Ainda que muitos equatorianos e colombianos não saibam, algumas de suas principais usinas hidrelétricas, como Coca Codo Sinclair e Guavio, dependem, em parte, da água que chega da floresta amazônica. Por isso, quando a Amazônia é desmatada, moradores das cidades andinas podem sair prejudicados. Contudo, os dois países não elaboram planos que levem em conta a dependência que existe entre as hidrelétricas e a região amazônica, nem fazem planos para atender à crescente demanda por eletricidade, ameaçada pelas secas intensas associadas a fenômenos naturais como o El Niño.
Esteban Tavera (Climate Tracker América Latina)
*Coca Codo Sinclair é a usina hidrelétrica de maior capacidade de geração do Equador e depende fortemente da umidade que viaja desde a Amazônia. Foto: Corporação Elétrica do Equador
Em 26 de outubro de 2023, o governo do Equador fez um anúncio que pegou toda a população de surpresa. A partir do dia seguinte, entraria em vigor um plano de racionamento de energia com apagões programados de três a quatro horas diárias. Segundo o governo, a medida poderia se estender até dezembro daquele ano. O racionamento, porém, foi muito além do previsto: um ano depois, em setembro de 2024, as autoridades informaram que os cortes não apenas continuariam, mas aumentariam para oito horas. Um alerta vermelho foi decretado em várias regiões do país.
Semanas depois, os apagões programados chegaram a 14 horas: para boa parte da população passava mais da metade do dia sem internet, refrigeração, luz e, muitas vezes, sem conseguir trabalhar.
O governo do presidente Daniel Noboa atribuiu as medidas à seca intensa que atingia a região amazônica equatoriana por causa do fenômeno El Niño, que havia derrubado a níveis mínimos a vazão dos rios que abastecem as duas principais usinas hidrelétricas do Equador: Coca Codo Sinclair, no norte, entre as províncias de Napo e Sucumbíos, e Paute, no sul, na província de Azuay.
Coca Codo Sinclair é operada pela Corporação Elétrica do Equador (CELEC) e responde por cerca de um terço da demanda de todo o país. Até 11 de agosto de 2026, a usina havia produzido um terço de toda a eletricidade gerada no Equador, enquanto a segunda maior em capacidade, Paute, respondia por 19%.
A usina já foi alvo de vários escândalos: depois de construída, apresentou rachaduras que, segundo cálculos do órgão de controle fiscal do Equador (Contraloría), causaram ao Estado prejuízos da ordem de dezenas de milhões de dólares. O ex-presidente Lenín Moreno foi condenado por corrupção passiva por integrar um esquema de propinas entre 2009 e 2018 e por ter recebido, segundo a Justiça equatoriana, dinheiro da Sinohydro, empresa chinesa que construiu Coca Codo Sinclair.
Atualmente tramita um processo contra o ex-presidente Lenín Moreno, acusado de suposta participação em um esquema de propinas.
Diferentemente de outras hidrelétricas, que armazenam grandes volumes de água para gerar eletricidade, essa usina aproveita a água que passa pelo rio Coca: ela flui pelas turbinas e é devolvida ao rio mais adiante. Esse tipo de usina é conhecido como hidrelétrica a fio d’água. Depois de passar pela usina, o rio Coca deságua nos rios Salado e Quijos, que por sua vez desembocam no Napo — um afluente que deságua no Amazonas.

Contudo, a usina a fio d’água também torna Coca Codo Sinclair altamente vulnerável à falta de água. Se a vazão do rio cai drasticamente devido à seca, a usina não conta com uma represa para continuar abastecendo o sistema interligado nacional. “Quando há estiagem, o golpe é brutal. A usina pode perder a capacidade de um dia para o outro”, afirma Nora Estela Fernández, economista e especialista em temas energéticos da Pontifícia Universidade Católica do Equador.
Isso explica por que a usina foi tão afetada durante a longa seca de 2023 e 2024. Se um impacto grave pode ser sentido em pouco tempo, quando falta chuva por meses o golpe é ainda maior. E quem sente os efeitos são todos os equatorianos.
