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Em Madre de Dios, a mineração deixou povos indígenas cercados por uma água que não podem beber

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Erick Aguirre Tijé, poblador indígena harakmbut de la comunidad Arazaire, en la Amazonía sur de Perú, se sienta a recordar los peces que antes nadaban por las ahora enlodadas quebradas que atraviesan su territorio. Foto: Vico Méndez/ Mongabay Latam

Na comunidade harakmbut de Arazaire, onde o garimpo de ouro desviou o curso do rio Inambari, os satélites registram mais superfície de água do que havia vinte anos atrás, mas os moradores contam que já não podem beber nem usar essa água para pescar. Depois de gerações de água segura para consumo, há alguns anos precisam comprá-la. Uma análise por satélite de 84 microbacias do rio Madre de Dios, muitas habitadas por territórios indígenas, mostra que, entre 2000 e 2023, surgiram cerca de 13 mil hectares de água artificial que antes não existiam. São os rejeitos deixados pela mineração. Duas em cada três comunidades indígenas em Madre de Dios precisam comprar água.

Vanessa Romo Espinoza/ Mongabay Latam

“As pessoas pensam que, como vivemos na selva, temos bastante água. E a realidade é esta”, apressa-se a dizer Erick Aguirre Tijé, morador indígena harakmbut da Amazônia peruana, apontando o dedo indicador para a água turva que corre pelo rio Inambari. Erick carrega o sobrenome da família que fundou a comunidade indígena Arazaire às margens do rio, um dos que alimentam a bacia do Madre de Dios e depois o grande Amazonas, e testemunhou a transformação do território desde 2010.

Ele lembra, por exemplo, que, cinco anos atrás, era comum ver os peque-peque — embarcações artesanais de madeira — cortando o rio e levando gente, assim como as tarrafas caindo no espelho d’água para pescar sábalos e zúngaros (um tipo de bagre). Também lembra das famílias que gostavam de ver as crianças nadar, das mulheres que desciam para buscar água ou dos homens que tomavam sol para espantar o cansaço. Esse retrato mudou, e hoje é um conto de fadas para o primo Santiago, de cinco anos.

Para chegar ao Inambari é preciso abrir caminho. Erick Aguirre, acompanhado do pequeno Santiago, avança com um facão na mão, cortando os cipós que cresceram depois de um ano sem ninguém ir à área. “É que a gente já não usa o rio”, diz, resignado. A um quilômetro de distância já se ouve o seu rugido. Ele continua presente na vida deles, ainda que não faça mais parte dela. Resta apenas a lembrança daquele rio que encantou, há mais de 50 anos, seu avô José Tijé e o convenceu a estabelecer ali o seu povo harakmbut.

Elda Gutiérrez, mãe de Santiago, pede que ele não beba água do rio nem dos igarapés durante a caminhada. Que leve, em vez disso, uma garrafa de água que compraram. “Até cinco anos atrás, caminhávamos três quilômetros até o igarapé de Buenqueme”, conta Ruth Tijé, moradora de Arazaire, descrevendo um dos pontos que usavam para se abastecer de água. Ela se refere a um canal de água que dá para ver a partir da Rodovia Interoceânica, traçada entre o sul do Peru e o Acre, e que passa bem perto da comunidade. “Agora é só lama do garimpo”, diz a líder indígena. 

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A comunidade de Arazaire está dividida em duas partes, atravessada pelo rio Inambari. Na margem esquerda do rio, onde os moradores tinham roças, floresta e lagoas cerimoniais, hoje predomina esta paisagem repleta de represas com mercúrio e desmatamento. Foto: Vico Méndez/ Mongabay Latam

Em Arazaire e nas demais comunidades ao longo do Inambari, a turbidez da água é atribuída ao garimpo. Ele é responsável pela contaminação, pela mudança do curso do rio devido à quantidade de sedimento removido na extração de ouro e também pelo desvio do rio para facilitar o trabalho dos garimpeiros ilegais que operam do outro lado da margem. A erosão, garantem os moradores, devora sem piedade as terras indígenas.

“O território de Arazaire está cada vez menor, porque a correnteza erodiu as terras da comunidade”, acrescenta Tijé. “Já levou uns 300, 500 metros. Antes [o rio] estava longe, agora está perto”. Essa proximidade não os beneficia, não só pelo risco de enchentes, mas também porque eles não podem mais usar essa água carregada de lama. Os dados confirmam esse temor. Uma análise feita pela Mongabay Latam, por meio da plataforma Google Earth, confirma que 13,5 hectares foram arrasados entre 2012 e 2025. 

