Por décadas combatidas, essas formações do sudoeste do Rio Grande do Sul ajudam a garantir água aos gaúchos. Elas são parte de um ciclo hidrológico complexo que une a chuva que vem da Amazônia ao Sistema Aquífero Guarani.
Veridiana Dalla Vecchia (Jornal Correio do Povo)
*Areal em Manoel Viana | Foto: Veridiana Dalla Vecchia
Vistos a uma certa distância, na paisagem formada por coxilhas – suaves colinas com vegetação rasteira -, eles são bastante parecidos entre si, manchas no solo de cores que variam do marrom claro ao rosa-avermelhado ou alaranjado, em meio à imensidão do horizonte verde que o Pampa permite avistar. É inverno, então a soja não faz parte da paisagem, mas os campos estão tomados de algum outro cultivo, ainda pequeno junto ao solo. Mas, de perto, muda tudo e cada areal tem suas particularidades. Um deles, no município de São Francisco de Assis, é um trecho arredondado de areia e pedras, ou rochas, como me corrigiram os geógrafos e estudantes de Geografia que me acompanhavam em uma visita no mês de junho.
No areal redondo, como é conhecido pelos alunos e pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), as rochas de arenito são onipresentes e a vegetação em seu interior é quase nula. Nessa área de 48.743 metros quadrados, equivalente a pouco menos de sete campos de futebol, se observam ainda os fulguritos, pequenos tubos que se transformam em vidro quando um raio atinge a areia, o que é bastante comum no local. Tocas de tatu também aparecem, além de pegadas de animais que não identifico.
Esses pequenos pedaços de terra dos campos do Rio Grande do Sul foram por décadas combatidos por produtores, acadêmicos e governos que tentavam encontrar espécies que conseguissem crescer nos areais ou técnicas que pudessem barrar o que acreditavam ser um processo de desertificação em andamento. No entanto, os areais fazem parte de um ciclo hidrológico complexo que une Amazônia, Oceano Atlântico e Pampa, fundamental para pessoas e animais. Em uma área de pouco menos de 5 mil hectares, distribuídos por dez municípios do sudoeste do estado, onde há pouco ou nada de vegetação, parte da água das chuvas penetra no solo arenoso destes ecossistemas frágeis e abastece o Sistema Aquífero Guarani (SAG).


Em São Francisco de Assis, assim como nos outros nove municípios com presença de areais, cerca de 25% da precipitação vêm, de forma direta ou indireta, da Amazônia. Outra parte importante, 14% vem do Atlântico. As estimativas foram feitas para esta reportagem por Sandro Pauli Jr., físico da Universidade Federal de Santa Catarina e especialista em análise de modelos climáticos de rastreamento da umidade atmosférica. Pauli, que faz parte do Programa de Formação em Ecologia Quantitativa do Instituto Serrapilheira, mapeou o percurso da água usando um modelo computacional que rastreia a umidade atmosférica, acompanhando a trajetória das massas de ar, passo a passo.

De toda a água que cai sobre os areais, 14% chega até o Sistema Aquífero Guarani (SAG) , conforme medição realizada pelo doutor em Geografia Jean Carlo Caneppele, que hoje faz pós-doutorado na Ufrgs. Pelo trabalho de filtragem da água feito pelos areais e de preservação de espécies nativas da flora e fauna, atualmente pesquisadores defendem que essas formações sejam reconhecidas como prestadoras de serviços ambientais. Isso possibilitaria que os areais passassem a fazer parte de políticas públicas de conservação e até de projetos de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) que beneficiariam produtores rurais da região. “É algo único no Brasil. Só tem naqueles dez municípios do Rio Grande do Sul. São ecossistemas que têm fauna associada, têm flora associada. Então, não, não precisamos combatê-los”, diz o pesquisador.
