As vítimas mais recorrentes dos ataques digitais contra ambientalistas no Panamá são mulheres. Os casos de Raisa Banfield, Camila Aybar e Martita Cornejo revelam como funcionam as operações para desacreditar e assediar nas redes sociais.
Por Daniel Molina Alarco
Quando o presidente panamenho José Raúl Mulino anunciou sua intenção de reabrir Cobre Panamá, a maior mina a céu aberto da América Central, Raisa Banfield, arquiteta e uma das vozes mais visíveis do movimento ambientalista no Panamá, soube que os ataques contra ela voltariam. Basta escrever nas redes sociais uma crítica à mineração para acionar um mecanismo de linchamento digital. Reprovam-na por usar produtos fabricados com minerais. Zombam de suas propostas ambientais para reativar a economia. Questionam a legitimidade de seu ativismo. São agressões que, para ela, não são isoladas: parecem uma campanha orquestrada na qual os defensores ambientais ocupam a linha de frente.
“No início era muito forte e vem a depressão”, diz Raisa, de seu escritório no Centro para a Integração da Natureza e Cidades, onde dirige a seção de Desenvolvimento Sustentável. “Tenho mais de vinte anos com uma voz própria, a um custo muito alto — pessoal, profissional e político.”
No Panamá, muitas pessoas que se opuseram à reabertura da concessão minerária Cobre Panamá (declarada inconstitucional duas vezes pela Corte Suprema de Justiça), ou que questionaram os danos causados por projetos como o Puerto Barú, ou que simplesmente defendem o meio ambiente, sofreram assédio digital, acoso judicial ou represálias profissionais. A Raisa fabricam dezenas de vídeos em plataformas digitais classificando-a de má liderança; a assediam em podcasts para forçá-la a um tour pelas instalações da mina; a chamam nas redes sociais de mentirosa e de opositora ao crescimento econômico. São ataques que figuras da mídia e líderes de opinião replicam e que ocupam manchetes, como a célebre: “Ex-ministro repreende Raisa Banfield por sua oposição ao desenvolvimento econômico do país”, publicada no jornal Panamá América em novembro de 2025.
Ela diz acreditar que quem a ataca tem um respaldo institucional que os blinda de represálias legais por calúnia ou injúria. O assédio cobra um preço no plano emocional e também profissional: há algum tempo, deixaram de convidá-la para certos espaços onde pode contribuir com sua experiência em temas de arquitetura e cidade. Os ataques que recebeu nos últimos anos acabaram por manchar sua imagem e ela lamenta que agora a enquadrem como “conflituosa” ou “problemática”.
“Tudo isso é muito sensível — diz a ambientalista panamenha —, porque trabalho com a academia, coordeno um centro de pesquisa para estudantes, e isso afeta minha posição. É algo que me condena, que me limita, e é uma forma de me desanimar, de dar a entender que se eu fizer ativismo ou tiver uma expressão pública, então não posso me dedicar à minha profissão.”
@panamaprogresa_507 Nuestros amigos pseudoambientalistas antitodo pro-izquierda que quieren ver al país quebrado nos dicen que el loro de Panamá es verde. @El Loro de PTY ? sonido original – Progresa Panamá 507
Um dos vídeos fabricados para atacar Raisa Banfield e ambientalistas.
Banfield diz que sempre houve críticas ao ativismo ambiental no Panamá, mas que a campanha pela abertura da mina escalou o assédio a outro nível.
Ataques planejados
As estatísticas respaldam a intuição de Raisa sobre uma “estratégia articulada”. Uma investigação colaborativa e transfronteiriça, Taladores Digitales (Madeireiros Digitais), realizada pela Concolón em aliança com o Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP) e outros seis veículos da região, evidencia padrões do assédio digital sofrido pelos defensores ambientais no Panamá no X, TikTok e Instagram. São estigmatizados como inimigos públicos, assediados de forma persistente, difamados com conteúdo fabricado, usurpados por meio de deepfakes e expostos publicamente por meio da revelação de seus dados pessoais. Entre os atacantes há contas com identidade fictícia e de fachada informativa, referências da mídia e influencers com milhares de seguidores.