Isso os levou a buscar outras fontes de água limpa, como o igarapé Buenqueme. Pouco tempo depois, contam os moradores, a água ali também começou a chegar suja, e tiveram que ir mais longe, a outros igarapés, em busca de água limpa. Mas a contaminação do garimpo também os alcançou. 

“O que acontece rio acima, a gente sente rio abaixo”, resume o problema Ruth Tijé. 

https://www.elclip.org/wp-content/uploads/2026/09/Timelapse.mp4

No Google Earth é possível ver como o curso do rio mudou ao longo do tempo e como o território foi se transformando. Isso prejudicou a comunidade de Arazaire. Imagem: Google Earth Timelapse

Como entender o paradoxo de uma comunidade que vive cercada de água, mas não pode usá-la? O quanto mudaram o rio Inambari e toda a bacia do Madre de Dios nos últimos anos? As imagens de satélite mostram essa contradição: uma área com mais superfície de água do que havia vinte anos atrás, mas que cresceu à custa do surgimento de reservatórios associados ao garimpo e de manchas de desmatamento. 

Jornalistas do Mongabay Latam, do El Espectador e do Correo del Caroní analisaram as mudanças que afetaram o Madre de Dios e outros três rios amazônicos nas últimas duas décadas, com apoio de cientistas do MapBiomas e do programa de formação em ecologia quantitativa do Instituto Serrapilheira, do Brasil. Fizeram isso como parte da investigação Águas Partidas, coordenada pelo Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (CLIP) em parceria com oito veículos de imprensa da região.

No total, essa aliança jornalística analisou 722 microbacias de quatro países — 63% delas em território de pelo menos 74 povos indígenas — usando a análise de microbacias da Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (Raisg), a partir de dados da plataforma MapBiomas Água. Os resultados são contundentes. Na Bolívia, as microbacias com mineração ilegal ganharam 21,5% de superfície de água em 25 anos, enquanto as que não têm nenhuma perderam 17,2%. Na Venezuela, a superfície total de água dos 98 rios afluentes e dos reservatórios no Caroní caiu 5,8%, segundo dados do MapBiomas Venezuela. Como mais de três quartos da água do Caroní está represada por três grandes usinas hidrelétricas (Guri, Macagua e Caruachi), esse fato mascara uma perda de água significativamente maior nos rios. Na Colômbia, onde o desmatamento causado pela pecuária é a pressão dominante, há microbacias em que o desmatamento acumulado cobre mais da metade do território, e as mais desmatadas também perdem água. E, nas quatro bacias, repete-se um padrão mais fino: uma em cada seis microbacias perde água natural e ganha água artificial ao mesmo tempo, no mesmo lugar; de cada cinco hectares dessa água artificial, mais de quatro aparecem em território indígena.

No caso peruano, foram analisadas 84 das 155 microbacias que compõem a grande bacia do Madre de Dios. Em 45 delas registrou-se um aumento de água artificial, e a quase totalidade dessa água nova se concentra nas microbacias com presença de mineração legal e ilegal: entre 2000 e 2023, a superfície de água artificial da bacia se multiplicou quase por doze — de 1.224 para 14.418 hectares —, e 99,7% dessa água está nas 45 microbacias onde há mineração registrada; nas 39 que não têm, ela mal chega a 38 hectares. Apenas três microbacias — entre elas a de Arazaire, no rio Inambari — concentram 81% de toda essa água nova. 41 dessas 84 microbacias se sobrepõem, além disso, a territórios indígenas de 14 povos distintos: não é que haja mais água, é que surgiram represas onde antes não havia nada. Quase toda a água artificial nova de Madre de Dios surgiu em território indígena.

Nessas microbacias, a mineração ilegal ocupa, em média, 10,3% do território, frente a apenas 0,4% nas áreas sem território indígena, segundo a análise científica realizada para esta investigação. E quanto mais território indígena tem uma microbacia, mais água antrópica ela registra, de acordo com o modelo estatístico do projeto. As comunidades não estão protegidas da mineração: estão cercadas por ela.

É justamente por essas represas que Arazaire se destaca: uma comunidade indígena invadida por retroescavadeiras, dragas e contaminação, onde o Estado peruano concedeu 11 concessões de mineração tituladas e ativas que se sobrepõem ao território de Arazaire. Ao todo, 153 concessões afetam oito comunidades indígenas de Madre de Dios, em 12.768 hectares de território comunitário, segundo uma investigação publicada em março de 2026 pela Mongabay Latam. Amazon Mining Watch, plataforma que rastreia a mineração na Amazônia com inteligência artificial sobre imagens de satélite, revela a dimensão do dano no próprio território da comunidade. Até meados de 2026, a mineração teria afetado 688 hectares dentro desse território, uma cifra que cresceu desde 2018, segundo os dados da plataforma. Além disso, calcula-se que 85% dessa atividade ocorre fora de qualquer concessão, em áreas sem autorização para minerar. Ou seja, a maior parte da mineração que corrói Arazaire é supostamente ilegal.