Caneppele, que faz parte do Grupo de Pesquisa em Arenização/Desertificação vinculado à Ufrgs e registrado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), se refere ao fato de que, durante várias décadas, os areais foram alvo de preocupação e embates. Acreditava-se que a região estava ameaçada por um processo de desertificação. Hoje, porém, pesquisadores identificaram que algumas dessas áreas existem há milhares de anos e formam ecossistemas próprios. Por outro lado, outras surgiram a partir do mau uso da terra e podem desencadear processos erosivos difíceis de serem controlados, especialmente em um contexto de emergência climática no qual as secas são mais frequentes e as chuvas, mais intensas.
De quando o Pampa era duna
Além de São Francisco de Assis, há areais nos municípios de Alegrete, Cacequi, Itaqui, Maçambará, Manoel Viana, Quaraí, Rosário do Sul, São Borja e Unistalda. A preocupação em torno dessas formações começou com o avanço da cultura da soja sobre o bioma, na década de 1970. Desde lá, pensava-se que a arenização era apenas fruto do mau uso de um solo de composição frágil e que evidenciava um processo de desertificação.
Porém, em 1987, a pesquisadora Dirce Suertegaray, então doutoranda em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP), identificou que essas formações, na verdade, eram naturais. Pioneira nas pesquisas dessa área, Suertegaray, hoje professora visitante na Universidade Estadual do Amazonas (UEA) e professora colaboradora no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), viu que o que acontecia no bioma não era característico de um processo de desertificação.
“Na época, se dizia que a soja expandia os areais, mas aquele areal [que estava sendo estudado, no município de Quaraí, perto da fronteira com o Uruguai], não estava em região de produção de soja e já existia”, conta a geógrafa, que também é professora emérita na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Ela também descobriu outros pontos semelhantes que já haviam sido registrados na literatura histórica, antes da chegada da agricultura, como na região de Alegrete e São Francisco de Assis.
A diferença está na quantidade de chuva que o local recebe. A 1ª Conferência sobre Desertificação das Nações Unidas, realizada no Quênia, em 1994, definiu desertificação como degradação das terras nas zonas áridas, semiáridas e sub-úmidas secas, resultante de fatores que vão das variações climáticas às atividades humanas.
Assim, Dirce explica que o que ocorre no Rio Grande do Sul não pode ser considerado desertificação, pois o fenômeno não se enquadra na classificação climática de áreas de risco em função das altas pluviosidades registradas na região. Além disso, esses espaços arenosos do estado formam ecossistemas que, ainda que tenham características delicadas e sofram intensa pressão social, não são áreas degradadas. Isso não significa, porém, que não existam áreas degradadas próximas aos areais ou mesmo areais formados a partir de processos de erosão, resultante de um uso inadequado da terra.
Os areais são fruto de mudanças climáticas, mas não dessas nas quais estamos inseridos e pelas quais somos responsáveis. São remanescentes da época do Jurássico Superior, há cerca de 160 milhões de anos, quando o que hoje conhecemos como Pampa era seco e formado por dunas e os dinossauros gigantes ocupavam o supercontinente Pangeia. Nessa região, o aumento da umidade ao longo de séculos e milênios fez com que a vegetação pudesse se desenvolver e ter as características de hoje. Os areais, portanto, são um testemunho de um tempo seco e um alerta sobre a fragilidade do bioma mais devastado do Brasil, que, segundo a plataforma de dados científicos MapBiomas, perdeu 45,6% da vegetação nativa entre 1985 e 2024.
O areal de São Francisco de Assis, por exemplo, descrito no início desta reportagem, tem aproximadamente 15 mil anos, conforme estudos sobre a dinâmica dos ventos e a remobilização das areias realizados pelo Grupo de Pesquisas em Arenização/Desertificação.
“A técnica é bem complexa, mas é relativamente simples de entender: basicamente, quando a areia está exposta ao sol, ela recebe radiação. Então, vem outra onda de areia que a cobre, e essa areia que estava exposta fica na sombra e a radiação diminui. Essa técnica capta o tempo que a areia esteve exposta e o momento que ela ficou escondida da luz. Com isso a gente consegue datar os areais, e os mais antigos datados até agora são de 15 mil anos atrás”, explica o geógrafo Roberto Verdum, professor de graduação e pós-graduação do Departamento de Geografia da Ufrgs.