A seca também foi sentida na Colômbia. O país é o principal exportador de eletricidade para o Equador e, no início da crise, chegou a dobrar o fornecimento ao vizinho. Mas, quando a falta de chuva começou a impactar seus principais reservatórios em decorrência do El Niño, a Colômbia precisou destinar a produção elétrica ao consumo interno e freou as exportações para o Equador. Não houve racionamento de eletricidade no país, mas a capital, Bogotá, foi obrigada a limitar o fornecimento de água potável durante um ano inteiro.
No Equador, muitas pessoas compreenderam naquele momento que a crise energética estava ligada ao fenômeno El Niño, mas também à Amazônia. Afinal, é nesse bioma, a leste da cordilheira dos Andes, que estão suas principais usinas hidrelétricas.
Na Colômbia isso não aconteceu. Quando houve o racionamento de água em Bogotá, alguns veículos de imprensa chegaram a mencionar a relação entre os reservatórios que abastecem a capital e as chuvas vindas da floresta amazônica. Mas a conexão com as hidrelétricas quase nunca é lembrada.
“É uma lacuna de conhecimento que precisa ser enfrentada. Temos que recorrer à ciência para responder a esse tipo de pergunta, que precisamos compreender para garantir nossa segurança e soberania energética”, afirma Carolina Useche, diretora de clima, economia e finanças da ONG ambiental Instituto de Recursos Mundiais (WRI, sigla em inglês) na Colômbia, que desenvolveu uma metodologia para medir o quão vulneráveis são as pequenas hidrelétricas aos impactos da crise climática.
Essa falta de conhecimento sobre a relação entre as principais usinas colombianas e a Amazônia pode ser explicada por sua localização: elas estão situadas no alto dos Andes, distantes da região amazônica.

A hidrelétrica de Guavio, operada pela multinacional italiana Enel, tem potência de 1.250 megawatts e é a usina de maior capacidade de geração da Colômbia. Localizada no oeste do departamento de Cundinamarca, ela gera eletricidade com a água armazenada em um grande reservatório que se estende pelos municípios de Ubalá, Gachalá, Gachetá, Gama e Junín, nas montanhas da cordilheira Oriental colombiana. Entre a usina e o Parque Nacional Sierra de La Macarena — a área protegida mais próxima — são 200 quilômetros de distância.
Hidroituango, a segunda hidrelétrica de maior capacidade da Colômbia — e que deve se tornar a de maior contribuição energética assim que sua segunda etapa entrar em operação —, fica em Antioquia, a mais de 500 quilômetros da floresta amazônica. O mesmo ocorre com as usinas de San Carlos, Peñol e Hidrosogamoso, a mais de 500 quilômetros da floresta, e Chivor, a cerca de 300 quilômetros.
Por isso, quando se fala das secas nos principais reservatórios da Colômbia, muita gente não pensa na bacia do rio Amazonas ou nas florestas da Guiana, do Suriname e da Venezuela como fontes importantes de umidade. Contudo, a ciência já constatou que a geração de eletricidade nos dois países depende, de forma significativa, da floresta amazônica.
Qual é o tamanho dessa dependência?
Uma forma de entender a relação entre as hidrelétricas andinas e a floresta amazônica é analisar a umidade atmosférica que cai como chuva nas regiões onde elas estão localizadas e de onde vem essa precipitação.
Em Coca Codo Sinclair, quase dois terços da precipitação vêm da Amazônia. Outros 25% da chuva têm origem nos oceanos Pacífico (13%) e Atlântico (12%).
Desse total, 52% chegam por “contribuição direta”, com a chuva que se origina na Amazônia por evapotranspiração das árvores da floresta e atravessa o bioma até esse ponto, na província de Napo. Outros 6% vêm por “contribuição indireta ou em cascata”, quando a chuva se origina na Amazônia, cai em regiões próximas e é reciclada como umidade atmosférica antes de seguir seu caminho até os Andes. As estimativas são de Sandro Pauli, físico da Universidade Federal de Santa Catarina e especialista em modelos climáticos de rastreamento de umidade atmosférica.
Em Guavio, a Amazônia contribui com mais de um terço da chuva recebida: 31% da precipitação seria “contribuição direta” da Amazônia e outros 10%, indireta, mais do que o que a usina recebe do oceano Atlântico (24%), do Pacífico (2%) ou de outras fontes (33%).