Amazon Mining Watch
Até meados de 2026, a mineração teria afetado 688 hectares dentro deste território, um número que vem crescendo desde 2018, segundo os dados da plataforma Amazon Mining Watch. Captura de imagem: Amazon Mining Watch.

O problema de fundo é jurídico. Segundo César Ipenza, advogado ambientalista e porta-voz do Observatório de Mineração Ilegal, não existe uma proibição expressa que impeça o Estado de conceder títulos sobre corpos d’água. Ele os autoriza sob o argumento de que o título não é uma permissão de exploração, já que para isso são necessárias licenças ambientais adicionais. O problema legal está em que as concessões sobre corpos d’água são solicitadas para reservar o subsolo, mas, na prática, são usadas como escudo para entrar no Reinfo, ou Registro Integral de Formalização da Mineração. O Reinfo é um cadastro criado em 2016 para regularizar os pequenos mineradores, concedendo-lhes uma isenção de responsabilidade penal enquanto dura o trâmite, cujo prazo de vencimento já foi adiado cinco vezes nesses dez anos. Isso facilita operar sem licenças e usar o título para confundir as comunidades, enquanto as dragas continuam operando ilegalmente nos rios. 

“Os garimpeiros surpreendem as comunidades indígenas, pois usam o título da concessão para afirmar que o Estado lhes deu esse direito”, explica a investigação da Mongabay Latam. A isso se soma o fato de que as dragas, o maquinário usado para extrair o ouro dos leitos dos rios, estão proibidas nos rios desde 2012 e, mesmo assim, operam dentro de concessões tituladas do Inambari.

Arazaire já viveu esse vazio jurídico na própria pele. Em 2025, seus moradores encontraram uma escavadeira operando dentro de seu território. Eles pararam a máquina e a denunciaram à Promotoria Especializada em Meio Ambiente (FEMA) de Madre de Dios. Poucos dias depois, o Estado ordenou que ela fosse devolvida aos proprietários. “Os 200 mil soles (60 mil dólares) que essa máquina vale custam mais que nossas vidas”, resume a diretoria da comunidade, que prefere não ser identificada por segurança. O que aconteceu depois com esse caso acabaria por mostrar para que lado pende a balança.

A água que não podem beber

Em Arazaire, a água precisa ser comprada. A Federação Nativa do Rio Madre de Dios e Afluentes (Fenamad), que reúne 38 comunidades de sete povos indígenas da região, confirmou à Mongabay Latam que dois terços desses 38 povoados indígenas da região pagam pela água que bebem. 

“Não vai demorar muito para a água custar mais que o petróleo”, diz Eusebio Ríos, vice-presidente da Fenamad e líder do povo harakmbut.

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Na comunidade, é preciso comprar água para se abastecer. A água da chuva que conseguem coletar não é suficiente, menos ainda em época de seca. Cada tanque de água custa cerca de 21 dólares e é uma compra semanal. Foto: Vico Méndez/ Mongabay Latam

Segundo moradores que dependem desse serviço, cada tanque tem 1.100 litros e custa 70 soles (cerca de 21 dólares), embora também haja galões de 20 litros pelos quais pagam 11 soles (cerca de 3 dólares). “É preciso ligar religiosamente para a prefeitura, para que encham o tanque uma vez por semana”, diz, resignada, Elda Gutiérrez. 

A imagem da lama que substituiu as águas cristalinas do Inambari está presente na memória e nas conversas dos moradores que vivem às margens desse afluente. Eusebio Ríos ainda se lembra de uma infância idílica que tinha o rio como centro da vida. “Quando éramos crianças, nós mergulhávamos, víamos peixes; era maravilhoso. Agora estamos diante desse atropelo e do risco de extermínio, por causa da água que já não podemos consumir, nem nos rios nem nos igarapés. Estão contaminados pela mineração”, diz.

A análise feita por uma equipe de cientistas do Instituto Serrapilheira — com a consultoria de especialistas do MapBiomas Água — confirma que ele tem razão. Entre 2000 e 2023, surgiram, em diferentes trechos da bacia do Madre de Dios, cerca de 13 mil hectares de superfície de água artificial ou antrópica, outra forma de se referir às represas de água contaminada deixadas pela mineração. Em 2000, a água artificial não passava de 1% dessa área analisada. Duas décadas depois, em 2023, esse retrato já chegava a 11%.