“Esse marcador é interessante, porque, hoje, com os estudos globais e regionais, se identificou que o último período mais seco e frio foi exatamente entre 18 mil, que seria o ápice, e 10 mil anos. Então, 15 mil está no meio.” Ele também destaca que o areal mais recente datado pelo grupo teria 200 anos, o que também se encaixa em um período de escassez hídrica e frio conhecido, em escala global, como Pequena Era Glacial.
A arenização, explica Verdum, é um processo de formação de depósitos arenosos de origem fluvial e eólica associados a fatores como clima, relevo e cobertura vegetal. Podem estar ou não relacionados a atividades agrícolas. Segundo ele, a gênese dessas manchas arenosas está associada à suscetibilidade das rochas e dos solos do Pampa, à dinâmica de chuvas torrenciais e períodos de seca. “Os impactos do mau uso e manejo do solo, com emprego de tecnologias inadequadas para os frágeis solos dessa região, podem se constituir como um dos principais fatores de contribuição para o surgimento de novos focos de arenização”, alerta o geógrafo.

Os areais pulsam
Por serem formações inseridas em um bioma com solo frágil, durante muitos anos, umas das preocupações era com o aumento dos areais, devido à observação de um processo de arenização constante e crescente. Hoje, evidências científicas mostram que a área dos areais não está em expansão. Eles somam em torno de 5 mil hectares (ou 50 quilômetros quadrados), de acordo com medição feita pelo Grupo de Pesquisa em Arenização/Desertificação em 2023, equivalente a duas vezes a extensão de Fernando de Noronha ou um pouco menor que um país como San Marino, que tem 6.120 hectares.

Porém, a preocupação quanto ao aumento dos areais tinha razão de ser, já que nas décadas de 1980 e 1990 observava-se o crescimento das áreas arenosas. No entanto, a partir dos anos 2000, eles começaram a diminuir. A ciência então identificou que os areais “pulsam”, como fala o professor Roberto Verdum, diminuindo e aumentando sua área conforme os períodos de seca ou umidade.
“Os monitoramentos que a gente tem feito desde 1987, em 1994, em 2001, em 2011 e, agora na minha tese, em 2023, mostram que os areais não se expandem. Eles crescem e depois diminuem de acordo com a questão meteorológica”, afirma Caneppele, autor da tese de doutorado Serviços Ambientais Hídricos da Arenização. Para entender a dinâmica dessas áreas, os pesquisadores observaram, entre outros pontos, o comportamento de uma dessas formações no município de São Francisco de Assis. Durante um ano, realizaram medições periódicas das margens do areal com GPS de precisão e técnicas de balizamento.
“Nos períodos de estiagem, a tendência do areal é aumentar porque a vegetação do seu entorno, e interior, sofre com a escassez de água. Em um solo arenoso, quanto mais falta de chuvas, maior a tendência de ficar ressecado”, explica Verdum. Isso interfere diretamente no desenvolvimento das plantas, sobretudo na cobertura vegetal herbácea, que tem um enraizamento mais superficial. “Mas aí entra no período de umidade – de maior umidade do ano ou de anos com maior umidade – e o areal diminui. Pode haver uma retração de 10 ou 11 metros em relação à margem, e depois ele aumenta. Então, ele funciona com um pulsar relacionado a essas variações de tempo curto.”
A pulsação a qual se refere o geógrafo também pode ser observada do alto. As medições por satélite ajudam a visualizar essa dinâmica, com crescimento das áreas arenosas nos anos 1990, diminuição nos anos 2000 e novamente aumento nos anos 2010. Dados do MapBiomas que mostram essa oscilação foram compilados para esta reportagem por Enzo Gonçalves Luciano, mestre em Ciências e engenheiro florestal pela Universidade Federal de Santa Catarina. Ele faz parte do programa de formação em ecologia quantitativa do Instituto Serrapilheira, entidade parceira na investigação Águas Partidas, coordenada pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP) em parceria com oito veículos de comunicação da região.

