Os “rios voadores” que se alimentam da umidade da bacia do rio Amazonas e das florestas amazônicas para depois viajar rumo à bacia do Rio da Prata são uma contribuição fundamental para o ciclo da água no Uruguai. No entanto, as mudanças no uso do solo nessa região e seu impacto nas chuvas mais ao sul são um tema que está longe da agenda das autoridades, da academia e dos produtores locais.
Guillermo Draper (Búsqueda)
Patricia vivia sua primeira gravidez enquanto o Uruguai atravessava uma seca histórica. Eram tempos de incerteza para ela e também para o restante da população. A principal represa da qual a empresa estatal captava a água para abastecer Montevidéu havia caído para menos de 2% de sua capacidade. Era só barro.
Em 23 de junho de 2023, quatro dias depois de o governo decretar emergência hídrica na região metropolitana do país, onde vivem 60% dos uruguaios, a prefeita de Montevidéu, Carolina Cosse, convocou uma coletiva de imprensa urgente. Com a voz embargada pela emoção, ela leu um trecho de um relatório elaborado pela Faculdade de Medicina sobre possíveis impactos à saúde causados pelo consumo de água com altos níveis de trihalometanos.

“Nos estágios iniciais da gravidez, a evidência aponta para uma relação com dois grupos de malformações, face e sistema cardiovascular”, disse Cosse. O parágrafo anterior desse relatório, que a funcionária pública não leu em voz alta, alertava sobre a necessidade de interpretar “com cautela” a informação sobre o possível impacto das “condições ambientais” na gravidez, pois “o caráter multifatorial e complexo de sua análise leva a publicações contraditórias, que devem ser interpretadas com cautela”. A prefeita prometeu água potável gratuita para as gestantes nas policlínicas de Montevidéu.
Essas declarações, que anos depois alcançaram o status de meme, tiveram efeitos imediatos. Para Patricia, isso significou comprar água engarrafada e até tomar banho durante semanas com a porta aberta para evitar o acúmulo de vapor no banheiro.
A última crise hídrica alterou os hábitos de higiene e de consumo dos habitantes de Montevidéu. Em um país agroexportador, a falta de chuvas arrasou a economia local. O déficit de chuvas registrado entre 2022 e 2023 provocou “danos e perdas diretas” no setor agropecuário de US$ 1,883 bilhão, o equivalente a cerca de 3% do Produto Interno Bruto do país, segundo dados do Ministério de Pecuária, Agricultura e Pesca.
As chuvas (ou melhor, sua ausência) e a mudança climática foram tema das conversas cotidianas durante aqueles meses. Mas em um país onde se forma apenas um meteorologista por ano na universidade, esse debate durou pouco. Com o retorno das chuvas, a crise hídrica voltou a ser assunto exclusivo dos especialistas, que consideram necessário desenvolver mais estudos e obter melhores dados sobre o clima para entender o que está acontecendo.
Contudo, naqueles dias de crise pouco se falou sobre a conexão entre a destruição da floresta Amazônica e a falta de água no Uruguai. Mas, afinal, o que acontece na Amazônia afeta o ciclo de chuvas no país?
A umidade que chega do norte
O Uruguai é um peneplano suavemente ondulado. Essa é a descrição que os estudantes aprendem na escola e que também poderia definir outros aspectos da vida social e até climática do país. As chuvas no Uruguai se distribuem ao longo das quatro estações, com valores próximos a 300-350 mm por trimestre (ou 1.300 por ano), embora a média anual das precipitações varie de forma significativa de ano para ano.
Esse padrão não é uniforme em todo o território. Costuma chover mais na região norte durante a primavera, o verão e o outono do que no sul. No inverno é na região leste onde se registram mais chuvas, se comparado ao oeste. O fenômeno El Niño-Oscilação Sul é o que gera maior variabilidade no clima local.
A umidade que alimenta as chuvas que caem no Uruguai vem de três fontes principais: a evaporação de água em nível local, a que chega do oceano Atlântico e a que a floresta amazônica fornece a partir do norte.