Ou seja, hoje um em cada nove hectares de água detectados na região corresponde às represas de rejeitos associadas à mineração. As imagens de satélite Sentinel 2 mostram que as áreas mais afetadas são justamente os espaços onde algumas comunidades garantem não poder usar a água, o que é confirmado pelos dirigentes da Fenamad.

Esse salto é mais acentuado nos territórios do povo harakmbut — o de Erick, Ruth e Marcia Tijé —, que, juntos, acumulam mais de 12.000 hectares de água antrópica nova, mais do que todos os demais povos identificados na bacia somados.

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As áreas coloridas são microbacias, ou seja, divisões naturais do território de acordo com o curso dos rios. Em vermelho-escuro, se destacam as seis microbacias onde mais surgiu água artificial em 25 anos, devido ao depósito do rejeito gerado pelo garimpo de ouro. Três trechos de rio (Colorado, Malinowski e Inambari) concentram mais de 80% de toda a água artificial nova detectada. Imagem de satélite: Esri.

Essas informações são consistentes com o que a ciência documentou para a região de Madre de Dios. Um estudo publicado na Science Advances em 2020 por cientistas da Universidade Duke e do Centro de Inovação Científica Amazônica (Cincia) mediu a expansão das represas e lagos artificiais criados pela mineração aurífera usando imagens de satélite de 1985 a 2018. Os pesquisadores constataram que, nas bacias mais mineradas, a superfície desses corpos d’água cresceu 670%, enquanto nas bacias sem mineração o aumento foi de apenas 20%. Também descobriram que os reservatórios de rejeitos convertem o mercúrio em metilmercúrio, sua forma mais tóxica, a um ritmo até sete vezes maior que nos rios. Embora os rios também realizem essa conversão de forma natural, a água parada e sem oxigênio das represas acelera drasticamente o processo. Ou seja, a água nova que surge não é apenas inútil: é mais perigosa do que a que substituiu.

O que a análise desta investigação traz de novo é um retrato mais atual, até 2024, e em outra escala: não apenas o Madre de Dios, mas quatro bacias em quatro países, com os mesmos padrões: a do Caroní, na Venezuela, a do Beni, na Bolívia, e a do Caquetá, na Colômbia.

Carlos Álvarez, guarda indígena de Arazaire, aponta para um dos reservatórios que ficam dentro do território comunitário. À primeira vista, parece um buraco que acumula água parada de cor marrom escura.

“Antes, ali se pescava curimatã, sábalo, huasaco”, diz.

E agora o que tem nessa água?

“Só lama, mesmo. Já não tem vida, não tem nada”.

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Este é um dos igarapés que alimentam o Inambari. Nas cabeceiras há atividade de garimpo que arrasa florestas e enche as fontes de água com mercúrio e lama. Foto: Vico Méndez/ Mongabay Latam

Em 23 anos, a superfície de água artificial do Madre de Dios se multiplicou por quase doze. Passou de 1.224 hectares para 14.418, segundo dados compilados pelo MapBiomas. Mas não cresceu de maneira uniforme ao longo da bacia, e sim onde há a presença de maquinário. Mais de 99% está nos rios onde o satélite detectou atividade de mineração. Ou seja, praticamente toda a água artificial nova se concentra em 45 das 84 microbacias analisadas. São mais de 13.000 hectares, o equivalente a 40% da extensão total do Santuário Histórico de Machu Picchu. Nas 39 restantes, onde não há atividade de mineração registrada, a água artificial mal chega a ocupar 38 hectares.

A maior parte da água artificial detectada — mais de 80% — se concentra sobretudo em três microbacias situadas em trechos dos rios Colorado, Malinowski e Inambari. Na comunidade de Arazaire, situada às margens do terceiro, hoje um em cada cinco hectares de água é artificial.

Esse trecho específico do Inambari, que atravessa Arazaire, tem uma extensão de mais de 164 mil hectares e é um dos mais atingidos no Madre de Dios. É o que tem mais terreno concedido para mineração (81% do território), o segundo em perda de floresta, o terceiro com mais represas de água artificial e o sexto em quantidade de mineração detectada. De fato, a superfície de água artificial nesse trecho cresceu cerca de 2.615 hectares em 23 anos.

“Aquela área onde antes só havia árvores, agora só tem represas. Tem águas revolvidas que antes não existiam. Os igarapezinhos que existiam antes, agora estão cheios de rejeitos”, diz Ruth Tijé, referindo-se ao que acontece nessa área situada na margem esquerda do território indígena.