Camila Aybar, comunicadora, criadora de conteúdo digital e ativista ambiental, também foi vítima de ataques. Durante os protestos antimineria de 2023, ela decidiu anunciar publicamente que viajaria para assistir a um show cujos ingressos havia comprado meses antes de as mobilizações começarem. Temia que alguém a fotografasse no aeroporto ou a acusasse de abandonar a causa. Por isso, gravou um vídeo para explicar. Enquanto o gravava, chorou.
“Quando você é ativista, de verdade se sente mal por tirar um tempo livre. As pessoas não entendem isso, mas você carrega uma culpa constante por tudo o que faz”, diz hoje Aybar, fundadora do grupo 5Gatos e uma das líderes do movimento Sal de las Redes, que articulou os massivos protestos antimineria de 2023.
Desde aquele episódio, seus detratores continuam chamando-a de “la Swifty”, uma etiqueta que, segundo ela, busca o descrédito e reduzir seus seis anos de ativismo ambiental a uma única decisão pessoal.
instagram.com/reel/C0MMmAkuEKQ/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=NTc4MTIwNjQ2YQ==
Aybar sabe que quando várias pessoas lhe enviam o mesmo link por mensagem direta, é porque surgiu um novo ataque contra ela. Quando está trabalhando para uma organização, assessorando clientes ou viajando pelo país, as notificações começam a chegar. Abre o Instagram ou o TikTok e encontra um novo vídeo, uma nova publicação ou uma nova campanha.
“Estou normal, no meu dia, e chegam os vídeos”, diz.
Durante anos guardou capturas, links e vídeos dos ataques. Mas chegou ao ponto do esgotamento.
“Acho que o que mais me marcou é quando usam inteligência artificial com minha voz, meu rosto e meu corpo para fazer vídeos onde pareço dizer coisas que nunca disse — diz Aybar. — Depois esses vídeos se tornam virais e as pessoas acreditam que são reais.”
@ellorodepanamaesverde En Panamá ya no solo discutimos de política, Ni si la niña sabe que es un hombre y una mujer… ahora debatimos si los loros son transexuales. ??? Definitivamente, hay quienes confunden libertad de pensamiento con falta de pensamiento. #Panamá #PTY #507 #PanamaCity #Panama507 ? sonido original – El Loro de PTY
Um vídeo deepfake fabricado com inteligência artificial imitando Camila Aybar.
Quem aparece na tela se parece com ela. Fala como ela. Mas a mensagem é delirante, maliciosa, e tem uma clara intenção de desprestigiá-la. São vídeos criados com inteligência artificial, conhecidos como deepfakes. Provocam insegurança na vítima e borram a linha que divide a percepção entre o real e o falso. Ver seu próprio rosto e ouvir sua própria voz dizendo mentiras fabricadas por outros gera um profundo choque, diz Aybar. E ela teme que esses vídeos joguem fora os anos que leva como ativista.
“Tenho medo de perder a reputação e a credibilidade que me custou tanto tempo construir”, diz.
Uma análise de mais de 500 mensagens de assédio a ambientalistas panamenhos traz dezenas de registros de deepfakes ou falsificações de identidade direcionados contra oito pessoas distintas. A sofisticação técnica que essas peças exigem sugere um nível de coordenação difícil de produzir por atores espontâneos ou improvisados. O resultado é conteúdo que pode confundir o público, prejudicar a imagem de ativistas contrários à mina e turvar o debate sobre o impacto ambiental que a mineração a céu aberto tem no Panamá.
“Também foram feitos vídeos meus dizendo que a mim me paga o partido comunista e os patrocinam no YouTube“, diz Aybar. “Sai primeiro o anúncio de Cobre Panamá e depois um anúncio dizendo ‘Camila mentirosa’, ‘Camila comunista’ ou ‘Conheça a Camila’, e aparece um personagem fictício animado igualzinho a mim. Você vai me dizer que esses dois anúncios estão juntos assim do nada?”.
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Aybar fez um reel em suas redes sociais para mostrar a sequência das fake news que circulam.
O mesmo vídeo é distribuído por dezenas de contas no X (ex-Twitter), TikTok e Instagram: um comportamento que sugere mais tratar-se de algo coordenado do que de indignação espontânea.
Navegar o ódio online
Os anos de ataques ensinaram Banfield a identificar padrões: quais contas atuam como bots, quais amplificam conteúdo pró-mineração e quem orbita em torno da campanha digital.