Apesar da distância geográfica, a contribuição de precipitação da floresta tropical úmida amazônica é significativa. Existe um sistema continental de água que circula entre o oceano Atlântico, a floresta amazônica e a vertente oriental dos Andes, que chega a irrigar a bacia do Rio da Prata, bem mais ao sul. Os cientistas chamam esse caminho de mão dupla de sistema hidroclimático Atlântico-Amazônia-Andes, ou AAA, mas o nome que fez mais sucesso foi o de ‘rios voadores’, como os batizou o meteorologista peruano José Antonio Marengo.

Esses “rios voadores” também alimentam as chuvas no Uruguai. Um estudo dos hidroclimatologistas Francina Domínguez e Zhao Yang determinou que 16% da precipitação na bacia do Rio da Prata se deve à umidade amazônica transportada pela Corrente de Jato de Baixos Níveis da América do Sul (SALLJ).
Um estudo feito por cientistas brasileiros e alemães constatou que a bacia do rio Amazonas é a fonte direta de 18% a 23% da precipitação na bacia do Rio da Prata durante a estação chuvosa. Por contribuição direta entende-se o percentual de precipitação que se originou na Amazônia pelo bombeamento — ou evapotranspiração — das árvores da floresta e que atravessa o bioma até a bacia do Rio da Plata.
Segundo eles, esse número pode aumentar 6 pontos percentuais na temporada chuvosa se for considerado o que chega por “reciclagem de umidade em cascata”. Esse tipo de precipitação, também chamada indireta ou por efeito cascata, é a chuva que se origina na Amazônia, cai em regiões próximas e volta a se reciclar como umidade atmosférica para depois ser transportada pelos ventos até a bacia do Rio da Prata. Ou seja, nas palavras dos cientistas, ocorrem “ciclos de reevaporação ao longo do trajeto”.
Na estação seca, o percentual da água de chuva que vem da Amazônia para o Rio da Prata fica entre 21% e 25%.
Ao todo, um terço da chuva que cai no Uruguai vem da Amazônia, segundo cálculos feitos por Sandro Pauli, físico da Universidade Federal de Santa Catarina e especialista em modelos climáticos de rastreamento de umidade atmosférica: 19,8% por precipitação direta e outros 15,1% por indireta.

“De um ano para o outro, acontece uma variação significativa nas fontes de umidade. Fenômenos como o El Niño influenciam enormemente a direção do vento, mas como dispomos apenas de uma média de 10 anos, não conseguimos perceber essas flutuações”, diz Pauli, que integra o programa de formação em ecologia quantitativa do Instituto Serrapilheira, do Brasil, entidade aliada na investigação Águas Partidas, coordenada pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP), em parceria com oito veículos de imprensa da região.
Para traçar a trajetória das chuvas no Uruguai, Pauli utilizou o modelo computacional UTrack de rastreamento da umidade atmosférica, o que significa que ele segue a trajetória das massas de ar passo a passo.
O oceanógrafo Marcelo Barreiro, que dirige o Departamento de Ciências da Atmosfera e Física dos Oceanos da Universidad de la República, explica que “a Amazônia tem esse duplo papel: além de a água evaporada chegar até as latitudes mais baixas, ela também gera as condições dinâmicas no vento que favorecem as chuvas em nossa região”. Assim como Pauli, ele destacou que a contribuição da umidade pode “ser afetada por fenômenos como o Niño, a Niña e outros fenômenos naturais”.
A falta de informação
Barreiro e seu colega químico Emilio Deagosto publicaram em janeiro um artigo acadêmico sobre a seca histórica desta década no Uruguai. Suas descobertas mostram que o La Niña desempenhou “um papel fundamental na criação das condições para o déficit de chuvas, mas a excepcionalidade do evento se deveu à interferência de outros modos climáticos”. Acrescentam, em tom condicional, que “outros fatores climáticos e não climáticos podem ter contribuído para a ocorrência do evento”.

“Isso sugere que os períodos de seca prolongada no sudoeste exigem uma combinação incomum de anomalias climáticas, o que os torna menos frequentes, mas potencialmente mais persistentes”, explicam. Além disso, os pesquisadores acrescentam que “a Amazônia, outra fonte crucial de umidade para o sudeste da América do Sul, vem passando por um processo de desmatamento significativamente acelerado nos últimos anos, o que outros estudos sugeriram como um fator que contribui para a seca prolongada na região”. A seca histórica não pode ser atribuída à mudança climática, mas é provável que a tenha agravado, acrescentam.
