Governo Regional de Loreto.
“Já enfrentamos madeireiros e pescadores ilegais. Passamos por muitas coisas quando lutamos contra eles. Nos ameaçaram, atiraram contra nós. Depois vieram os garimpeiros. Desde então, tudo é feito com muito esforço, com sacrifício. Nós vigiamos debaixo de sol e da chuva, com fome”, conta o presidente do comitê de vigilância.
Foi assim que o trabalho deixou de ser apenas preventivo, com pequenos conflitos, e se transformou na primeira linha de defesa. Agora, sua missão – assumida por vontade própria – é impedir que os garimpeiros instalados nas porções alta e média da bacia recebem suprimentos. Às vezes agem de maneira direta: interceptam canoas que levam combustível rio acima. Por outro lado, às vezes são mais cautelosos e aplicam táticas de inteligência? se passam por caçadores para detectar, gravar e informar a localização exata dos acampamentos e das dragas ilegais.

“Nós patrulhamos a área de conservação em grupos de 12 a 15 pessoas, entre homens e mulheres. Os garimpeiros passam por nós para entrar na área de conservação, pensam que somos só ribeirinhos e baixa a guarda”, conta Marcelina.
“Se o rio for contaminado, estamos ferrados. Não temos acesso a água potável. A água que bebemos vem direto do rio e é conservada em baldes. Como vigilantes, cuidamos para que a floresta e os rios não desapareçam”, explica.
Mas o trabalho deles não tem nada de romântico: os guardas são ameaçados de morte, andam desarmados, vivem em lavouras de subsistência, em condições precárias. Um deles, certa vez, nem conseguiu enterrar um parente por falta de dinheiro. O Estado simplesmente virou as costas. Enquanto isso, eles enfrentam – com muita coragem e lanças de madeira – organizações criminosas com grande poder econômico, armadas com fuzis, escopetas e revólveres, e apoiadas por uma complexa rede de informantes espalhados pela bacia dos rios.

O bispo de Iquitos, Miguel Ángel Cadenas, que já percorreu boa parte das comunidades nativas e ribeirinhas de Loreto, faz questão de destacar o tamanho do sacrifício desses homens e mulheres. Para ele, é importante entender que o que o resto do mundo enxerga como heroísmo, para os vigias é, na verdade, uma tarefa pesada, cheia de perigos e sofrimentos. Uma vida instável, um pêndulo constante entre a pobreza e a sobrevivência, entre o abandono do Estado e a fome insaciável de um sistema produtivo que não leva a natureza em conta.
“O Estado está sacrificando essa população, entregando-os nas mãos de organizações criminosas. É uma omissão incompreensível dos deveres do Estado. Se a democracia não serve pra defender os mais indefesos… serve para quê, afinal?”, questiona o bispo Cadenas.
Nas bacias do Nanay e do Pintuyacu, a igreja é uma aliada fundamental dos defensores. Ela os apoia com acompanhamento emocional e educativo – em cada comunidade procuram garantir o acesso ao ensino médio, um direito que o Estado nunca garantiu -, e também denuncia: a psicóloga del vicariato já identificou que as crianças vivem com medo e que os adolescentes sofrem de ansiedade, diante do risco que os pais correm ao saírem para defender a área de conservação.
“Os mecanismos de vigilância comunitária nunca foram pensados como resposta a grupos criminosos. Serviam como ferramenta de autorregulação no uso dos recursos naturais. As comunidades não devem cumprir a função das forças armadas, pois isso coloca em risco a vida dos moradores em risco”, afirma o advogado Ricardo Rivera, coordenador da ONG ambientalista Naturaleza y Cultura, em Loreto.
O Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos informou que no Alto Nanay foram registradas 13 situações de risco envolvendo 21 ativistas do meio ambiente. Marcelina conta que tem medidas protetivas, mas ressalta que as medidas são apenas um pedaço de papel e que nenhum representante do Estado a protege. Sua única proteção vem de seus companheiros de guarda.
“Quando o comitê de proteção aos defensores ambientais foi instituído, um membro do vicariato disse que papel não defende ninguém. Depois disso, nunca mais nos deram voz”, conta um religioso, em sintonia com o que diz Marcelina. O abandono é desalentador. Para o bispo, o problema não está apenas no Nanay, nem só nas dragas que revolvem o fundo do rio e espalham mercúrio. O principal problema são os grandes compradores internacionais, que lavam o ouro ilegal e fingem que não veem.
Para piorar, os guardas não dispõem de muitos recursos logísticos. Em 2025, o Estado forneceu apenas 10 galões de gasolina e trinta cestas básicas. A maioria dos recursos vêm da doação de ONGs e da igreja católica, mas não são suficientes.
Os guardas interrompem a defesa do território por alguns períodos, pois precisam cuidar das necessidades de suas famílias. “Isso cansa, sabe? Às vezes não dá pra manter a casa. Nossos filhos estudam”, desabafa o presidente da guarda.

