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A reserva indígena cercada de pecuária que planta árvores para recuperar a água

portada

*Ante los bajos niveles de la quebrada Jácome, imprevistos para mediados de año, integrantes del resguardo indígena coreguaje de Jácome, en la Amazonia colombiana, empujan la lancha para avanzar en su recorrido. / Terumoto Fukuda.

Os indígenas coreguaje da reserva Jácome, na Amazônia colombiana, têm visto os impactos da pecuária e da mudança climática na última década. Embora vivam no Caquetá, um departamento historicamente pecuarista, essa atividade aumentou 53% na última década na área ao redor da reserva. Paralelamente, entre 2000 e 2023, foram perdidos mais de 2.500 hectares de superfície de água na microbacia dos rios Orteguaza e Peneya, onde fica localizada a reserva. Enquanto o Estado destina milhões de dólares ao crescimento do rebanho bovino na Amazônia, a comunidade indígena avança em processos de restauração ecológica que possam recuperar a água.

César Giraldo Zuluaga (El Espectador)

*Com os baixos níveis do riacho Jácome, incomuns para o meio do ano, integrantes da reserva indígena coreguaje de Jácome, na Amazônia colombiana, empurram a lancha para avançar em seu percurso. / Terumoto Fukuda.

 

Depois de percorrer vários quilômetros rumo ao sul pelo rio Orteguaza, saindo de San Antonio de Getuchá, Adel Iles desvia a lancha para um riacho escondido atrás de algumas árvores na margem do rio, um dos mais importantes de Caquetá, que liga de norte a sul esse departamento da Amazônia colombiana. 

É quase fim de julho e, segundo o calendário do povo indígena coreguaje, já deveria ser inverno. Contudo, Iles, líder da reserva indígena Jácome, conta que o nível do riacho Jácome está tão baixo quanto no verão, geralmente no mês de dezembro. Ao longo dos quase cinco quilômetros que precisa navegar desde o rio Orteguaza até a reserva, Iles e alguns membros da comunidade terão que descer da canoa repetidas vezes para empurrá-la em trechos em que a água mal chega ao joelho. 

 

Mapa Resguardo indi?gena Coreguaje de Ja?come

 

O trajeto desde o desvio no Orteguaza até a reserva, onde vivem 135 indígenas coreguaje, não deveria levar mais de uma hora. Mas depois de três dias de sol intenso, o baixo nível do riacho, que não ultrapassa os quatro metros de largura, quase duplica o tempo de viagem.

Enquanto conduz a lancha, que avança serpenteando lentamente, Iles indica onde ficava a lagoa Puñuchiara, a maior do município de Milán (o mais próximo da reserva), que secou completamente há cerca de 20 anos, depois que os anciãos a desviaram em busca de uma rota de transporte. 

 

Foto 2
Para chegar do rio Orteguaza até a comunidade indígena, é preciso passar pelo riacho Jácome. / Terumoto Fukuda.

 

Além de terem perdido o lago, que os deixou sem ter o que pescar, o líder indígena também menciona o desmatamento causado pela pecuária, que aumentou nos últimos anos ao redor da reserva, e os impactos de uma mudança climática que ameaça secar os riachos dos quais a população depende. 

Com apoio de cientistas do MapBiomas e do programa de formação em ecologia quantitativa do Instituto Serrapilheira, do Brasil, jornalistas do El Espectador, do Mongabay Latam e do Correo del Caroní analisaram as mudanças que, nas últimas duas décadas, afetaram o Orteguaza e outros três rios amazônicos. O projeto faz parte da investigação Águas Partidas, coordenada pelo Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (CLIP) em parceria com oito veículos de imprensa da região.

Usando a análise de microbacias da Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG) e dados da plataforma MapBiomas Água, a aliança jornalística analisou 722 microbacias de quatro países — das quais 63% abrigam pelo menos 74 povos indígenas. Os resultados são contundentes: na Bolívia, as microbacias com mineração ilegal aumentaram em 21,5% de superfície de água em 25 anos, enquanto aquelas sem a atividade perderam 17,2%. Na Venezuela, a superfície total de água dos 98 rios afluentes e dos reservatórios do rio Caroní diminuiu 5,8%, segundo dados do MapBiomas Venezuela. Como mais de três quartos da água do Caroní estão retidos em três grandes usinas hidrelétricas (Guri, Macagua e Caruachi), esse fato mascara uma perda de água significativamente maior nos rios. E no Peru, 99,7% da superfície hídrica nova se concentra nas 45 microbacias com mineração, entre as 84 estudadas.