Barreiro e Deagosto acreditam que é necessário realizar mais estudos para compreender melhor esse fenômeno. Essa possibilidade esbarra em um obstáculo importante: o Uruguai coleta pouca informação, por isso depende de terceiros.
“A carência de modelos climáticos regionais específicos e a insuficiência de dados históricos locais com séries temporais extensas e resolução espacial adequada dificultaram” a possibilidade de usar essas informações para embasar a tomada de decisões, advertiu o Estado uruguaio, em dezembro de 2024, em seu Primeiro relatório bienal de transparência apresentado à Convenção das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima.
“Os cenários de mudança climática elaborados pelo IPCC oferecem um cenário regional, não do nosso país”, diz a diretora de Mudança Climática do Ministério do Meio Ambiente, María Fernanda Souza, que assumiu o cargo em março de 2025. “O Uruguai está inserido em um cenário compartilhado com Argentina, Paraguai e com parte do sul do Brasil. Então, é muito difícil ter cenários com maior nível de certeza a respeito da queda do volume de chuvas, especificamente no Uruguai. O problema é ainda maior quando falamos de regiões específicas”.
A Amazônia não contribui apenas com a umidade, diz o oceanógrafo Barreiro, que integra um dos grupos de trabalho do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU. Afinal, o combustível não é suficiente, se não houver algo que o faça entrar em combustão: o vento. “A umidade está concentrada fundamentalmente nas camadas mais próximas da superfície. É preciso ter circulação atmosférica associada que favoreça as chuvas”, explica.
“As nuvens carregadas”
Em 2026, Uruguai e região enfrentarão as consequências de um Superniño. No dia 16 de julho, o oceanógrafo Gastón Manta, pesquisador do Centro Universitário Regional Leste da Udelar, compartilhou com o Búsqueda uma imagem de satélite da América do Sul e duas publicações na rede social X.
A imagem havia sido registrada em 16 de junho por um satélite da NASA e mostra o Uruguai coberto quase por completo por nuvens que “descem” do centro do continente rumo ao oceano Atlântico. “Uma imagem vale mais que mil palavras”, resumiu Manta.
A primeira publicação era de Vitor Goede, meteorologista brasileiro e doutorando no Advanced Radar Research Center, da Universidade de Oklahoma.
“Uma robusta camada de ar misturado elevado (EML) está sendo transportada dos Andes em direção à bacia do Rio da Prata e será um dos ingredientes-chave para o clima severo previsto para os próximos dias”, alertava Goede em sua publicação, acompanhada por imagens.

Seu colega meteorologista Ernani de Lima Nascimento, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, respondeu que na previsão para os seis dias seguintes observavam-se “rios atmosféricos (AR) muito intensos e persistentes sobre a bacia do Rio da Prata, com magnitudes extremas de IVT (Vapor de Água Integrado Verticalmente) em determinados momentos sobre o Rio Grande do Sul”, referindo-se à medida do fluxo horizontal de vapor de água em toda a coluna atmosférica que permite entender a quantidade de umidade em determinados lugares.
IVT forecast maps at every 3h from (**experimental**) CPTEC-INPE MONAN 10 km global model, init. 00Z 16 JUL, for the next 6 days. Very powerful and *persistent* ARs over the LaPlata Basin, with some extreme IVT magnitudes over Rio Grande do Sul (extreme southern Brazil) at times. pic.twitter.com/IPAixBt887
— Ernani de Lima Nascimento (@Ern_Nascimento) July 16, 2026
Essa troca no X, segundo Manta, refletia de forma “claríssima a importância da Amazônia”. A mensagem estava nas imagens que acompanhavam as publicações: se é difícil “colocar em números” a contribuição específica da floresta amazônica para as chuvas uruguaias, esses mapas deveriam ajudar “muito” o “público em geral”, explicou.
Dois dias depois, em 18 de julho, uma massa de ar fria e instável entrou no país e provocou fortes tempestades, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia uruguaio. No departamento de Salto, no noroeste do país, uma pessoa morreu em meio ao temporal. O presidente Yamandú Orsi decretou emergência para o setor granjeiro.
