Diagnóstico inédito aponta anomalias hidrológicas nos rios Madeira, Purus e Juruá. Os resultados revelam onde e quando o regime das águas se tornou mais instável, um quadro de redução da vazão em quase metade dos rios analisados e uma conclusão: atribuir as anomalias à uma única causa é um erro.
Antônio Laranjeira (Carta Amazônia)
*Comerciante de bagres no rio Amazonas, na cidade de Leticia, Colômbia. Créditos: Gustavo Faleiros / InfoAmazonia
Para comunidades ribeirinhas e trabalhadores da pesca, que vivem entre a terra firme e os rios da Amazônia, a subida e a descida do nível de cada rio determina o acesso aos lagos, o deslocamento dos peixes, as áreas de alimentação e o calendário da pesca das comunidades que vivem no entorno. O problema começa quando esse ritmo deixa de seguir o comportamento esperado.
A ciência comprova que quando o rio sai do ritmo, a pesca perde a referência na Amazônia. Para quem pesca, não basta saber se haverá muita ou pouca água. É necessário prever quando o rio começará a encher, por quanto tempo o nível permanecerá elevado e quando iniciará a vazante das águas doces.
Um diagnóstico hidrológico integrado e a nota técnica produzidos por Renan Cassimiro Brito, mestre em Ciência da Terra e Sociedade pela Universidade de São Paulo (USP), identificou episódios recorrentes de vazões excepcionalmente altas ou baixas em rios associados à ocorrência da dourada, um dos principais bagres migratórios e recursos pesqueiros da Amazônia.
A análise foi desenvolvida como parte da investigação colaborativa entre cientistas e comunicadores, uma parceria entre o Programa de Formação em Ecologia Quantitativa do Instituto Serrapilheira e o Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP) e contou com participantes do Brasil e de outros países da América do Sul e resultou no especial Águas Partidas.

Brito reuniu séries históricas de 96 estações fluviométricas instaladas em rios principais e grandes tributários entre os anos 2000 e 2024. Em 45 delas, o equivalente a 46,9% da rede examinada, houve tendência estatisticamente significativa de redução da vazão. O estudo também encontrou sinais de prolongamento dos períodos de estiagem e queda significativa da precipitação em 48 das 153 estações pluviométricas avaliadas.
Mais do que contar episódios isolados, os resultados permitem observar quando e onde os rios se afastaram com maior intensidade de seus padrões históricos. Os principais picos aparecem em 2004, 2009, entre 2011 e 2015, em 2018 e novamente em 2024. No espaço, os registros mais recorrentes formam uma faixa de concentração no sudoeste da Amazônia, especialmente nas bacias dos rios Madeira, Purus e Juruá.
Anomalia não significa apenas seca
No diagnóstico, uma anomalia hidrológica representa um mês em que a vazão ficou muito distante do comportamento normalmente observado naquela estação e naquele período do ano. O cálculo compara cada mês com a climatologia mensal do próprio ponto de monitoramento.
Esse cálculo funciona da seguinte forma: um mês de janeiro é comparado com os demais janeiros daquela estação, e não com os meses de seca ou cheia do mesmo ano. Dessa forma, é possível distinguir uma oscilação comum do rio de um comportamento estatisticamente incomum.

Se o nível da água subir ou descer muito além do normal, acende o sinal de alerta. Quando esse afastamento é muito grande, chamamos de evento severo. Se for um exagero total, vira um evento extremo. Essa regra vale igual tanto para enchentes históricas quanto para secas históricas.
Isso significa que uma anomalia não é sinônimo automático de seca. Uma cheia muito acima do esperado também pode ser considerada anômala. O mesmo ocorre quando a vazante começa antes do período habitual, quando a enchente demora a chegar ou quando o rio permanece abaixo de um limite crítico durante mais tempo.
“A classificação é uma ferramenta para entendermos o comportamento da vazão ao longo do tempo, e não necessariamente os fatores que atuam diretamente sobre ela”, explica Brito. Segundo o pesquisador, os resultados funcionam como “um termômetro de onde e quando a vazão se mostrou mais instável”. O diagnóstico detecta o desvio, mas não determina sozinho o que o provocou.