A figura apresenta a evolução da área ocupada por areais entre 1985 e 2024, considerando intervalos de cinco anos. As estimativas foram obtidas a partir da Coleção 10 do MapBiomas, utilizando a classe Praia, Duna e Areal, produzida por meio da classificação de imagens da série de satélites Landsat, com resolução espacial de 30 metros. Os valores representam a área mapeada nos dez municípios reconhecidos pela ocorrência dos areais. Além da área em hectares, a figura apresenta o percentual em relação à área total analisada em cada ano, permitindo avaliar sua variação ao longo da série histórica.
Para mostrar como diferentes satélites podem trazer resultados diversos, Luciano comparou as classificações de duas coleções do MapBiomas de 2023. A coleção do Landsat, resolução de 30 metros, indicou 3.459,5 ha, correspondendo a 0,11% da área dos municípios. Já o mapeamento baseado em imagens Sentinel-2, com resolução de 10 metros, estimou 9.498,9 hectares, equivalentes a 0,31% da mesma área.
Clique aqui para fazer o download da metodologia completa
Também por essas características, ainda que os satélites sejam fundamentais, algumas dinâmicas ligadas à arenização só podem ser compreendidas no território. Isso porque essas imagens não conseguem captar o que acontece debaixo das copas das árvores.
“O satélite, em uma visão vertical, revela a superfície a partir de uma temperatura. Então, o eucalipto, como é uma cobertura vegetal, recobre os areais e obscurece a reflectância do areal”, diz Dirce Suertegaray. A pesquisadora cita especificamente os eucaliptos porque, durante anos, houve um incentivo grande do poder público para que essa cultura fosse usada para barrar o que se acreditava ser uma expansão dos areais. Além disso, era, e em parte ainda é, vista como uma espécie capaz de trazer renda para produtores a partir da venda da madeira para a produção de celulose.
Porém, a geógrafa destaca que em algumas áreas, o processo de erosão continua se desenvolvendo em área de plantação de eucalipto. “Há evidências da dinâmica hídrica atuando [em regiões de plantação de eucalipto], com muitas formações de ravinas e às vezes voçorocas, inclusive provocando quedas de eucalipto, porque o solo é muito frágil.” Ravinas são sulcos que se formam em meio ao campo por onde a água escoa. Com o tempo, elas podem ir se aprofundando até encontrar o lençol freático, tornando-se então voçorocas.
Com um solo propenso à arenização, algumas áreas podem não ser de areais já consolidados no tempo, mas áreas degradadas ou em processo de degradação, devido ao inadequado uso e manejo da terra. Diferenciar essas áreas é fundamental para se estabelecer políticas públicas adequadas, visando à recuperação ou à preservação de cada espaço. Caneppele explica que este mapeamento está sendo feito hoje pelo Grupo de Pesquisa em Arenização/Desertificação a partir da identificação dos areais que existiam antes da introdução de maquinário para agricultura e da pecuária intensiva. Para determinar o que havia no Pampa antes da década de 1970, quando tem início a introdução de máquinas agrícolas pesadas, são usados relatos históricos de viajantes e até a literatura.
O viajante naturalista francês Auguste Saint’Hilaire, por exemplo, escreveu em 1822 sobre a região de Quaraí em Viagem ao Rio Grande do Sul: “Região muito plana, terreno arenoso e pedregoso, ótimas pastagens, mas onde a erva é baixa e pouco abundante; ainda um pouco de vegetação, mas nenhuma planta florida […]. Nenhuma casa nem gado; entretanto contavam-se outrora muitas estâncias, mas foram totalmente destruídas durante a guerra. […] Aí crescem pequenas árvores e arbustos que formam um capão muito denso e em redor dele são vistas ervas inflexíveis e altas pertencentes à família das compostas.”
Além disso, há as datações, que foram mencionadas anteriormente, e fotografias. “Existem fotografias aéreas de 1940 e de 1960. O que aparece nas fotografias de 1960 é areal natural, porque não havia maquinário na década de 60. Era pecuária extensiva, e pecuária extensiva não gera areal. Então, estamos adquirindo o banco de dados do Exército, e agora temos que fazer todo o mapeamento, a sobreposição dessas imagens, estamos trabalhando nisso”, conta Caneppele.