Com base na mesma metodologia, um padrão mais refinado se repete nas quatro bacias: uma em cada seis microbacias perde água natural e ganha água artificial ao mesmo tempo, no mesmo lugar.  Além disso, de cada cinco hectares dessa água artificial, mais de quatro aparecem em território indígena.

De todos os rios estudados, o Caquetá é uma das bacias com maior presença indígena: pelo menos 35 povos, distribuídos em 124 reservas e terras indígenas ocupam 68% de suas microbacias. A reserva coreguaje, em Jácome, é uma delas.

O atalho que levou à escassez 

De acordo com o relato de alguns dos anciãos da comunidade, os primeiros indígenas coreguaje (“gente sã”, em sua língua) chegaram às terras da reserva Jácome por volta do final da década de 1950. Vinham de Getuchá, uma comunidade indígena próxima a San Antonio de Getuchá, na zona rural do município de Milán, 30 quilômetros ao sul da capital departamental, Florencia.

Lázaro Ibáñez Moreno se apresenta como “agricultor, operador de motosserra e sabedor” da reserva indígena de Jácome. Foi um dos primeiros a nascer no novo assentamento. Agora, aos 58 anos, recorda que durante a infância todas as margens do rio Orteguaza e do riacho Jácome estavam cheias de árvores e quase não havia “praias”, como se referem ao leito do rio que fica exposto pelo baixo nível da água. 

 

Foto 3
Lázaro Ibáñez Moreno é um dos sabedores da reserva, autoridade espiritual e intelectual exercida por alguns anciãos da comunidade. / Terumoto Fukuda

 

Tanto no rio, como no riacho e na lagoa, Ibáñez assegura ter pescado sem dificuldade lecheros de até 115 quilos, além de pintadillos e plateados. Adel Iles, de 36 anos, se lembra de ter pescado com seu pai peixes como cheos (Leporinus bimaculatus) e nicuros (Pimelodus blochii) de mais de 50 centímetros, assim como puñus (Serrasalmus rhombeus), uma espécie grande de piranha que, por ser muito numerosa na lagoa, deu origem ao nome da comunidade: Puñuchiara. 

Embora a lagoa fosse a “maior e mais bonita” do município de Milán, como lembram alguns anciãos, havia uma desvantagem: não era possível atravessá-la, pois não havia um canal conectasse o povoado ao rio Orteguaza. Isso obrigava a população a fazer uma viagem mais longa para chegar ao rio, antes de partir a San Antonio de Getuchá, a localidade continua a ser o principal ponto de comércio e abastecimento para a comunidade. 

Iles calcula que, há cerca de 40 anos, segundo o relato de alguns anciãos, a comunidade organizou um mutirão e, com pás e enxadas, trabalhou durante alguns meses para abrir um canal artificial que conectasse a lagoa ao Orteguaza. Com o tempo, o canal se transformou em um córrego que ajudou a reduzir o tempo de viagem e o gasto com gasolina entre a comunidade e o rio. 

No entanto, com o passar dos anos (como se pode ver na ilustração a seguir), a lagoa foi se enchendo de areia até que, cerca de 20 anos atrás, secou quase por completo, restando apenas poças sazonais. 

 

https://www.elclip.org/wp-content/uploads/2026/09/mapbiomas-area-evolution-4.mp4

Evolução da área da lagoa Puñuchiara (à direita) entre 1985 e 2024

 

A superfície de água da lagoa ultrapassava 10 hectares em 1998, segundo dados da plataforma MapBiomas, criada por um consórcio de organizações não governamentais da Amazônia, que mapeia as mudanças no uso da terra e a evolução de corpos d’água. Em 2024, sua extensão chegava a apenas 0,89 hectare. 