O diretor nacional de Emergências, Leonardo Palomeque, declarou à imprensa que aquele temporal em Salto não foi causado especificamente pelo El Niño. De todo modo, serviu de gancho para as autoridades falarem sobre o que está por vir.
O governo anunciou, quase um mês depois, que havia firmado um acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a CAF-Banco de Desenvolvimento da América Latina para disponibilizar US$ 750 milhões em créditos contingentes para lidar com o possível impacto do El Niño. “Quando se observam as previsões e dados semelhantes a este evento, analistas internacionais e cientistas dizem que ele poderia ser mais grave. Eles estimam que o fenômeno possa desabrigar 25 mil pessoas, incluindo mais de 5 mil evacuadas, com precipitações que poderiam chegar a 500 milímetros em apenas 30 dias, quando no Uruguai a chuva anual costuma ser de 1.200 milímetros”, disse o secretário da Presidência, Alejandro Sánchez, em 11 de agosto, em coletiva de imprensa.
Cenários complicados
A crise hídrica de 2022-2023 deixou uma cicatriz no país. O IPCC prevê que, na bacia do Rio da Prata, as secas serão mais frequentes e severas, porém mais curtas, tanto no curto, como no longo prazo, ainda que seja uma previsão de “pouco confiável”.
O químico Deagosto explicou que uma das “grandes limitações da informação do IPCC é a escala espacial”: a informação sobre o Uruguai está incluída nas previsões traçadas para o sudeste da América do Sul, região nas quais “as tendências são e serão bem diferentes”. O pesquisador disse que “ainda se sabe muito pouco a respeito das projeções de secas e de períodos úmidos” para o Uruguai e suas regiões. Aliás, seu projeto de doutorado busca trabalhar com modelos de alta resolução para obter melhores informações em nível local.
Embora faltem esses dados, muitos já se preparam para o que já se sabe no Uruguai. O principal sinal da mudança climática não é a seca ou a enchente, mas o fato de que eventos extremos se tornaram mais recorrentes.
“No curto prazo, o que mais nos preocupa é saber se os índices pluviométricos vão continuar os mesmos, mas com chuvas concentradas em períodos mais curtos, e isso estressa muito os sistemas de drenagem das cidades. Por outro lado, também estamos falando de um verão mais quente, mais longo e com menos água”, diz Souza. A diretora de Mudança Climática sustenta que o Uruguai trabalha para ter “fundos internacionais acionados” que permitam financiar projetos de adaptação ou atender aos impactos após eventos extremos.
As enchentes costumam provocar cenas dramáticas, mas são as secas o eixo da maior preocupação do setor produtivo.
Nos últimos meses, o Banco Central do Uruguai publicou dois documentos sobre o déficit hídrico. Em um deles, analisou a resiliência do sistema financeiro às secas, que considera o risco climático “mais crítico” para o agro, já que afeta diretamente a produção agrícola e pecuária. O setor rende menos, perde qualidade e a produtividade cai.

A agricultura e as indústrias relacionadas representam aproximadamente de 10% a 13% do Produto Interno Bruto (PIB) e quase 80% das exportações do país, entre as quais se destacam a carne bovina e a soja. “Embora a contribuição direta ao PIB possa parecer limitada”, diz o relatório do Banco, esse setor tem vínculos diretos e indiretos com outras atividades, como o transporte e o comércio, o que gera efeitos indiretos em toda a economia. Além disso, acrescenta, entre 2005 e 2024 os empréstimos bancários ao campo representaram quase um quarto do total dos créditos a empresas, com mais de 40% em uma instituição financeira e cerca de 19% em média entre os bancos no Uruguai.
A outra análise do Banco Central destaca que as secas têm efeitos distintos nos setores do agro uruguaio. A produção agrícola sente o golpe mais rápido, mas também se recupera com maior velocidade. Já os setores pecuário e de laticínios, que representam cerca de 10% do PIB nacional, sofrem de forma mais persistente: pode haver menos nascimentos de animais, redução na quantidade de gado enviado aos frigoríficos ou menor produção de leite. O impacto “vai muito além da porteira”, ilustram os autores do trabalho.