Os dados vêm de uma análise computacional feita por Pauli, que integra o programa de formação em ecologia quantitativa do Instituto Serrapilheira, do Brasil, entidade parceira na investigação Águas Partidas, coordenada pelo Centro Latino-Americano de Jornalismo de Investigação (CLIP) em aliança com oito veículos de imprensa da região. Pauli usou um modelo computacional que rastreia passo a passo a trajetória das massas de ar, com registros horários da velocidade e da direção dos ventos em 25 camadas diferentes da atmosfera.
“Na prática, o modelo funciona assim: para cada milímetro de água evaporado da superfície, o sistema libera 100 ‘pacotes de umidade’ virtuais na atmosfera. A trajetória desses pacotes é rastreada no espaço tridimensional por até 30 dias de viagem, ou até que 99% da água já tenha caído como chuva”, explica Pauli.
Coca Codo Sinclair e Guavio não são as únicas hidrelétricas beneficiadas por esse serviço ecossistêmico e abastecidas de forma significativa pelas chuvas formadas com a umidade que viaja por toda a bacia.
Paute, a segunda hidrelétrica mais importante do Equador, localizada na região amazônica do sudeste do país, também depende majoritariamente desse bioma. Segundo os cálculos de Pauli, 56% de sua precipitação chega por contribuição direta e outros 7% por contribuição indireta.
Hidroituango também depende, em parte, da chuva vinda da floresta, apesar de estar tão distante da Amazônia. Pelos cálculos de Pauli, a contribuição direta seria de 17% e a indireta, de 12%. Ou seja, quase um terço da precipitação de que a usina depende para operar vem da conexão entre a Amazônia e os Andes.
Em Peñol-Guatapé, outra hidrelétrica igualmente estratégica para a segurança energética da Colômbia, as contribuições são parecidas: 19% da chuva é contribuição direta da Amazônia e 14%, indireta.
A ciência por trás da relação entre os Andes, a Amazônia e o Atlântico
“Já existe conhecimento suficiente para mostrar que nosso ciclo da água depende do Amazonas e que o desmatamento de toda a Amazônia afeta o ciclo hidrológico de toda a América do Sul.” A frase é de Paola Andrea Arias, engenheira e climatologista colombiana que lidera os relatórios sobre água do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês) da ONU, a maior autoridade científica do mundo em temas climáticos.
Em parceria com pesquisadores de diversas universidades colombianas e de países vizinhos, Arias estuda as formas pelas quais a água circula pela atmosfera entre o oceano Atlântico, a Amazônia e a cordilheira dos Andes. Essas pesquisas comprovaram que os padrões de chuva nos países andinos da porção mais ao norte da América do Sul estão relacionados à floresta amazônica.
“A primeira coisa que precisamos pensar é como a água se move pelo planeta. A água evapora de fontes que, em boa parte, são os oceanos e os rios, mas a vegetação também transpira, e essa é uma das formas pelas quais temos vapor d’água na atmosfera”, diz Arias, professora na Universidade de Antioquia.
Esse vapor d’água não fica necessariamente onde foi gerado: os ventos o levam para precipitar em outra região, mais distante, seja em estado líquido, como chuva, seja sólido, como neve. A água está em constante movimento, explica Arias, e, quando se desloca pelo solo, forma as bacias hidrográficas, delimitadas geograficamente.
“O detalhe é que a atmosfera tem bacias muito maiores, que abrangem regiões muito mais extensas e transfronteiriças. É por isso que conseguimos rastrear água que chega à Colômbia vinda de lugares tão distantes quanto o Atlântico Norte, e até de perto da África ou do centro do Chile, pelo Pacífico. E, claro, de tão longe quanto o Amazonas”, explica a cientista colombiana.
O cientista peruano Jhan Carlo Espinosa, que foi ligado ao IPCC e integra o Painel Científico para a Amazônia, descreve o sistema hidroclimático Atlântico-Amazônia-Andes, ou AAA, como um sistema “interconectado e interdependente”.

“A principal fonte de chuvas tanto nos Andes quanto na Amazônia é a evaporação da água do oceano Atlântico tropical. Essa umidade entra no continente pela circulação atmosférica, e parte dela gera precipitações em geleiras e em nascentes de rios que chegam até o Amazonas e desaguam no mar. A floresta amazônica absorve parte dessa umidade do solo ou da chuva e a devolve à atmosfera por meio da evapotranspiração”, explica Espinosa, que leciona na Pontifícia Universidade Católica do Peru.