 

droncanoa
O local onde ficava a lagoa agora está dominado por pastagens e uma pequena mata. / Terumoto Fukuda.

 

Com a canoa parada à beira da mata que recobre grande parte da antiga lagoa, Iles conta que “agora é muito difícil encontrar uma cucha (Hypostomus niceforoi) por aqui. Nem mesmo o plateado, que era um dos peixes mais abundantes. Até dá para encontrar nicuros, mas com no máximo 15 centímetros, ‘bem pequenininhos’”.

Claudia Patricia Ibáñez, cacique da reserva indígena que também fez parte da comitiva organizada para visitar o que resta de Puñuchiara, acrescenta que “antes havia bastante peixe, mas hoje já não se pesca mais”. 

“As crianças já não querem mais pescar porque encontram dentones (Hydrolycus scomberoides) nem bocachicos (Prochilodus nigricans). Só sobraram uns peixinhos”, continua Ibáñez, referindo-se a diferentes tipos de peixes que não passam de 10 centímetros.

 

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“Só sobram peixinhos”, dizem na comunidade, referindo-se a diferentes tipos de peixes que não passam de 10 centímetros. / Terumoto Fukuda

 

Depois de trocar algumas palavras com alguns dos anciãos coreguaje, o sabedor Lázaro Ibáñez destaca o impacto que esse episódio teve sobre a alimentação da comunidade. Agora, para poder pescar eles precisam ir até o Orteguaza, e precisam de gasolina para o barco a motor. Quando não têm, a viagem leva mais de duas horas de remo em cada trajeto. 

Um problema que cresce 

No início da década de 1990, enquanto a comunidade começava a ver que o canal artificial estava secando a lagoa, o extinto Instituto Colombiano de Reforma Agrária (Incora) constituiu, de forma legal, a Reserva Indígena Coreguaje Jácome, com uma área inicial de pouco mais de 310 hectares. 

Segundo Ibáñez, por volta de meados da década de 2020, a transformação dos terrenos que cercam a reserva começou a ficar mais evidente. “Antes, a gente olhava a mata na beira do rio”, referindo-se à floresta densa que chegava até a margem do riacho. “Mas depois o gado foi derrubando tudo e agora só se vê pastagem, e quase não sobraram árvores”, acrescenta o sabedor. 

 

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Caquetá, junto com Putumayo, foi um dos primeiros departamentos amazônicos a viver a introdução da pecuária, por volta do século XVIII. / Terumoto Fukuda

 

Caquetá, junto com Putumayo, foi um dos primeiros departamentos da Amazônia colombiana a ver a introdução da pecuária no século XVIII, segundo relata Roberto Ramírez Montenegro, sociólogo e professor da Universidad de la Amazonía, em um texto publicado em junho de 2024. A consolidação da pecuária ocorreu a partir da segunda metade do século XX, com políticas de colonização impulsionadas pelo Estado colombiano e apoiadas financeiramente por entidades multilaterais como o Banco Mundial.

Para colocar em perspectiva, desde 2001, quando o Instituto Colombiano Agropecuário (ICA) publicou os primeiros registros do número total de bovinos e bubalinos do país, Caquetá é, de longe, o departamento amazônico que concentra a maior quantidade de cabeças de gado, considerando que nem todos os municípios do Meta, departamento historicamente pecuarista, fazem parte da Amazônia. Em 2001, nos seis departamentos que compõem essa região (assim como em municípios de outros quatro departamentos que a integram), havia pouco mais de 2,98 milhões de animais. Desses, 44,3% e 43,41% estavam em Meta e Caquetá, respectivamente. Em outras palavras, nove em cada dez cabeças.

Embora Caquetá seja historicamente pecuarista — diferentemente do resto dos departamentos amazônicos —, na última década o rebanho vem crescendo no mesmo ritmo vertiginoso do restante da Amazônia colombiana, como alerta um pesquisador da Fundação para a Conservação e o Desenvolvimento Sustentável (FCDS), que pede para manter sua identidade em sigilo para evitar represálias.

Os dados levantados por esta reportagem confirmam que a bacia do Caquetá teve a maior perda absoluta de água natural das quatro: 21.532 hectares.