É importante destacar que, quando se fala em “natural”, não significa que não tenha havido nenhuma influência humana nesses locais, mas que são areais já consolidados ao longo do tempo. Verdum diz que pode ser uma “armadilha” tentar definir a paisagem como natural ou cultural. “A paisagem já é um híbrido, pela dimensão de intervenções humanas, ou sociais, em várias escalas. Desde uma escala local até global. Então, para mim, a paisagem é exatamente esta interface entre elementos dinâmicos, inclusive das naturezas e das sociedades humanas ao longo da história.”

Não há o que recuperar
A área total ocupada pelos areais pode ser pequena se comparada à extensão total do Pampa, são menos de 5 mil hectares em um total de 19,4 milhões de hectares do bioma. Porém, pode ser significativa individualmente, para cada proprietário que tem suas terras afetadas pelo fenômeno, já que ali não é possível plantar nem criar animais. Também por isso, durante décadas, se tentou “recuperar” os areais.
Os estudos e descobertas recentes, no entanto, permitem olhar para essas formações por outra perspectiva. “No início das pesquisas [na década de 1980], existia a visão de que os areais eram algo ruim, que deveria ser combatido, isso era um paradigma principalmente agronômico, de tentar fazer com que o areal não se expandisse. Mas hoje se sabe que os areais não se expandem”, ressalta Caneppele. “Já são mais de 35 anos falando que se sabe que não é degradação, que é algo natural o que acontece no Pampa.”
O geógrafo, que trabalha com areais há 14 anos, defendeu sua tese de doutorado em 2023 e, nela, explica como essas formações prestam importante serviço ao Rio Grande do Sul: ser área de recarga do Sistema Aquífero Guarani (SAG). “Quando a gente notou que eles tinham uma dinâmica de estar estagnados, veio o clique de: ‘opa, se eles estão ali e não se expandem, eles prestam algum tipo de serviço ambiental’.”
Caneppele percebeu que os focos de arenização e as áreas de recarga do SAG se sobrepunham. A partir daí foram feitas medições que comprovaram que a água se infiltra nos areais, que, por sua vez, a filtram e recarregam o aquífero. “Da precipitação média do Rio Grande Sul, a gente identificou que 14% do que chove, recarrega. Então, não é que 100% do que entra no areal que vai recarregar.” O geógrafo destaca que a água que se infiltra pelo areal não tem agrotóxico, como aquela que se infiltra no solo onde há plantações. “Não tem nada de contaminante sobre o areal. É um solo preservado. Então a água que cair ali, em tese, vai entrar limpa.”


Entender os areais como prestadores de serviços ambientais permite que se desenvolvam políticas públicas para sua valorização econômica. Com isso, uma das possibilidades seria incluir essas formações em um mecanismo de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) no qual proprietários rurais que adotam práticas de preservação e manejo sustentável do meio ambiente possam ser recompensados monetariamente por isso. Caneppele pesquisa o serviço de filtragem da água, mas há outros. “Tu podes ter serviço ambiental de biodiversidade, de paisagem. Há alguns movimentos para transformar o areal de Quaraí em uma unidade de conservação, em roteiro turístico, porque ele é muito particular. Já existem até visitas aos areais, uso turístico.” O site do governo do estado aponta o Sítio Complexo do Areal, ou simplesmente Sítio do Areal como destino turístico do Rio Grande do Sul. A formação está localizada na fronteira oeste do estado.
Esses pequenos pedaços de terra funcionam como pontos de infiltração da água da chuva, que abastece um dos maiores reservatórios subterrâneos do mundo, o Sistema Aquífero Guarani. “A gente pensou em um novo paradigma, não só com a minha tese, mas com uma série de pesquisadores, que se os areais são naturais e o paradigma é conservá-los. E nós temos aí também uma questão de modelo econômico capitalista que pressupõe uso.”