Essa espécie de “bacia atmosférica”, que transporta grandes volumes de vapor d’água até as principais cidades andinas da Colômbia e do Equador e aos rios que abastecem as maiores hidrelétricas da região, são conhecidas na comunidade científica como “rios voadores”. O termo, que pegou, foi cunhado pelo meteorologista peruano José Antonio Marengo.
Um estudo publicado em abril de 2026 por cientistas colombianos e brasileiros mostrou que os padrões de precipitação no norte dos Andes estão intimamente ligados às florestas amazônicas, sobretudo em abril. A conclusão veio de um monitoramento mensal realizado ao longo de sete anos, com coleta de amostras de isótopos, um marcador químico que funciona como uma espécie de “impressão digital da água” e permite identificar de onde vem a umidade que gera a chuva em uma região específica.
O estudo, conduzido pelos hidrólogos Luis Eduardo Toro-Espitia e Juan Camilo Villegas, da Universidade de Antioquia, pelo meteorologista Alejandro Martínez, da Universidad Eafit, e pela química Valeska Peres de Araújo, do Instituto de Engenharia Nuclear (IEN) do Brasil, também concluiu que, em períodos de La Niña, há maior reciclagem de umidade, enquanto em períodos de El Niño ocorre o contrário.
Já um estudo publicado por um grupo de cientistas brasileiros em 2024 mostrou que os incêndios e a mudança climática podem transformar a Amazônia em uma floresta degradada, com menos biodiversidade e menos árvores, o que levaria a um ponto de não retorno capaz de representar um colapso em escala global.

De acordo com Arias e Poveda, os dados mostram que o ciclo hidrológico responsável pela circulação de umidade no continente está se intensificando. “Isso quer dizer que, em algumas regiões pode chover com mais intensidade, enquanto em outras pode haver condições secas muito acentuadas. Se falamos da bacia do Amazonas, essa intensificação é bem visível, porque já houve extremos de chuva muito fortes que geraram inundações em alguns momentos”, diz Arias.
A cientista colombiana explica que o mesmo vale para os períodos de seca: “por exemplo, a seca no sul do Amazonas está durando mais tempo. Isso faz com que haja menos evapotranspiração e menos umidade disponível para ser transportada a outras regiões”.
Já para Bolívar Erazo, que até março de 2026 foi diretor executivo do Instituto Nacional de Meteorologia e Hidrologia (Inamhi) do Equador, as consequências dessa intensificação do ciclo já são visíveis. Uma delas é que os principais projetos hidrelétricos do Equador se baseiam em uma realidade que já mudou: os estudos de Coca Codo Sinclair datam das décadas de 1980 e 1990, e os mais recentes, de 2009. Algo parecido pode ocorrer na Colômbia com Guavio, cujas obras começaram em 1981.
“As hidrelétricas na bacia amazônica eram projetadas com base em um histórico climático que já não se confirma, pois a variabilidade climática mudou. Estamos em uma nova realidade climática, com mais presença de extremos, seja de excesso ou de ausência de água”, afirma Arias.
Embora ainda não existam estudos científicos no Equador e na Colômbia conectando diretamente o desmatamento na Amazônia e a geração de eletricidade pelas hidrelétricas andinas, no Brasil o tema já é objeto de pesquisa.

No estado de Mato Grosso, a usina hidrelétrica de Teles Pires, com capacidade instalada de 1.820 MW, teria perdido, em média, 21 milhões de dólares por ano em razão da queda nas chuvas causada pelo desmatamento da Amazônia. A conclusão é de Rafael Carlquist Araujo, doutor em economia pela Fundação Getulio Vargas, que liderou um estudo sobre as perdas potenciais que o desmatamento causa à geração hidrelétrica no Brasil.
Embora o cálculo do economista não tenha levado em conta os países andinos, algumas de suas conclusões funcionam como alertas para possíveis cenários no Equador e na Colômbia. Em suas palavras: “constatamos que, com mais desmatamento, a quantidade de água disponível para a produção de energia vai diminuir”.
“O desmatamento sempre vai aumentar o preço da energia, e o reflorestamento sempre vai reduzi-lo, porque quanto mais água, maior é a produção de energia”, acrescentou.