O mapa da instabilidade
A leitura conjunta da série temporal com 25 anos revela que os episódios não se distribuem uniformemente pela bacia amazônica.
Os picos de 2004 e 2009 foram seguidos por uma sequência mais persistente entre 2011 e 2015. Um novo aumento ocorreu em 2018 e outro em 2024. As anomalias extremas, embora menos frequentes, acompanham aproximadamente os mesmos períodos de intensificação das severas.
Geograficamente, os pontos com maior recorrência aparecem sobretudo no sudoeste amazônico. A área reúne o Madeira, que nasce da confluência de grandes rios andinos e atravessa Rondônia e Amazonas, e as bacias do Purus e do Juruá, dois dos principais sistemas fluviais da Amazônia ocidental.
Mapa destaca as calhas principais dos rios Purus, Juruá e Madeira (em vermelho) uma ponte hídrica com outros rios (em azul) que são rota de peixes migratórios da Amazônia. Créditos: Antônio Laranjeira
É também uma região central para a pesca de espécies migratórias de peixes, como a dourada. Rios, lagos de várzea, canais e florestas inundáveis formam ambientes utilizados em diferentes fases da vida dos peixes. Quando a duração ou o momento das cheias se altera, esses ambientes podem permanecer conectados por menos tempo ou ser acessados em períodos diferentes dos habituais.
O estudo não informa se cada anomalia foi positiva ou negativa em cada bacia nem mede seus efeitos sobre os desembarques pesqueiros. O que os dados mostram é a recorrência de comportamentos incomuns justamente em uma região onde o ciclo da água sustenta redes de pesca artesanal, mercados urbanos e deslocamentos de espécies entre o Brasil, o Peru e a Bolívia.
Quando a água muda, a pesca sente depois
A relação entre o pulso das águas e a pesca nem sempre aparece imediatamente.
Durante cheias regulares, os peixes acessam lagos, várzeas e florestas inundadas, onde encontram alimento, abrigo e áreas de crescimento. Um artigo publicado em 2016, avalia que anos com cheias intensas podem favorecer a alimentação e aumentar a biomassa disponível para captura em períodos posteriores. Em sentido contrário, secas intensas podem elevar a mortalidade natural, concentrar os peixes em áreas menores e aumentar a pressão da pesca.
Por isso, uma alteração registrada em determinado ano pode afetar o recrutamento, o crescimento e a quantidade de peixe disponível somente nas safras seguintes. Essa defasagem dificulta a percepção imediata da crise e impede que a queda de um desembarque seja explicada apenas pelas condições do rio no momento da captura.
Para espécies migratórias, a previsibilidade é particularmente importante. A subida das águas, a força da correnteza, a temperatura e outros sinais ambientais participam da orientação dos deslocamentos reprodutivos. A dourada depende dessas conexões para atravessar diferentes partes da bacia durante seu ciclo de vida.

A espécie foi o foco de uma reportagem anterior da InfoAmazonia sobre os bloqueios produzidos pelas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau no rio Madeira. A nova análise acrescenta outra dimensão ao problema: mesmo nos trechos em que a passagem permanece fisicamente possível, o peixe encontra um regime hídrico sujeito a episódios recorrentes de instabilidade.
O diagnóstico não mediu a resposta das douradas às anomalias. A sobreposição entre os dados hidrológicos e as áreas de pesca, reprodução e crescimento da espécie ainda precisa ser investigada. O alerta está no acúmulo de pressões: redução de vazão, secas mais prolongadas, pesca de indivíduos juvenis, perda de conectividade e barramentos ao longo das rotas.
Da anomalia à insegurança pesqueira
A insegurança pesqueira não significa somente a ausência completa de peixes nas redes. Ela também se manifesta quando pescadores deixam de prever onde e quando as espécies estarão disponíveis, precisam navegar por distâncias maiores ou passam mais dias no rio para obter capturas menores.