Em cada comunidade vivem entre 50 e 80 famílias. Cada povoado cria suas próprias estratégias de sobrevivência no dia a dia. A pesca é parte da rotina. Mas, ultimamente, tem sido praticada com desconfiança. Todos têm medo da contaminação por mercúrio nos peixes e na água. Afinal, o mercúrio é facilmente absorvido pelo sistema digestório e se acumula na cadeia alimentar aquática. Os peixes predadores costumam concentrar os maiores níveis de mercúrio. Quando viram alimento, as pessoas também ficam expostas à contaminação.
Até agora, o Estado não fez nenhum exame para detectar a presença do mercúrio no sangue, na urina ou nos cabelos dos moradores dessas comunidades. O próprio Ministério da Saúde confirmou, para esta reportagem, que não há dados a esse respeito.
A única avaliação oficial sobre metais pesados em peixes foi feita em 2020, pelo Organismo Nacional de Saúde da Pesca (SANIPES), que analisou três espécies – cubiu, jaraqui e o jaú – pescadas nas bacias do Nanay e do Pintuyacu.
O resultado mostrou níveis de chumbo e cádmio acima do permitido, o que representaria um risco potencial ao consumo humano, embora os níveis de mercúrio fossem baixos. Contudo, tanto os moradores quanto os especialistas criticam o estudo, destacando que essas não são as espécies mais consumidas na região e que a metodologia usada foi fraca.
“Não há justificativa para terem escolhido esses peixes. Nós criticamos esses resultados e esse relatório, que – coincidentemente – foi divulgado às pressas no Alto Nanay, para dizer que não estava acontecendo nada”, afirma Ricardo Rivera, da ONG Naturaleza y Cultura.
Nos últimos quatro anos, nenhum outro estudo foi realizado.
O silêncio do Estado só alimenta a desconfiança dos guardas. Quando o assunto vem à tona, o discurso deles revela muitas emoções: raiva, frustração, cansaço.
“Quantos companheiros do Nanay já não estão contaminados por esse metal? Que tristeza… Eu não sei como salvar o meu Nanay. Dói demais. Eu amo esse rio”, diz o presidente da guarda dos Seis Irmãos do Pintuyacu. Sua há revolta em sua voz, mas algo mais parecido com um pedido de socorro.
“As autoridades não dizem nada e o garimpo não para de avançar… No Nanay, nós estamos perdendo a batalha”, diz Marcelina, suspirando profundamente.
Então, se cala.
Ela gosta de olhar para o rio Pintuyacu ao amanhecer e ao fim da tarde. Naquela parte do mundo, a alvorada tinge as coisas de um verde cor de cana-de-açúcar. Quando a noite cai, o céu fica lilás. Mas, por um momento, o crepúsculo incendeia as entranhas do firmamento, como se um fogo ardesse em seu interior. Esse céu de tantas cores nos faz pensar na força de quem vive nessa região e resiste, desde sempre, às dezenas de invasões. Protegidos pela mata, conseguiram – ainda que fragilizados e dispersos – seguir de pé, sobrevivendo.
Esta reportagem é o resultado de uma colaboração entre jornalistas e cientistas latino-americanos, promovida pelo Instituto Serrapilheira, do Brasil, e pelo Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (CLIP), para explorar como os danos à biodiversidade da Amazônia prejudicam os vários serviços ambientais que ela presta ao continente.