O estudo também permitiu chegar a uma conclusão crucial para o continente: a proteção da Amazônia beneficia as empresas hidrelétricas, enquanto o desmatamento prejudica os consumidores.
Como os governos se preparam para um futuro de mudanças
Do total de eletricidade gerado na Colômbia, 67% vem da energia hidráulica, segundo o Relatório Bienal de Transparência apresentado pelo Estado colombiano à ONU em 2024. No Equador, esse percentual é de 63,5%, de acordo com o Balanço Energético Nacional de 2024, ou cerca de dois terços do total nos dois países.
Essa realidade cria um cenário que coloca os dois em um círculo vicioso difícil de romper. Em ambos os casos, quando a água escasseia nas hidrelétricas, é comum recorrer a fontes de reserva, como usinas termelétricas, que geram energia a partir de combustíveis fósseis — carvão, gás natural ou derivados de petróleo — cuja queima libera gases do efeito estufa.
Em outras palavras, o ciclo hidrológico, já tão afetado pela mudança climática e que pressiona o abastecimento de água nos dois países, pode ser ainda mais prejudicado pela solução encontrada para resolver esse a falta de água: a queima de combustíveis fósseis, apontada pela ciência como a principal causa da mudança climática.
Segundo Fernando Salinas, presidente do Fórum Energético do Equador, “em nosso Plano Diretor de Eletricidade, os maiores projetos de expansão são de caráter hidrelétrico. O maior deles, por exemplo, é Santiago, com potência de cerca de 6 mil megawatts, na província de Morona Santiago, na região sudeste do país. Mas os estudos foram feitos há cerca de dez ou 15 anos”.
No caso da Colômbia, segundo um documento publicado em 2025 pela Unidade de Planejamento de Mineração e Energia (UPME), não há previsão de novos projetos de geração hidrelétrica de grande porte. O planejamento leva em conta apenas a segunda etapa da hidrelétrica de Ituango.
A Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (Raisg), que reúne oito ONGs dos países da bacia amazônica, mantém um banco de dados das hidrelétricas em construção na região amazônica. Segundo esses dados, a Colômbia tem apenas uma usina em construção, na cidade de Mitú, enquanto o Equador registra 53 em toda a sua região amazônica.
A isso se soma outro desafio: a demanda por eletricidade não para de crescer. Ou seja, mesmo com menos água disponível e mesmo com a necessidade de abandonar as fontes de eletricidade mais poluentes, será preciso gerar ainda mais energia.
“Existe uma tendência mundial e que está respaldada por muitas evidências científicas, indicando que a eletrificação dos usos finais [substituir equipamentos ou processos movidos a combustíveis fósseis por alternativas elétricas de fontes renováveis] é o caminho para viabilizar uma transição energética que deixe de lado o uso de combustíveis fósseis”, diz Jessica Arias Gaviria, engenheira elétrica e pesquisadora da Polen Transiciones Justas, ONG colombiana especializada em políticas públicas para a transição energética. “Ou seja, é preciso substituir a demanda por combustíveis fósseis por outra coisa. Contudo, ainda precisamos suprir a necessidade de energia.”
Questionado sobre como a Colômbia está se preparando para um cenário de menos chuvas, resultado das interrupções no ciclo hidrológico que conecta os Andes à Amazônia e ao Atlântico, além da mudança climática, o Ministério de Minas e Energia da Colômbia respondeu que seu plano está centrado na diversificação das fontes de geração.
“A resposta se baseia na diversificação da matriz energética, por meio da incorporação de Fontes Não Convencionais de Energia Renovável (FNCER), além do incentivo à geração doméstica, à geração distribuída e às comunidades energéticas, o que permitiria reduzir a dependência da geração hidrelétrica”, informou o ministério em maio de 2026, antes da transição do governo de Gustavo Petro para o de Abelardo de la Espriella.
Essas três soluções complementares apontam para a geração particular de energia por meio de painéis solares em casas ou comércios, para a instalação de pequenas usinas próximas de onde a eletricidade é consumida, e para projetos comunitários ou de vizinhança, nos quais várias pessoas se unem para gerar a energia necessária a seus empreendimentos ou moradias.
Para isso, foi implementado o Plano 6GW+, que busca integrar 6 gigawatts de energia solar, eólica e de pequenas centrais hidrelétricas (PCH) em rios menores. Segundo dados da UPME, até janeiro de 2026 o plano já havia somado 4.416,14 MW.