A instabilidade pode aumentar o gasto com combustível, gelo, alimentação e manutenção das embarcações. Também pode deslocar a pesca para espécies menores ou menos valorizadas, elevar os preços nos mercados e reduzir a quantidade de proteína disponível para as famílias que dependem do consumo direto.
Mapa mostra a localização de hidrelétricas nos principais eixos da bacia amazônica e destaca os impactos dessas barragens sobre a conectividade dos rios. Créditos: Antônio Laranjeira
Um artigo de revisão científica, publicado em 2021, sobre peixes migratórios estimou que essas espécies representam, em média, cerca de 93% dos desembarques pesqueiros analisados na bacia amazônica. A dependência ajuda a explicar por que alterações no pulso dos rios não constituem apenas um problema ecológico: elas alcançam a renda, o abastecimento e a segurança alimentar de comunidades urbanas, indígenas e ribeirinhas.
No Madeira, um artigo científico de 2020 compilou dados de estudos realizados antes e depois da implantação de Santo Antônio e Jirau já registraram queda nas capturas, redução da renda dos pescadores e deterioração de indicadores ecológicos e sociais da pesca artesanal. As perdas foram maiores entre os pescadores do que entre intermediários e comerciantes, demonstrando que os impactos não são distribuídos de maneira igual pela cadeia produtiva.
Outro estudo, publicado em 2019, baseado no acompanhamento de pescadores cerca de 1.500 quilômetros acima das usinas, na Bolívia, encontrou diminuição significativa das capturas de dourada depois do fechamento das barragens. Os poucos indivíduos encontrados seriam uma combinação de peixes antigos, que subiram antes do bloqueio, e populações que nasceram acima das usinas e ficaram isoladas na parte superior da bacia.
Essas pesquisas demonstram que hidrelétricas podem afetar a pesca e a conectividade. Não demonstram, porém, que as anomalias detectadas no novo diagnóstico tenham sido provocadas pelas mesmas usinas.
Hidrelétricas fazem parte da pergunta
A presença de Santo Antônio e Jirau no Madeira torna inevitável questionar se a operação das usinas contribuiu para parte dos desvios observados. Barragens podem modificar a magnitude, a duração, a frequência e o momento das vazões, além de alterar a conexão entre o canal do rio e suas áreas inundáveis.
Na bacia do Tocantins, por exemplo, uma análise científica, publicada em 2021, comparou os períodos anteriores e posteriores à instalação de barragens e identificou redução da extensão e da duração das inundações e mudanças no início das cheias. Os autores atribuíram a maior parte das alterações às operações das usinas, após avaliar também a precipitação e a transformação da cobertura terrestre.

Porém a ciência também possui limitações, apesar das certezas, e alerta para as convicções sem evidências científicas. No caso do diagnóstico das bacias associadas à dourada, essa etapa de atribuição não foi realizada.
“É comum associarmos essas oscilações a possíveis interferências antrópicas na bacia, como a operação de hidrelétricas”, afirma Brito. “Mas, para fazermos uma atribuição direta de causa e efeito, seria necessária uma análise específica correlacionando esses eventos com dados operacionais”, explica o cientista ambiental.
Esse cruzamento exigiria reunir, entre outras informações, a vazão que chega e sai de cada reservatório, os níveis de armazenamento, a água liberada pelas turbinas e vertedouros e as datas de manobras operacionais. Os dados precisariam ser comparados com precipitação, temperatura, desmatamento, mudanças de uso da terra e estações localizadas acima e abaixo das barragens.
A concentração das anomalias também alcança o Purus e o Juruá, e não somente o Madeira. Esse padrão impede que uma única explicação seja aplicada a toda a área e reforça a necessidade de separar os efeitos das operações hidrelétricas dos sinais climáticos e das transformações acumuladas nas bacias.
Um rio previsível também é infraestrutura
A gestão da pesca costuma estabelecer períodos de defeso, tamanhos mínimos e restrições a equipamentos. Essas regras partem do pressuposto de que os ciclos reprodutivos e hidrológicos continuarão ocorrendo em períodos relativamente previsíveis.