Embora o satélite consiga ver a mudança na superfície da água, há detalhes que podem passar despercebidos. Joaquín Romualdo, geógrafo especialista em sensoriamento remoto do Instituto del Bien Común e responsável pela análise hídrica do MapBiomas no Peru, explica assim: “Captamos o dado como uma fotografia aérea, mas, se o nível do rio baixa, não conseguimos captar isso, e muito menos a contaminação”. Ou seja, se o rio baixa de nível ou se enche de sedimentos e mercúrio, essa degradação não fica registrada.

Por isso, uma comunidade pode aparecer nos mapas cercada de mais água do que nunca, quando, na prática, é obrigada a viver de costas para o rio. “A água é o que mais sofre, o elemento que mais sofre no fim das contas, além da floresta”, acrescenta Romualdo.

Arazaire, por exemplo, vive encurralada pela mineração e pelo desmatamento. É um dos pontos mais destacados pela análise e uma história cujo impacto completo só pode ser contado a partir do território.

Mapas contra o esquecimento 

Um grupo de moradores estende um mapa sobre a mesa. Eles estão reunidos do lado de fora da maloca do centro comunitário de Arazaire, o espaço cerimonial de teto de folhas de palmeira e piso de terra onde os habitantes se reúnem para tomar as decisões mais importantes. Juntos, examinam o território da comunidade em uma imagem de satélite que a equipe da Mongabay Latam compartilhou com eles. É a terra deles vista de cima, como poucas vezes já observaram. Há marcadores coloridos espalhados pela mesa, e o convite é para que apontem suas principais fontes de água, os caminhos que costumavam percorrer até o rio e os igarapés aos quais costumavam ir e aos quais não podem mais voltar.

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Para levar o trabalho da equipe científica a campo, entregamos imagens de satélite para despertar a memória geográfica dos moradores. Com marcadores coloridos, eles começaram a lembrar onde havia lagos e igarapés de onde tiravam água, hoje arrasados pela mineração. Foto: Vico Méndez / Mongabay Latam

O dedo indicador de Beatriz Tijé começa a percorrer a linha da Rodovia Interoceânica sobre o mapa. É ela quem data a virada. “Desde 2012, as máquinas [da mineração] entraram com força por aqui”, diz. Isso aconteceu dois anos depois de uma via foi aberta, reduzindo o tempo de viagem da comunidade até Puerto Maldonado de um dia inteiro para duas horas e meia. A estrada trouxe, com a mesma facilidade, os garimpeiros e o desmatamento.

O desmatamento causado pela mineração em Madre de Dios cresceu mais de 400% depois da chegada dessa rodovia, segundo a Cincia, ONG ambiental que, entre outras atividades, vem monitorando a contaminação por mercúrio nos rios amazônicos. Essa conexão se confirma nos números de toda a bacia: o desmatamento é a pressão mais associada ao surgimento de água artificial no conjunto das quatro bacias — porque a derrubada de árvores costuma andar de mãos dadas com a mineração, que é quem cria as represas de rejeitos. Já a perda de água natural não responde a uma única pressão.

Marcia Tijé apoia Beatriz e começa a contar o que a água levou. “A gente ia para o lago de Amanatapo, lá em cima. Eu e meu pai íamos pescar sempre, com flecha”, diz, apontando para um lugar ao qual já não pode voltar. Deixaram de caçar e pescar no rio e agora têm tanques de peixes e compram alimentos em Mazuko, um povoado maior a 20 minutos da comunidade. “Antes era mais troca. Plantávamos um produto, a banana, a mandioca; às vezes trocávamos carne, mandioca, abacaxi, laranja que o vizinho tinha”, diz Ruth Tijé. De forma bem evidente, a paisagem mudou com a chegada do maquinário pesado. As imagens de satélite só confirmam o que as irmãs Tijé já sabem. 

Marcia Tijé é quem guarda os relatos dos harakmbut de sua comunidade. Aprendeu isso com o pai, o patriarca que fundou Arazaire. Muitos desses mitos servem para responder às grandes dúvidas que algumas pessoas têm sobre as razões dos deslizamentos que, segundo contam na comunidade, são responsáveis pela morte de alguns garimpeiros.

“Foi o ‘siquitbe’”, responde Marcia Tijé sem titubear. Para os harakmbut, o ‘siquitbe’ é uma espécie de dragão de cinco cabeças que vive sob a floresta. “Fica na altura do trecho entre o quilômetro 65 e o 125 da Interoceânica”, conta. É um guardião da floresta que está adormecido, mas que pode ser despertado. “Quando eles represam a água, quando cavam muito, atraem a fera. Anos atrás, houve uma grande enchente em uma das áreas de garimpo, e ela levou tudo: a área de garimpo, os bares, a prostituição. Só sobrou pedra, areia e madeira”, relata Marcia. Por isso, ela acredita que o ‘siquitbe’ não vai demorar muito para reaparecer. “Se continuarem cavando buracos atrás de ouro, ele vai voltar a inundar tudo e levar tudo de novo”. 