Segundo o pesquisador, em 2016 “houve uma ruptura fundamental com a assinatura do Acordo de Paz entre o Estado colombiano e a guerrilha das FARC. Esse processo gerou uma reconfiguração de poder e, de modo geral, de dinâmicas territoriais na Amazônia”. 

Desde 2016, organizações como a FCDS identificaram que o crescimento do rebanho bovino nos departamentos amazônicos e, sobretudo, nos municípios que fazem parte do Arco de Desmatamento Amazônico que concentra a maior perda de florestas (entre Meta, Guaviare e Caquetá) está acima da média nacional. No caso específico do Caquetá, entre 2016 e 2025, o rebanho bovino aumentou 72%, segundo dados divulgados pelo ICA, o que fez o departamento se tornar o quarto maior em número de vacas na Colômbia. 

 

 

A cacique Claudia Patricia Ibáñez, o sabedor Lázaro Ibáñez, Adel Iles, alguns anciãos e jovens discutem ao redor de um mapa da reserva e das propriedades que a cercam, onde se concentra o desmatamento para a pecuária. Depois de conversarem por vários minutos em língua coreguaje, preferida pelos integrantes desse povo que resiste ao espanhol, Iles toma a palavra para traduzir o que conversaram. 

Começa a percorrer com o dedo os limites da reserva — que desde novembro de 2024 conta com pouco mais de 1.000 hectares — para indicar com nome e sobrenome os proprietários das fazendas que a cercam e nas quais atualmente há gado. Depois de destacar os terrenos do leste, passando pelos do norte e chegando aos do oeste, Iles resume o diagnóstico: “Ou seja, isso tudo é pastagem. Estamos cercados de pecuária”. 

 

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Membros da comunidade discutem sobre a presença da pecuária ao redor da reserva. / Terumoto Fukuda

 

A experiência da comunidade coincide com uma análise de imagens de satélite da última década realizada por cientistas do MapBiomas Colômbia. 

De acordo com o MapBiomas Colômbia, houve nesse período uma transformação progressiva do território em um raio de cinco quilômetros em torno da reserva. “Enquanto em 2016 predominam coberturas florestais relativamente contínuas e homogêneas, em 2024 observa-se uma maior presença de áreas claras, fragmentadas e heterogêneas, especialmente nas regiões norte, sul e sudoeste da área de influência”, aponta. 

Essa transformação, acrescenta o MapBiomas Colômbia, “apresenta padrões espaciais que são compatíveis com processos de abertura e consolidação de áreas destinadas a atividades agrícolas e pecuárias”. A interpretação espacial, continuam os pesquisadores da plataforma, ganha maior relevância se acrescentarmos a evolução do número de cabeças de gado registradas no município de Milán: o aumento foi de 53,4% entre 2016 e 2025. 

 

 

Depois de comparar as análises de imagens de satélite com o número de cabeças de gado, o MapBiomas Colômbia alerta que “o período de maior aumento do número de cabeças de gado coincide com a época em que a transformação das coberturas se torna mais evidente”. 

Após atravessar uma floresta densa, onde por vezes é difícil avançar desviando-se das raízes expostas, um pasto com pouquíssimas árvores marca a fronteira da reserva. Trata-se das terras de um colono, cobertas por um capim de altura irregular e centenas de tocos que indicam, como explica Iles, uma queimada recente: a última etapa antes da chegada do gado.

 

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Vista aérea da fronteira entre a reserva indígena coreguaje de Jácome e as pastagens destinadas à pecuária. / Terumoto Fukuda

 

Para ver o gado, será preciso caminhar por pouco mais de uma hora, atravessando várias fazendas contíguas em que tudo o que existe são as casas onde vivem os responsáveis por cuidar da terra. Depois de algum tempo, a comitiva indígena que acompanha a visita começou a avistar algumas vacas no horizonte. Vistos de longe, os rebanhos não contam com mais de 15 cabeças.