Já o Equador, em sua mais recente Contribuição Nacionalmente Determinada, um plano de cinco anos para colocar em prática o Acordo de Paris, comprometeu-se a reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 7% (cerca de 8.800 kt de CO2-eq) até 2035. Um dos pilares dessa redução é o incentivo às energias renováveis, entre as quais estão as hidrelétricas.
Para Andrea Encalada, ecologista equatoriana especializada em água doce, que há anos estuda o ciclo hidrológico entre os Andes e a Amazônia, as autoridades de seu país ainda não analisaram a fundo os dados disponíveis para preparar o Equador para os cenários que se aproximam. “Temos muitos satélites orbitando. A informação já está lá, mas precisamos sistematizá-la, tirar conclusões e realmente trabalhar no caminho de como nos adaptamos a essas mudanças”, afirma Encalada.
Em vez disso, adverte Encalada, cogitam-se alternativas como a energia nuclear, área na qual o país não tem nenhuma experiência.
Observação parecida faz Jessica Arias Gaviria, da Polen, sobre a Colômbia, onde, segundo ela, o planejamento ainda não contempla a eliminação definitiva das termelétricas, que continuam sendo a única opção de reserva. “Há algo que piora a situação: nos últimos quatro ou cinco fenômenos El Niño, percebi que estávamos discutindo como acelerar a entrada das renováveis, transformar o sistema e reduzir a dependência dos fósseis. Mas quando chega um El Niño, parece que nos esquecemos de tudo”, diz Arias. “O pânico é tão grande que não conseguimos planejar para este El Niño e, ao mesmo tempo, manter o horizonte de planejamento dos próximos dez anos.”
A tudo isso se soma um problema de fundo já mencionado por Carolina Useche, do WRI: os Estados ainda não incorporaram por completo a necessidade de entender como as hidrelétricas desses países dependem da Amazônia.
El Niño, o fenômeno que piora tudo
O fenômeno El Niño, que em 2023 e 2024 colocou hidrelétricas como Coca Codo Sinclair e Guavio em sérias dificuldades, está de volta. O Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, sigla em inglês) informou que as condições desse evento de variabilidade climática natural se fortaleceram entre junho e julho de 2026 e devem persistir até o primeiro trimestre de 2027. O órgão também confirmou que essas são as condições mais fortes registradas desde 1950.
Nas regiões amazônicas do Equador e da Colômbia, o impacto desse fenômeno costuma ser a redução das chuvas. “Um El Niño forte agora não é o mesmo que um evento de igual proporção há 30 anos. Hoje o planeta está bem mais quente, e a ocorrência de um evento desses pode desencadear efeitos maiores”, observa Arias Gómez.

Diante desse cenário, a solução mais rápida para enfrentar a falta de água nas hidrelétricas continua sendo acionar as usinas termelétricas que, no fim, contribuem para agravar ainda mais os problemas que o planeta já enfrenta.
Talvez novos racionamentos em massa levem equatorianos e colombianos a entender a relação entre a floresta amazônica e a falta de luz em eletricidade que chega às suas casas.
Referências científicas
Rafael Araujo. “The Value of Tropical Forests to Hydropower”. Energy Economics, 2024.
Claire Beveridge et al. “The Andes–Amazon–Atlantic pathway: A foundational hydroclimate system for social–ecological system sustainability”. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), 2024.
Rubén Molina et al. “Forest-Induced Exponential Growth of Precipitation Along Climatological Wind Streamlines Over the Amazon”. Journal of Geophysical Research: Atmospheres, 2019.
Bernardo M. Flores et al. “Critical transitions in the Amazon forest system”. Nature, 2024.
Luis Eduardo Toro-Espitia et al. “Beyond the Rainfall Amount Effect: Moisture-Source Controls on Precipitation Isotope Seasonality in the Northern Tropical Andes”. Hydrological Processes, 2026.
Este projeto é resultado de uma colaboração entre jornalistas e cientistas latino-americanos, promovida pelo Instituto Serrapilheira, do Brasil, e pelo Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLIP), com o objetivo de explorar o ciclo hidrológico Atlântico – Amazônia – Andes e as perturbações nos serviços ambientais que ele proporciona ao continente.