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O pequeno Santiago, como a grande maioria dos moradores de Arazaire, precisa beber água de galão. Os tempos em que o Inambari era a principal fonte de água já não existem mais. Foto: Vico Méndez/ Mongabay Latam

A memória comunitária caminha lado a lado com o que é inegável: a mineração, que entra com mais ferocidade do que o ‘siquitbe’. Isso fica claro só de olhar para Arazaire e sua história. Quando o Estado peruano reconheceu o território em 1976, várias décadas depois de eles terem se estabelecido ali, foram criados dois espaços geográficos nítidos, divididos pelo Inambari e seus afluentes. Do lado direito ficam as casas, as roças (ou áreas de cultivo) e os tanques de peixes. Do esquerdo ficam as nascentes dos igarapés que alimentam o Inambari, onde caçavam, onde faziam rituais. “Ninguém trabalhava ali. Era tudo verde. Iam caçar, buscar fibra e sementes”, acrescenta Ruth Tijé. Agora esse espaço está ocupado pela mineração legal — ou seja, entregue a concessionários ou empresários privados — e pela ilegal, como foi detectado em plataformas como o Amazon Mining Watch, onde se vê atividade de garimpo fora dos espaços delimitados como concessões.

A luta de Arazaire contra as concessões não começou nesta geração. Seu fundador, o líder harakmbut José Tijé Huarao, pediu ao Estado a anulação das concessões que invadiam a comunidade desde 1991. A resposta veio oito anos depois, em 1999. Foi indeferida, porque nesses processos só podem participar o titular da concessão e o Estado, sem intervenção de terceiros. Nem mesmo a própria comunidade, em cujo território eram concedidas as licenças, tinha direito de opinar. José Tijé morreu em 14 de julho de 2020, aos 81 anos, de covid. Dois dias depois, em 16 de julho, o Ministério de Energia e Minas formalizou alguns dos garimpeiros que operavam dentro da comunidade que ele havia fundado.

Ao redor da mesa também está Erick Aguirre Tijé. Ele escuta atento as companheiras, enquanto o mapa começa a despertar sua memória. Conta que, para chegar ao grande volume do Inambari, bastava atravessar canais estreitos que faziam divisa com o lado direito de Arazaire. “Até andando a gente atravessava”, diz. Mas, entre 2010 e 2012, essa vertente estreita do Inambari, onde costumavam pescar e se banhar tranquilamente, transformou-se em um braço caudaloso do rio. “Desviaram-no rio acima para não prejudicar a área de garimpo”, conta Marcia Tijé. Essa “área de garimpo”, situada do lado esquerdo de Arazaire, era um espaço sagrado para a comunidade. 

As imagens do Google Earth, que vão de 1980 a 2010, datam as mudanças narradas pelos moradores de Arazaire. Em 2010, por exemplo, é possível ver que o canal que passava pelo lado direito da comunidade era estreito. Dois anos depois, em 2012, é possível ver como o volume de água já começava a mudar  acima do Arazaire, e como um trecho da comunidade começava a se erodir. As imagens de satélite de 2025 confirmam que essa erosão hoje se estende por cerca de 13,5 hectares.

 

Vista do espaço, a mudança do território em dez anos é evidente. Imagens: Sentinel 2 no Copernicus Browser

Marta Torres, diretora nacional da Cincia, aponta que esse tipo de mudança no curso dos rios costuma ser observado quando há mineração ilegal rio acima. “A lama [que sai da atividade de mineração], conforme avança, começa a se estabilizar. Isso faz com que o fundo do rio assoreie, os leitos se encham e percam profundidade. Ao perder profundidade, o risco de enchentes é maior. Temos enchentes cada vez mais agressivas. E, na temporada seca, essa grande quantidade de lama que se encontra no fundo do rio se converte em praias, e o curso do afluente começa a mudar”, explica.

As enchentes deixaram sua pior marca em Arazaire há sete anos. “O período de pior enchente foi entre 2019 e 2020, uma catástrofe”, lembra Marcia. A água ultrapassou os três metros, acrescenta, chegou até os viveiros onde criavam pirapitingas (Piaractus brachypomus) e tambaquis (Colossoma macropomum) e arrasou tudo o que encontrou pela frente. “Se foram os viveiros, o cacau, a banana”, acrescenta. E, quando não são as enchentes, são as secas, que secam o rio e os igarapés “mais do que antes”.