 

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Rebanho em um terreno vizinho à reserva indígena. / Terumoto Fukuda

 

Para a comunidade indígena coreguaje, o desmatamento e a pecuária não implicam apenas um impacto ecológico, mas também espiritual. O ancião Ibáñez resume o primeiro impacto de forma simples: “Onde se derrubam as árvores, secam os lagos e as nascentes, que é de onde sai a água”.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), as florestas influenciam a regulação da vazão; a redução da erosão do solo e a sedimentação dos canais; favorecem a recarga da água subterrânea e contribuem para a reciclagem da água atmosférica, incluindo a geração de nuvens e as chuvas por meio da evapotranspiração.

Seguindo esse raciocínio, acrescenta a agência da ONU, o desmatamento “pode determinar um aumento da produção de água a curto prazo, mas também pode reduzir a produção anual a longo prazo, afetando o abastecimento de água próximo e distante”. 

Na microbacia onde está localizada a reserva — a dos rios Orteguaza e Peneya — a superfície de água foi reduzida em 2.573 hectares entre 2000 e 2023, segundo a análise de microbacias da RAISG, feita com base em dados do MapBiomas Água. O desmatamento, a pecuária e a mudança climática figuram entre os fatores que poderiam explicar essa diminuição, embora a análise por satélite não seja suficiente para atribuir uma causa. 

A microbacia que atravessa Jácome é a que mais perdeu água em todo o Caquetá colombiano, quase metade de sua superfície em duas décadas. Diferentemente das bacias amazônicas onde a água desaparece por causa da mineração, nessa região a perda anda de mãos dadas com o desmatamento e a pecuária. A porção colombiana do rio Caquetá, incluindo as 167 microbacias localizadas no país, perdeu 8.058 hectares de superfície de água nesse mesmo período, segundo a análise realizada para esta reportagem.

Ao observar a área de 1,5 quilômetro ao redor da reserva (sem contar a lagoa, que ficava um pouco mais distante desse perímetro), os números do MapBiomas Colômbia indicam que em 1998 havia 9,65 hectares de superfície de água. Em 2024, o total não passava os 0,27 hectare. 

 

Foto 10
A comunidade da reserva indígena coreguaje de Jácome depende totalmente da água do riacho para consumo, mas também para tarefas de higiene, como o banho e para lavar a louça e as roupas. / Terumoto Fukuda

 

Segundo o ancião Ibáñez, a água também desapareceu porque os espíritos que cuidam dela (uma grande serpente, segundo a cosmovisão coreguaje) abandonaram os lugares onde costumavam estar, perturbados pelo desmatamento e pela presença do gado. 

Com o aumento da sedimentação do riacho Jácome, os líderes da reserva perceberam uma mudança no sabor e na temperatura da água, o que levou, inclusive, à suspensão do consumo em alguns pontos, impedindo que parte da comunidade tivesse acesso à água em alguns momentos do dia. “Em alguns lugares não dá para beber, e olha que a gente continua tomando água direto de qualquer riachinho”, acrescenta Iles. 

 

Foto 11
Claudia Patricia Ibáñez (camiseta cinza) é cacique da reserva indígena, a autoridade legal da comunidade. / Terumoto Fukuda

 

Embora os indígenas da reserva Jácome não tenham acesso a estudos que avaliam as propriedades físicas, químicas ou microbiológicas da água que consomem, nem saibam se ela é segura para o consumo humano, a população percebeu a recorrência de problemas como diarreia e vômito, além do aparecimento de fungos na pele. Eles suspeitam que os sintomas sejam causados pela sedimentação da lagoa, pela contaminação da água por fezes dos animais, e pelos produtos químicos usados nas propriedades, que acabam caindo no riacho. 

Quando o verão era verão

Quando conversam em coreguaje na reserva Jácome, algumas palavras em espanhol acabam escapando. “Mudança climática” é uma delas. Embora não tenham uma tradução para esse termo em sua língua materna, Iles reconhece que a comunidade começou a sentir os impactos desse fenômeno global há vários anos.

“Antigamente, quando era verão, era verão”, garante o líder sobre a época que ía de outubro até o final de abril. E o “inverno”, acrescenta, que ia de maio a julho, “era inverno, não como agora, que faz sol por muitas horas e depois chove. Antes, o inverno era um tempo chuvoso em que todos os rios transbordavam e tudo virava como um lago naquelas montanhas”. Agosto e setembro eram meses de transição, conhecidos na região como “veranico”. 