O Ministério da Pecuária tem um edital aberto para que produtores da agricultura familiar apresentem projetos relacionados à água. O edital é voltado aos elos mais fracos da cadeia agropecuária, explica o engenheiro agrônomo Carlos Honorio, coordenador de monitoramento da Unidade de Gestão de Projetos do ministério. A justificativa do chamado aos produtores, que receberão até 10 mil dólares, é que, em vista dos últimos episódios de emergência agropecuária e “da necessidade iminente de gerar condições de adaptabilidade diante de eventos extremos mais frequentes”, é preciso apoiar os produtores com “maiores níveis de vulnerabilidade diante de déficits hídricos”.

O governo financiará desde a construção e o reparo de poços, tanques e açudes até a instalação de reservatórios e a distribuição de água para consumo animal.
Depois da seca histórica, ainda falta discutir sobre como melhorar o abastecimento de água potável na região sul do Uruguai, sobretudo na capital. Dias antes de terminar seu mandato, o governo de Luis Lacalle Pou assinou um contrato para construir uma usina de dessalinização sobre o Rio da Prata. O governo Orsi, de outro campo político, suspendeu a execução do contrato e aposta em uma alternativa que envolve a criação de uma nova represa, que também tem seus críticos. Situação e oposição seguem defendendo com seus respectivos projetos, enquanto o confronto ignora opiniões técnicas.
As preocupações são outras
Antonella Gordillo é filha de produtores rurais. Tem 32 anos, e sua passagem por uma universidade privada em Montevidéu, onde estudou jornalismo, acabou por convencê-la de que não gostaria de viver na capital. A cidade não é para ela.
Gordillo continua no negócio da família, voltado à horticultura. Em 2025, foi eleita vice-presidente da Confederación Granjera del Uruguay (CGU). Sua lembrança da seca de 2022 e 2023 é diferente da dos moradores de Montevidéu. “Já vivíamos a seca havia meses e os poços no campo já estavam secos”, afirma. O alarme só soou quando “a água começou a sair marrom” na área metropolitana.
Para Gordillo, um problema do Uruguai é que “não existe uma cultura de cuidado com a água”, porque é um país onde ela nunca faltou. Para ela, essa falta de preocupação atinge tanto as autoridades quanto os produtores.
As coisas eram assim pelo menos até acontecer a pior seca em 100 anos, assim como outros episódios de estiagem posteriores, esclarece. “O produtor está um pouco mais alerta, mais precavido”, diz, e lembra algo que ouviu seu pai dizer uma década atrás. Durante uma entrevista, perguntaram a ele qual era “seu pior inimigo” em termos de produção, e sua resposta foi “o clima”.
Gordillo diz que, em seu planejamento de produção, já sabem que, em determinadas épocas do ano, precisam de “três vezes mais” irrigação para produzir o mesmo alimento. Assim como em outros ramos, eles tiveram que incorporar novas técnicas. Agora produzem mais no inverno e depois mantêm a cenoura refrigerada entre setembro e novembro. Por quê? “Porque está cada vez mais difícil e mais caro fazer a cenoura brotar entre dezembro e janeiro”.
Segundo Gordillo, os produtores tentam conseguir informações para orientar suas decisões. Contudo, ainda falta um longo caminho até que eles comecem a refletir sobre como a mudança no uso do solo na bacia amazônica pode impactar as chuvas que caem no Uruguai. Pouco importa qual seja a contribuição de umidade que chega de lá. “Ninguém está pensando nisso. No dia a dia há outros temas mais importantes” na lista de preocupações, acrescenta.
Embora poucos produtores rurais e poucos uruguaios pensem sobre as mudanças no uso do solo na Amazônia, o que tira o sono deles é quanta chuva vai cair e se a chuva vai chegar quando mais precisam. A evidência científica mostra que a chuva no Uruguai depende, em alguma medida, da floresta mais ao norte.
Um futuro incerto
A infraestrutura de um país é pensada para operar sob condições conhecidas, previstas ou já estabelecidas, explica o oceanógrafo Gastón Manta. Na medida em que essas condições se modificam, as políticas de adaptação à mudança climática são a norma hoje no mundo.
Um artigo publicado na revista científica Nature, no início de junho, alertou que o aquecimento global e o desmatamento do bioma amazônico podem ter consequências complicadas para a contribuição de umidade que ele proporciona à região.