Os serviços hídricos prestados pelos areais poderiam valer até R$ 11,3 milhões (2,2 milhões de dólares) por ano, de acordo com os cálculos feitos por Caneppele em sua tese de doutorado. Para chegar a este valor, o geógrafo levantou o custo com tratamento de água de R$ 0,85 por metro cúbico e multiplicou pela área de arenização que recarrega e pelo valor estimado de recarga de 14% da precipitação. A partir disso, chegou a um total R$ 8,3 milhões (1,6 milhão de dólares) por ano, considerando uma precipitação anual de 1.400mm, e R$ 11,3 milhões por ano para uma precipitação de 1.900mm.
O geógrafo defende que essa valoração pode dar subsídios para a criação de políticas públicas de PSA, promovendo acesso à renda aos produtores rurais, sobretudo os pequenos, que auxiliarem na proteção dos areais e dos elementos da natureza que os compõem.
Os areais acabam sendo um espaço improdutivo, que não gera renda para a família e acaba promovendo perda econômica para os pequenos produtores. Por isso, a ideia de Caneppele é fomentar e apresentar aos proprietários rurais os serviços ambientais, integrando a conservação do areal para que ele preste esse serviço ambiental de filtragem com uma cadeia econômica. Essa valorização monetária incentivaria, de acordo com o geógrafo, o produtor rural a ficar na terra.
Atualmente, a cultura que mais aceita os solos arenosos da região é o eucalipto, que muitos produtores têm como uma fonte de renda a partir da venda da madeira para a produção de celulose. Porém, a silvicultura também provoca impactos em uma região formada principalmente por gramíneas e arbustos. No ano passado, o governo do estado publicou o Zoneamento Ambiental da Silvicultura (ZAS), que estabelece as diretrizes para a atividade de silvicultura no Rio Grande do Sul, buscando a conservação de ecossistemas naturais frente aos potenciais impactos ambientais decorrentes desta atividade econômica.
De acordo com o documento, áreas consideradas não consolidadas de areais podem ser utilizadas, desde que com manejo adequado e visando a estabilização do areal e geração de benefícios econômicos. Já áreas consolidadas localizadas dentro de projetos de silvicultura devem ser consideradas Reserva Legal, devendo ser estabelecida uma faixa de proteção visando a conservação da fauna, da flora e da paisagem. Atualmente, os areais considerados consolidados são aqueles identificados a partir do “Atlas da arenização: sudoeste do Rio Grande do Sul”, de 20001, organizado pelos geógrafos Dirce Suertegaray, Laurindo Antonio Guasselli e Roberto Verdum.
Embora à primeira vista, os campos do pampa e as áreas arenosas possam não conter grande biodiversidade, essa é uma falsa impressão. Os campos do Rio Grande do Sul, abrigam 12.503 espécies entre fauna, flora, fungos e bactérias, o que corresponde a cerca de 9% das que são atualmente conhecidas no país. Os dados foram publicados em janeiro pela revista internacional Frontiers of Biogeography e fazem parte de uma grande pesquisa assinada por mais de 120 pesquisadores de 70 instituições diferentes,
De acordo com o estudo, 622 espécies estão classificadas como criticamente em perigo de extinção, em perigo ou vulnerável. Vinte e três espécies já são consideradas extintas no bioma, 17 delas são plantas. Porém, ainda falta muito para se saber o grau de ameaça ao qual as espécies estão submetidas. O estudo aponta que apenas cerca de um terço das espécies registradas foram estudadas o suficiente para identificar esse dado.
Para a região dos areais do sudoeste do Rio Grande do Sul, um cruzamento de dados feito para esta reportagem pelo engenheiro florestal Enzo Gonçalves Luciano relacionou a ocorrência dos ecossistemas arenosos com registros de biodiversidade e áreas prioritárias para conservação determinadas pelo Ministério do Meio Ambiente do Brasil (MMA). As informações do mapa nos permite verificar que várias espécies com algum grau de ameaça estão em áreas de arenização ou próximas dos areais, o que corrobora a importância da preservação dos ecossistemas locais.