 

Foto 12
Adel Iles é um dos líderes da reserva indígena. Na foto, pilota uma lancha no rio Orteguaza. / Terumoto Fukuda

 

“Agora, depois de três dias de sol o riacho seca. Para vê-lo nos níveis em que está agora [em julho], tínhamos que esperar até dezembro, depois de vários meses de verão”, diz Iles. No fim de julho, o ancião Ibáñez pede aos espíritos alguns dias de chuva, para que o nível do riacho aumente e permita que os visitantes saiam.

No final de outubro de 2025, o Instituto Amazônico de Pesquisas Científicas (SINCHI), um centro de pesquisa estatal focado na Amazônia colombiana, anunciou os resultados de um estudo sobre vulnerabilidade e risco climático em Caquetá. Embora o estudo não seja de acesso público, o SINCHI afirmou que sub-bacias hidrográficas como a do rio Orteguaza, entre outras, “correm um risco climático muito alto se forem mantidas as atuais trajetórias de mudança climática, dinâmicas de uso e de transformação do território”.

Essa situação, apontou o Instituto em um resumo da pesquisa enviado a esta equipe jornalística, “se agrava pelo aumento na frequência de eventos extremos, ondas de calor, secas e chuvas mais intensas em curtos períodos de tempo, além da perda acelerada de coberturas naturais, como florestas e áreas úmidas, que estão sendo substituídas por pastagens e plantações”. 

O aumento na frequência e na magnitude de eventos extremos, somado à imprevisibilidade dos padrões climáticos, alterou o calendário ecológico da reserva indígena Jácome e, como observa a cacique Ibáñez, também afetou profundamente a chagra, uma área de cultivo de subsistência da comunidade que é, ao mesmo tempo, vital para a transmissão de saberes às novas gerações, como a define Tropenbos Colombia, organização com mais de três décadas de experiência em trabalho com comunidades indígenas da Amazônia colombiana.  

A estabilidade do verão e do inverno permitia planejar as tarefas de preparação do solo, plantio de sementes e colheita de alimentos, conta a cacique. Agora, é mais difícil seguir o ciclo da chagra, que depende do calendário ecológico. Isso acontece porque as secas extremas e as ondas de calor diminuíram a resistência de várias culturas, como o milho. “Todas essas mudanças têm feito com que a gente não tenha a mesma segurança que existia antes”, completa Iles.

No estudo publicado no ano passado, o Instituto SINCHI recomendou urgência na recuperação da cobertura vegetal da bacia do rio Orteguaza, com o objetivo de aumentar o tamanho e o número de fragmentos de floresta. 

Anos antes de o instituto científico chegar a essa conclusão, a comunidade coreguaje de Jácome já havia começado processos de restauração ecológica, outra expressão emprestadas do espanhol. A primeira tentativa, cerca de uma década atrás, não obteve bons resultados, lembra a comunidade.

Por volta de 2023, a comunidade começou a receber apoio econômico do Ministério do Meio Ambiente, além de treinamentos em processos de restauração ecológica e implantação de viveiros, oferecidos pelo Serviço Nacional de Aprendizagem (SENA), uma instituição pública de caráter nacional que oferece educação técnica e tecnológica de forma gratuita. 

 

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A comunidade já conta com um viveiro de mais de 40.800 mudas de espécies nativas. / Terumoto Fukuda

 

Além dos 120 hectares que destinaram à recuperação de florestas na região de transição entre os Andes e a Amazônia, a comunidade possui mais de 40.800 mudas de 25 espécies nativas, incluindo frutíferas como pupunha, mapati, caju e cherimoia, além de madeiras nobres como a acariquara, o cedro e o cumã-uaçu. 