“Estou no Twitter (X) desde 2010 — diz ela. — É uma rede que te ensina a identificar quando se trata de criar um terreno lamacento para que você caia e depois gerar controvérsia em um veículo de comunicação formal para que você pareça a histérica, a louca.”
Contas anônimas, comentaristas e figuras públicas favoráveis à reabertura minerária repetiam um dos apelidos que começou a circular contra ela por seu ambientalismo: “a arquiteta mentirosa”.
?????
La arquitecta mentirosa, la señora de los pájaros: no genera empleo, lo destruye. A punta de falacias, vende humo mientras el país paga la factura aho tiene su 10,4% de desempleo.
Una de las responsables del desempleo inducido. https://t.co/U6PLXEVfod— El Loro De Panamá Es Verde (@LoroVerdeDePTY) April 4, 2026
A investigação Países Minados II, da Concolón, CLIP e La Voz de Guanacaste, documentou uma campanha pró-abertura da mina a céu aberto da canadense First Quantum Minerals para reposicionar o projeto Cobre Panamá junto à opinião pública. A própria empresa reconheceu em uma circular interna do ano passado “uma forte oposição à mina no Panamá”, e a atribuiu, aparentemente, a erros de comunicação: “poderíamos ter agido de forma diferente e nos comunicado mais amplamente no país.” A solução encontrada foi articular um ambicioso plano de comunicações que, desde o início de 2024, alcançou centenas de milhares de panamenhos, levando-os a visitas guiadas, dando palestras em universidades e participando de mais de 150 eventos de discussão sobre a mina.
O Taladores Digitales acompanhou agora o perfil das contas que hoje atacam Raisa, Camila e outras defensoras.
Post de @elloroverdedepanama.
O assédio digital não afetou apenas os ativistas panamenhos que mobilizaram os protestos nas ruas em defesa do meio ambiente. Os ataques também impactaram quem lutou contra a mineração nos tribunais. Esse foi o caso da advogada ambiental Martita Cornejo, uma das advogadas que acionou a inconstitucionalidade do contrato-lei que ratificou a gestão do presidente Laurentino Cortizo com a Minera Panamá em 2023.
A campanha coordenada contra Cornejo começou em 23 de abril de 2026, acusando-a de ocupar simultaneamente dois cargos públicos (na Prefeitura de San Miguelito e na Assembleia Nacional), o que é ilegal no Panamá. Mas a folha de pagamento do município, que é pública e de acesso livre, assim como uma fonte institucional, confirmaram que a advogada não trabalhava na primeira entidade desde 31 de dezembro de 2024. Então, a campanha mudou de forma para chamá-la de “fantasma” (cobrar sem trabalhar) no Legislativo.

O levantamento do Taladores Digitales registrou dezenas de mensagens no X, TikTok e Instagram, com uma produção replicada por uma lista de contas semelhante à dos ataques contra Raisa Banfield e Camila Aybar. O jornal La Crítica publicou uma nota difamatória e o jornalista Atenógenes Rodríguez, do programa Cuarto Poder, fez eco da narrativa. À cadeia, constantemente replicada por uma rede de contas pró-mina, somaram-se influencers como a advogada Karisma Karamañites, com mais de 70 mil seguidores no TikTok, que a acusou ainda de ser uma ativista “financiada pelo Estado”. Diante de todos esses ataques, a chefe de Cornejo, a deputada Alexandra Brenes, desmentiu a acusação nas redes.
Martita es parte de mi equipo de trabajo desde febrero 2026, es una profesional que cumple con su horario, funciones y sí, también denunciamos lo que está mal. No dejaremos de actuar, así les incomode y manipulen la información. Sigan cobrando ?, nosotros seguiremos trabajando !
— Ale Brenes (@AlexandraBrene6) April 24, 2026
Em paralelo, a Controladoria Geral da Nação suspendeu o pagamento do salário de Cornejo e de alguns de seus colegas de trabalho da bancada independente VAMOS. O controlador, Anel Flores, justificou a medida com base em uma auditoria de um período anterior ao ingresso de Cornejo na Assembleia Nacional — ela ingressou em 2 de fevereiro de 2026; a auditoria é de 2025. Cornejo e outros funcionários denunciaram o controlador Anel Flores na Justiça por abuso de poder e falsidade.