Essa oscilação, entre a água que sobra e a que falta, não é só local. Os dados do MapBiomas Água mostram que, em toda a Amazônia peruana, as estações chuvosas e secas estão cada vez mais extremas – parte do que os cientistas chamam de intensificação do ciclo hidrológico. Em 2000, por exemplo, as imagens de satélite mostravam que a área ocupada pelo rio Inambari era de cerca de 20 mil hectares. Em 2025, essa superfície se expandiu até alcançar 30 mil hectares. “É uma causa direta da mudança climática. Os meses chuvosos estão cada vez mais chuvosos, e os secos, mais secos”, explica Joaquín Romualdo, do MapBiomas Água Peru. Desde 2019, além disso, a superfície de água da Amazônia vem diminuindo ano a ano, até tocar um ponto crítico em 2024. Em 2025 houve uma leve recuperação, mas sem voltar aos níveis de antes.

Paralelamente, o que acontece na margem esquerda da comunidade é outra tragédia. Segundo a plataforma Global Nature Watch, entre 2001 e 2025 foram perdidos 530 hectares de floresta, quase metade da vegetação que existia nesse trecho. 

Waldo Lavado-Casimiro, subdiretor de hidrologia aplicada do Serviço Nacional de Meteorologia e Hidrologia (Senamhi), reconhece o peso do clima, mas esclarece que, em um território tão atingido pela mineração, ele não é a causa única do problema, e sim um agravante que acelera o que a atividade humana já provocou. “Em escala macro, provavelmente não se percebe muito em detalhe, mas eles já sentem isso”, explica.

Lavado confirma, além disso, o paradoxo do ponto de vista hidrológico. Segundo ele, os sedimentos da mineração “fazem parecer que não falta água”, já que enchem o leito de lama e o fazem transbordar. “Aparentemente, parece que não falta água ou que há muita água, mas a questão é ver que tipo de água é essa”, acrescenta. Um estudo do qual é coautor, junto com uma equipe de cientistas peruanos e franceses, mostrou que, com o desmatamento, a água deixa de se infiltrar e escorre pela superfície. No Inambari, o rio mais afetado na bacia do Madre de Dios, o escoamento superficial pode aumentar até 187% ao ano, segundo a estimativa do modelo hidrológico. Isso, explica Lavado, multiplica o arraste de lama e o risco de cheias.

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Este é o panorama observado em grande parte do território de Arazaire. Há mais de três décadas, pedem ao Estado que anule as concessões de mineração impostas sobre a comunidade. Hoje já são onze delas. Foto: Vico Méndez/ Mongabay Latam

O monitoramento científico da água em Madre de Dios chegou tarde. Embora o Senamhi tenha ampliado recentemente sua rede, somando novas estações automáticas — como as de Billinghurst e Tambopata —, o banco de dados histórico é assustadoramente recente. O ponto de controle no rio Inambari, por exemplo, acumula apenas alguns anos de registros. “A série histórica ainda é curta”, admite Waldo Lavado, especialista da instituição. E é curta porque a ciência exige pelo menos 30 anos de dados contínuos para identificar uma tendência climática real. 

Em uma das regiões mais transformadas pela mineração e pelo desmatamento no país, a memória estatística da água só agora está começando a ser escrita.

A água contra o ouro

Para chegar ao lado esquerdo da comunidade de Arazaire, Erick Aguirre Tijé viaja 40 minutos de moto em direção ao porto de Mazuko. Ali, paga 10 soles (2,7 dólares) para atravessar de barco o caudaloso e turvo Inambari. A travessia leva 10 minutos. Já na outra margem, picapes 4×4 recolhem os passageiros, sobretudo garimpeiros, para levá-los até a área.  

“Antigamente vínhamos com meu avô pescar sardinha, acará, camarões, cascudos que encontrávamos debaixo das pedras”, conta, enquanto o veículo atravessa igarapés cada vez mais enlameados. No caminho, ele vai citando as rotas e os igarapés que desenhou no mapa um dia antes. Para chegar à cocha (ou lagoa) Amanatapo, o lugar mais sagrado para os harakmbut, é preciso passar por uma porteira, que os garimpeiros ignoram com facilidade, e caminhar até a margem do rio. Erick conta que Amanatapo era uma lagoa habitada pelos deuses que regiam a vida. “Amana é deus; Amanatapo é como uma barriga onde está o deus”, explica Marcia Tijé. No ano passado, porém, os harakmbut foram visitá-la e se depararam com a surpresa de que o Estado havia concedido títulos de mineração a diversos empresários sobre essas terras. 