Embora a comunidade tenha esperanças no projeto de reflorestamento, o ancião Lázaro Ibáñez e a cacique Claudia Patricia Ibáñez pedem ajuda ao governo local e departamental para se comunicarem com os colonos que os cercam e que têm gado nas fazendas. Os dois líderes apontam que, para proteger as nascentes das quais dependem, os pecuaristas deveriam permitir o reflorestamento em torno de riachos e nascentes que estão em suas terras. No entanto, até o momento esse diálogo não aconteceu, e eles garantem que os vizinhos têm sabotado os plantios que a comunidade realizou fora dos limites da reserva, derrubando ou envenenando as mudas. 

 

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No viveiro há mudas de 25 espécies, como a pupunha, a uva-do-mato e o caju. / Terumoto Fukuda

 

Para o pesquisador da FCDS, o caso da reserva Jácome cercada de pastos revela “a abordagem contraditória que o Estado colombiano teve historicamente com a Amazônia”. Por um lado, destaca que o Estado promove programas de conservação e reflorestamento. Mas, ao mesmo tempo, questiona que entidades estatais como o Fundo para o Financiamento do Setor Agropecuário (FINAGRO) continuem concedendo créditos voltados especificamente à pecuária em zonas ambientalmente sensíveis do país. 

Entre agosto de 2018 e outubro de 2025, o Estado colombiano investiu pelo menos 1,5 trilhão de pesos (cerca de 466 milhões de dólares) em créditos para a pecuária na Amazônia por meio da Finagro, segundo uma investigação jornalística de La Silla Vacía publicada em fevereiro deste ano. “Uma atitude totalmente contraditória”, afirma o pesquisador.

A Finagro informou à reportagem que nos próximos dias publicará os resultados de um estudo realizado em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e o Instituto de Hidrologia, Meteorologia e Estudos Ambientais (Ideam), com o objetivo de responder se existe uma associação causal entre o crédito pecuário e o desmatamento da amazônia. 

Além dos resultados da pesquisa, a Finagro afirmou que implementa ações para garantir a proteção dos ecossistemas amazônicos, bem como “controles rigorosos que impedem qualquer tentativa de financiar atividades ilícitas ou a expansão irregular da fronteira agrícola”. A avaliação contínua do portfólio “busca consolidar a transição para uma economia sustentável na região”, acrescenta a entidade.

Enquanto os líderes da reserva Jácome buscam uma resposta institucional que permita estabelecer pontes com os vizinhos, Iles dá destaque a uma das espécies de seu viveiro: o buriti (Mauritia flexuosa). Com essa palmeira, que forma grandes florestas fundamentais para a regulação e o armazenamento de água, a comunidade espera conseguir filtrar a água que consome e atrair algumas espécies de peixes.

 

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Mulher da reserva indígena depois de um dia de trabalho na chagra. / Terumoto Fukuda

 

“O que buscamos, em primeiro lugar, é que a floresta seja preservada às margens do riacho. Depois, que o dono do rio, o espírito, também volte. Será ele quem vai nos ajudar a colocar novamente a água em seu nível adequado”, esclarece Iles.

Embora ainda faltem anos para que os terrenos recuperem as condições adequadas para que o espírito volte a habitá-los, parece que os espíritos da chuva ouviram o ancião Ibáñez. Depois de algumas horas de tempestade, a viagem de volta pelo riacho Jácome até o rio Orteguaza não teve maiores obstáculos. Quatro dias após sua chegada, o percurso dos visitantes agora dura uma hora, o que tempo esperado para o mês de julho. 

Referências científicas

Dados e metodologia desta investigação

  • Águas Partidas (2026). Projeto jornalístico coordenado pelo Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (CLIP), com Mongabay Latam, El Espectador, Correo del Caroní e o Instituto Serrapilheira (Brasil). Baseado em dados do MapBiomas Água (coleção Pan-Amazônia e coleções nacionais), RAISG (análise por microbacias, territórios indígenas, mineração, desmatamento) e HydroBASINS/HydroATLAS nível 8 (WWF).
Devastadores Digitais

Este projeto é resultado de uma colaboração entre jornalistas e cientistas latino-americanos, promovida pelo Instituto Serrapilheira, do Brasil, e pelo Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLIP), com o objetivo de explorar o ciclo hidrológico Atlântico – Amazônia – Andes e as perturbações nos serviços ambientais que ele proporciona ao continente.

 

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