Luciano fez a delimitação dos dez municípios com ocorrência de areais a partir da tese de Caneppele e apontou as áreas arenosas conforme a Coleção 10 do MapBiomas (ano de 2024). Em razão da reduzida extensão espacial desses ambientes, foi considerada uma área de influência de 5 quilômetros ao redor das formações arenosas para consulta aos registros de ocorrência de espécies com algum graus de ameaça. As espécies foram compiladas a partir da base de dados da rede internacional GBIF — Sistema Global de Informação sobre Biodiversidade e do speciesLink, infraestrutura digital da América do Sul criada para integrar e compartilhar dados científicos sobre a biodiversidade.

O mapa mostra apenas a ocorrência de espécies classificadas nas categorias Vulnerável (VU), Em Perigo (EN) e Criticamente em Perigo (CR), conforme listas nacionais e internacionais de conservação, complementadas pelas informações da Flora e Funga do Brasil para verificação do endemismo de espécies vegetais. Também incorpora a sobreposição com as Áreas Prioritárias para Conservação do Bioma Pampa, disponibilizadas pelo MMA, permitindo integrar informações sobre a distribuição dos ecossistemas arenosos, biodiversidade ameaçada e áreas prioritárias para conservação.
Associadas aos areais, há inúmeras espécies nativas e endêmicas, ou seja, que só ocorrem em uma determinada região, ou adaptadas aos campos arenosos. Entre as espécies comumente encontradas nessas formações estão o lagarto-espinhoso (Tropidurus catalanensis) e o butiá anão (Butia lallemantii) e o capim limão (Elyonurus SP).
Entre espécies de fauna com algum risco de ameaça, segundo o levantamento feito por Luciano, estão bugio-ruivo (Alouatta guariba), a lagartixa das pedras (Homonota uruguayensis) e o gato-palheiro (Leopardus colocolo). Da flora, há risco para espécies de cactáceas como a Echinopsis oxygona e Parodia ottonis.


Segundo pesquisadores como Verdum e Caneppele, a diversidade biológica dos areais e seu entorno indica que a arenização pode ser desconsiderada como degradação ambiental. Porém, as dinâmicas sociais de ocupação do solo podem acelerar processos erosivos e de supressão de fauna e flora nativas.
Mudanças climáticas e degradação
“Sabe o que eu fiz? Sexta-feira eu levei o gado para o remate e vendi tudo.” A decisão do produtor Cevi Siqueira, de São Francisco de Assis, município do sudoeste do Rio Grande do Sul, de se desfazer em junho de seus 28 animais se deu por causa da previsão de um super El Niño que começa já entre julho e setembro deste ano. “Se da outra vez aconteceu o que aconteceu, imagina agora”. Ele se refere a 2024, quando uma mistura de fenômenos metereológicos fez com que se abatesse sobre o Estado sua maior tragédia climática. Naquele ano, mais de 6 milhões de pessoas foram afetadas, de acordo com levantamento divulgado em julho deste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 478 municípios, pelo excesso de chuvas que provocou enchentes, deslizamentos de terra, cheias e enxurradas. A Defesa Civil do Estado contabilizou 185 mortes e os prejuízos econômicos são estimados na casa dos bilhões de reais.
Naquele ano, Siqueira precisou levar seus animais para a terra de um vizinho para salvá-los das águas que invadiam sua propriedade. Mesmo assim, perdeu nove vacas. A água ficou a 20 centímetros de sua casa. Durante 12 dias, ele esperou a água baixar. Depois que baixou, não havia mais comida para os animais, pois o pasto estava apodrecido. Agora, ele resolveu se precaver e ficou somente com as ovelhas, que “é só colocar na caminhonete e levar”.

Por ser um solo frágil, a terra arenosa dessa região do Rio Grande do Sul é bastante afetada pela ação da água e dos ventos. Roberto Verdum conta, por exemplo, que uma grande voçoroca surgiu em São Francisco de Assis entre 1983 e 1984, quando houve um forte El Niño. Naqueles anos, a intensidade e o volume das chuvas fez com que açudes transbordassem e a água abrisse sulcos no solo. Hoje, a visão da voçoroca lembra um cânion, tem 300 metros de comprimento e 80 metros de largura na cabeceira. O geógrafo, que visita a região desde 1990, diz que a presença de vegetação indica que a formação está aparentemente estabilizada. Porém, o El Niño que se avizinha pode mudar esse cenário.