O destino fatal de Amanatapo resume um fenômeno que abrange toda a região. Entre 2000 e 2025, quase 97 mil hectares de floresta úmida tropical do departamento de Madre de Dios se transformaram em território de mineração, segundo o MapBiomas Peru. Isso equivale a uma superfície mais de sete vezes maior que o distrito de San Juan de Lurigancho, o mais populoso de todo o Peru.

O caso da escavadeira que contamos no início da reportagem, detida pela comunidade, não terminou com sua devolução. A comunidade sustenta que a formalização da mineradora alcança o subsolo, mas não a superfície, que é território de Arazaire há décadas. Uma perícia do Ministério de Energia e Minas e da Direção Regional de Agricultura confirmou que o ponto onde a máquina operava está dentro do título atualizado da comunidade.

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A diretoria de Arazaire relata que, no ano passado, conseguiram deter uma escavadeira que estava dentro de seu território. Cinco dias depois, as autoridades devolveram a máquina ao concessionário. Hoje continuam vendo-a operar sobre o território. Foto: Vico Méndez/ Mongabay Latam

A diretoria de Arazaire relata que, no ano passado, conseguiram deter uma escavadeira que estava dentro de seu território. Cinco dias depois, as autoridades devolveram a máquina ao concessionário. Hoje continuam vendo-a operar sobre o território. Foto: Vico Méndez/ Mongabay Latam

Mesmo assim, em vez de responder à denúncia, a própria mineradora apresentou uma ação de habeas corpus contra a presidenta da comunidade, alegando que a diretoria impedia seu livre trânsito até o local de trabalho. Um juizado rejeitou a ação: decidiu que um eventual direito da mineradora não a autoriza a violar o direito de uma comunidade indígena. Hoje Arazaire leva o caso adiante pela via da Promotoria de Direitos Humanos.

“São 31 anos escrevendo cartas à direção de mineração para que anule as concessões dentro da comunidade nativa, que começaram com os pedidos do meu pai, e eles não deram atenção”, diz uma das dirigentes da comunidade, que pede para não ser identificada por segurança. Em uma reunião com autoridades, conta, sentiu que nem o choro os comovia. “Até as lágrimas seriam em vão. Nem minhas lágrimas, acho, vão chegar ao coração deles. Vocês não entendem a nossa realidade.”

Quem conduziu as primeiras diligências deste caso foi o promotor Carlos Chirre Ramírez, o mesmo que em março de 2026 explicava à Mongabay Latam as dificuldades para reprimir a mineração nos rios. Em julho daquele ano, Chirre foi detido pela polícia, acusado de integrar uma suposta rede criminosa ligada à mineração ilegal em Madre de Dios. A FEMA não respondeu às solicitações de informação desta aliança jornalística.

“Quando nós defendemos a vida, o Estado entra em defesa do econômico. Colocam isso na balança, e isso não deveria acontecer”, diz Eusebio Ríos, vice-presidente da Fenamad.

A água que Erick e o pequeno Santiago bebem já não vem do rio que o avô dele, o apu José Tijé, escolheu para estabelecer seu povo harakmbut às margens do rio Inambari. Tampouco vem dos igarapés que sustentaram Arazaire por gerações. 

Agora vem de um galão de plástico.

Referências científicas

Dados e metodologia desta investigação

Águas Partidas (2026). Projeto jornalístico coordenado pelo Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (CLIP), com Mongabay Latam, El Espectador, Correo del Caroní e o Instituto Serrapilheira (Brasil). Baseado em dados do MapBiomas Água (coleção Pan-Amazônia e coleções nacionais), RAISG (análise por microbacias, territórios indígenas, mineração, desmatamento) e HydroBASINS/HydroATLAS nível 8 (WWF).

Estudos científicos citados

Gerson, J.R., Topp, S.N., Vega, C.M., Gardner, J.R., Yang, X., Fernandez, L.E., Bernhardt, E.S., & Pavelsky, T.M. (2020). Artificial lake expansion amplifies mercury pollution from gold mining. Science Advances, 6(48), eabd4953. https://doi.org/10.1126/sciadv.abd4953

Paiva, K., Rau, P., Montesinos, C., Lavado-Casimiro, W., Bourrel, L., & Frappart, F. (2023). Hydrological Response Assessment of Land Cover Change in a Peruvian Amazonian Basin Impacted by Deforestation Using the SWAT Model. Remote Sensing, 15(24), 5774. https://doi.org/10.3390/rs15245774

Devastadores Digitais

Este projeto é resultado de uma colaboração entre jornalistas e cientistas latino-americanos, promovida pelo Instituto Serrapilheira, do Brasil, e pelo Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLIP), com o objetivo de explorar o ciclo hidrológico Atlântico – Amazônia – Andes e as perturbações nos serviços ambientais que ele proporciona ao continente. 

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