Quando o rio começa a se comportar de outra maneira, o calendário administrativo pode deixar de coincidir com o calendário ecológico. Uma espécie pode iniciar a migração antes ou depois do período protegido. Uma área de várzea pode secar antes que os juvenis completem seu crescimento. Uma cheia fora de época pode alterar os locais de captura e desembarque.
O diagnóstico não determina que esses processos já estejam ocorrendo em todas as bacias analisadas. Ele oferece uma base para que as próximas investigações verifiquem essa relação, combinando dados de vazão com desembarques, esforço de pesca, tamanho dos indivíduos e operação das hidrelétricas.
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Os resultados mostram, contudo, que o comportamento incomum dos rios deixou de ser um episódio restrito a um único ano ou ponto da Amazônia. Os picos se repetiram em diferentes momentos e se concentraram em bacias essenciais para a circulação de peixes e para a subsistência de comunidades.
Para a pesca, conservar o rio não significa apenas manter água dentro do canal. Significa preservar a sequência, a duração e o momento das cheias e vazantes. Quando esse calendário perde estabilidade, pescadores e peixes perdem uma referência comum.
Referências científicas
Brito, R. C. (2026, 20 de junho). Diagnóstico hidrológico integrado: Bacia dourada, variável principal vazão (m³/s) [Relatório técnico].
Doria, C. R. C., Dutka-Gianelli, J., Brasil de Sousa, S. T., Chu, J., & Garlock, T. M. (2021). Understanding impacts of dams on the small-scale fisheries of the Madeira River through the lens of the Fisheries Performance Indicators. Marine Policy, 125, 104261. https://doi.org/10.1016/j.marpol.2020.104261
Duponchelle, F., Isaac, V. J., Doria, C. R. C., Van Damme, P. A., Herrera-R., G. A., Anderson, E. P., Cruz, R. E. A., Hauser, M., Hermann, T. W., Agudelo, E., Bonilla-Castillo, C., Barthem, R., Freitas, C. E. C., García-Dávila, C., García-Vasquez, A., Renno, J.-F., & Castello, L. (2021). Conservation of migratory fishes in the Amazon basin. Aquatic Conservation: Marine and Freshwater Ecosystems, 31(5), 1087–1105. https://doi.org/10.1002/aqc.3550
Faleiros, G. (2019, 8 de abril). Represas do Rio Madeira podem significar a desgraça da maratona de grandes bagres da Amazônia. InfoAmazonia. https://infoamazonia.org/2019/04/08/represas-do-rio-madeira-podem-significar-a-desgraca-da-maratona-de-grandes-bagres-da-amazonia/
Isaac, V. J., Castello, L., Brasil Santos, P. R., & Ruffino, M. L. (2016). Seasonal and interannual dynamics of river-floodplain multispecies fisheries in relation to flood pulses in the Lower Amazon. Fisheries Research, 183, 352–359. https://doi.org/10.1016/j.fishres.2016.06.017
Swanson, A. C., Kaplan, D., Toh, K.-B., Marques, E. E., & Bohlman, S. A. (2021). Changes in floodplain hydrology following serial damming of the Tocantins River in the eastern Amazon. Science of the Total Environment, 800, 149494. https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2021.149494
Van Damme, P. A., Córdova-Clavijo, L., Baigún, C., Hauser, M., Doria, C. R. C., & Duponchelle, F. (2019). Upstream dam impacts on gilded catfish Brachyplatystoma rousseauxii (Siluriformes: Pimelodidae) in the Bolivian Amazon. Neotropical Ichthyology, 17(4), e190118. https://doi.org/10.1590/1982-0224-20190118
Este projeto é resultado de uma colaboração entre jornalistas e cientistas latino-americanos, promovida pelo Instituto Serrapilheira, do Brasil, e pelo Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLIP), com o objetivo de explorar o ciclo hidrológico Atlântico – Amazônia – Andes e as perturbações nos serviços ambientais que ele proporciona ao continente.