Como as mudanças climáticas irão impactar os areais ainda é uma pergunta sem resposta. Por enquanto, há hipóteses. Ainda que os areais não estejam aumentando, como apontam pesquisadores como Verdum, Suertegaray e Caneppele, a intensificação de eventos climáticos extremos pode desencadear processos erosivos que geram voçorocas e ravinas. Através desses canais a areia solta é levada, com o tempo ela vai se acumulando no leito dos rios e no campo, formando novos areais.
Siqueira testemunhou a formação de uma grande ravina ano passado em sua propriedade. “Aqui no fundo a abriu um buracão, precisa ver. Tem lugar que tem uns 6 metros de fundura por uns 200 metros [de comprimento] mais ou menos.” O criador de ovelhas conta que a enchente de 2024 provocou o assoreamento do rio próximo e, no ano passado, com as fortes chuvas, o rio transbordou em direção à sua propriedade, abrindo uma ravina no solo. Siqueira, que mora há cerca de 30 anos ali, não tem dúvidas de que as chuvas intensas têm aumentado. E ele está certo.


Ao analisar para esta reportagem os dados históricos de 37 estações pluviométricas da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) instaladas nos municípios com areais, o físico Sandro Pauli identificou um cenário de aumento das chuvas entre 1940 e 2024. Testes estatísticos aplicados a essa série histórica de mais de 80 anos avaliaram a evolução do acumulado médio anual, o aumento do volume máximo que cai em um único dia e a frequência de temporais extremos, superiores a 100 milímetros diários. Em todos os cenários, o resultado foi o mesmo: há uma tendência clara, crescente e estatisticamente significativa. A validação desses testes comprova que as mudanças observadas ao longo das últimas décadas não são oscilações passageiras, mas reflexo de uma transformação climática na região.

Essa transformação também já havia sido identificada em estudo de 2019, do qual Verdum é um dos autores. A dinâmica das chuvas torrenciais na região dos areais se tornou mais frequente e, por vezes, mais intensa, no decorrer dos 90 anos de dados analisados. A pesquisa destaca ainda o quanto há uma conexão sistêmica entre o que acontece no Rio Grande do Sul e em outras partes do país. O estudo mostra a associação entre o aumento de chuvas extremas na região à maior participação de eventos meteorológicos de difícil previsão, chamados Complexos Convectivos de Mesoescala. Estes, por sua vez, se formam a partir da intensificação dos Jatos de Baixos Níveis (JBN), que são correntes de ventos fortes que ocorrem entre 1 e 3 quilômetros de altitude e transportam grande quantidade de ar quente e umidade da bacia Amazônica para a bacia do Prata.
Em solos como os do sudoeste do Rio Grande do Sul, as chuvas extremas intensificam a erosão, amplificando os processos de arenização nas encostas e carregando sedimentos para os cursos d’água. Verdum entende que o aumento das chuvas causado pelas mudanças climáticas pode, principalmente, provocar problemas em áreas suscetíveis à arenização e processos erosivos, “que são essas que normalmente se dá pelo mau uso da terra, de colocar maquinário”. Nesses locais é necessário um cuidado e um manejo adequado do uso e ocupação da terra. Neste sentido, o pesquisador aponta que falta ao Brasil um mapeamento sobre uso do solo. “A ideia não é plantar soja em tudo, soja onde a soja dá melhor. É usar máquina onde a máquina aguenta. Então, a capacidade adaptativa que a gente tem que ter frente às mudanças climáticas, é saber onde a gente tá trabalhando”.
Este projeto é resultado de uma colaboração entre jornalistas e cientistas latino-americanos, promovida pelo Instituto Serrapilheira, do Brasil, e pelo Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLIP), com o objetivo de explorar o ciclo hidrológico Atlântico – Amazônia – Andes e as perturbações nos serviços ambientais que ele proporciona ao continente.