Por cierto, no vamos a retirar nuestra denuncia por abuso de autoridad, usurpación de funciones públicas y falsificación de documentos, señor @boloflores
Para remate hoy habla de peculado ! pic.twitter.com/8HQ70h3NF8— Martita Cornejo R. (@martitacornejor) May 8, 2026
“Nem sequer estou recebendo onde trabalho e me chamam de fantasma”, diz a advogada ambientalista, que já recorreu a processos legais e apresentou provas que contradizem a posição oficial. “Não podemos nos acostumar com isso.”
Violência de gênero
Como confirma a base de dados de assédio digital a ambientalistas, no Panamá os ataques ocorrem com maior frequência contra as mulheres. O estudo Seguras en Línea do Instituto Panamericano de Derecho y Tecnología (Ipandetec), realizado entre 2021 e 2023, documentou as principais causas de violência online. Oito em cada dez pessoas afirmam ter sido vítimas de assédio ou perseguição digital ao menos uma vez na vida. A maioria era mulher ou membro da comunidade LGBTIQ+.
“Já me aconteceu de pegarem fotos minhas fora de contexto, colocarem em algum lugar e usarem hashtags sexuais”, diz Aybar.
Para a advogada especializada em direito digital Lía Hernández, os ataques não ocorrem ao acaso. As mulheres continuam sendo “o elo mais fraco” dentro de estruturas conservadoras e machistas. E quando são figuras midiáticas, como Raisa Banfield ou Camila Aybar, o assédio digital se intensifica pelo choque com interesses políticos e econômicos em torno da mineração.
O fenômeno transcende o Panamá. Um relatório da Global Witness sobre ameaças digitais contra defensores ambientais constatou que nove em cada dez ativistas sofreu assédio ou abuso online relacionado ao seu trabalho. Muitos descreveram um mesmo padrão: atacantes anônimos, fazendas de troles e difusão de conteúdo falso como deepfakes. É um roteiro universal: as mulheres recebem ataques focados em sua aparência, moralidade e sexualidade, como acontece com Aybar com a hipersexualização de suas imagens.
Muitas pessoas decidem não denunciar a violência digital. De acordo com Hernández, os ativistas não recorrem às autoridades por desconhecimento ou por não confiar nos funcionários judiciais competentes. Além disso, do ponto de vista psicológico, as vítimas evitam os mecanismos legais para não serem questionadas ou revitimizadas durante o processo.
Após reunir as provas, em 3 de fevereiro de 2026, Aybar denunciou à Promotoria especializada em Delitos Informáticos que invadiram uma conta que ela não usava desde a adolescência. Os atacantes extraíram fotos dela e as difundiram sem seu consentimento em redes e grupos. A Justiça ainda não conseguiu localizar os culpados.
instagram.com/reel/DUTdyDYESeJ/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==
“Isso não é uma brincadeira, não é um boato, é um processo legal onde minha dignidade, minha integridade, minha honra, minha privacidade e minha saúde emocional são gravemente afetadas”, disse em uma publicação compartilhada em suas redes sociais.
Apesar dos ataques, Camila Aybar continua gerando conteúdo ambiental em seus canais digitais. Raisa Banfield permanece ativa se pronunciando em defesa do meio ambiente em veículos e redes sociais. Martita Cornejo segue em sua luta por defender o meio ambiente por meio de iniciativas legislativas. A qualquer momento pode surgir um novo deepfake, outra mensagem violenta ou uma nova ameaça. Mas as três parecem concordar em algo: nada as silenciará.
As vozes de milhares que protestaram nas ruas contra a mineração no Panamá em 2023 mudaram o paradigma. Diante de uma consciência ambiental cada vez mais visível no país, o debate sobre a reabertura de Cobre Panamá parece ser ofuscado por uma discussão mais urgente: por que quem defende o meio ambiente é alvo de ataques sistemáticos como os que o Taladores Digitales revela?
Devastadores Digitais é uma investigação que busca desvendar quais interesses estão por trás das campanhas de descredibilização no espaço digital contra ativistas ambientais em seis países latino-americanos, coordenada pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP), em parceria com AFP (Brasil), Colombiacheck (Colômbia), Agência Ocote (Guatemala), Contracorriente (Honduras), Animal Político e Mongabay LATAM (México) e Concolón (Panamá). Com o apoio da “Global Initiative for Information Integrity on Climate Change” e a revisão jurídica da El Veinte.