“As mudanças na Amazônia alterariam o transporte de umidade atmosférica para regiões situadas a favor do vento, fora da bacia amazônica, que se encontram sob uso agrícola intensivo. como o sul do Brasil, a Bolívia, o Paraguai e até a bacia do Rio da Prata na Argentina, o que poderia ameaçar o rendimento das colheitas e a segurança hídrica regional”, diz a pesquisa, da qual participaram dois cientistas brasileiros, a matemática Marina Hirota e o ecólogo Bernardo M. Flores, junto com o renomado climatologista sueco Johan Rockström.
Esse estudo foi realizado após outros publicados sobre o tema na mesma revista acadêmica. Em 2024, outra pesquisa liderada por cientistas majoritariamente brasileiros analisou o impacto das mudanças climáticas e de origem humana sobre esse bioma. Ainda que seja difícil prever os efeitos de eventos específicos em um ecossistema tão complexo, o acúmulo poderia levá-lo ao colapso, explicou o grupo de pesquisadores que incluiu novamente Hirota e Flores, além do veterano climatologista brasileiro Carlos Nobre. Cerca de 65 milhões de anos de “resiliência relativa à variabilidade climática” podem ser varridos, alertaram.
Fernanda Souza, a diretora de Mudança Climática, diz que existe ampla literatura sobre “os rios voadores” e sobre como o Uruguai e outros países da região seriam “áridos ou semiáridos” se não fosse por eles. No entanto, ela reconhece que o Uruguai ainda não produziu “um estudo sistemático sobre como isso impactaria o país”, caso a contribuição de água seja significativamente reduzida por conta de disrupções no ciclo hidrológico causadas pelo desmatamento ou pelas secas extremas que se tornaram mais comuns por lá. “Nós precisamos de um meio acadêmico que esteja produzindo dados específicos para o Uruguai, e isso até agora não aconteceu”, lamenta. Souza reconhece que o Estado também não destina o dinheiro necessário para que os acadêmicos uruguaios tenham ferramentas suficientes.
A falta de estudos e a complexidade dos fenômenos climatológicos tornam difícil entender com precisão o efeito causado por mudanças drásticas no uso do solo na bacia amazônica, especialmente no sul do continente. Para Manta, é claro que o impacto “seria muito alto”, dada sua centralidade no ciclo hidrológico. No entanto, antecipar quais seriam as consequências dessas transformações não é simples. É difícil isolar um aspecto do fenômeno para avaliar o que aconteceria se ele mudasse.
“Tirar a Amazônia da equação geraria muitas mudanças; não só nas chuvas, mas também no regime hídrico” em geral, diz Manta, acrescentando que, se tivesse que dar um título a um artigo sobre o tema, escreveria: “Não cuidar da Amazônia poderia ter consequências drásticas nas chuvas no Uruguai”.
Referências científicas
Emilio Deagosto et al. “Climatological Analysis of the 2022–2023 Unprecedented Dry Period in Southwestern Uruguay”. Royal Meteorological Society, 2026.
Emilio Deagosto et al. “Climatological Analysis of the 2022–2023 Unprecedented Dry Period in Southwestern Uruguay”. Royal Meteorological Society, 2026.
Nico Wunderling et al. “Deforestation-induced drying lowers Amazon climate threshold”. Nature, 2025
Nico Wunderling et al. “Deforestation-induced drying lowers Amazon climate threshold”. Nature, 2025
DC Zemp et al. “On the importance of cascading moisture recycling in South America”. Atmospheric Chemistry & Physics, European Geoscience Union, 2014.
DC Zemp et al. “On the importance of cascading moisture recycling in South America”. Atmospheric Chemistry & Physics, European Geoscience Union, 2014.
Zhao Yang et al. “Investigating Land Surface Effects on the Moisture Transport over South America with a Moisture Tagging Model”. Journal of Climate of the American Meteorological Society, 2019.
Zhao Yang et al. “Investigating Land Surface Effects on the Moisture Transport over South America with a Moisture Tagging Model”. Journal of Climate of the American Meteorological Society, 2019.
Este projeto é resultado de uma colaboração entre jornalistas e cientistas latino-americanos, promovida pelo Instituto Serrapilheira, do Brasil, e pelo Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLIP), com o objetivo de explorar o ciclo hidrológico Atlântico – Amazônia – Andes e as perturbações nos serviços ambientais que ele proporciona ao continente.




