No páramo colombiano de Cumbal, um projeto de carbono prometia pagar pelos serviços de conservação prestados por dezenas de indígenas e camponeses. Eles não viram sequer um centavo da venda dos créditos de carbono, mas continuam realizando um trabalho valiosíssimo para proteger esses ecossistemas andinos, dos quais dependem milhões de colombianos e que ajudam a alimentar a bacia amazônica. Estas são suas histórias.
Andrés Bermúdez Liévano (CLIP)
O páramo de Cumbal, no extremo sudoeste da Colômbia, fornece grandes quantidades de água às cidades andinas, mas vem sofrendo cada vez mais com atividades que transformam seu solo e comprometem sua capacidade de prestar esse serviço ambiental. São os dois lados da moeda desses ecossistemas no alto dos Andes, parte de um circuito hídrico continental que circula entre o oceano Atlântico, a Floresta Amazônica e a cordilheira dos Andes, em um movimento de vai-e-vem.
Nesse canto do departamento de Nariño, um quinto da vegetação do páramo já deu lugar à colcha de retalhos verde e amarela das pequenas propriedades familiares voltadas à pecuária leiteira e ao cultivo de batata. Trata-se de uma tendência comum na Colômbia, onde, em média, os páramos responsáveis pelo abastecimento de água de um terço da população já perderam 15,4% de sua vegetação para o pastos, lavouras de ciclo curto, mineração de carvão e a expansão urbana. Em Guerrero e no Altiplano Cundiboyacense, ambos no centro do país, a devastação do páramo já ultrapassa a metade de sua área original. Pouquíssimos permanecem quase intactos. Do outro lado da fronteira com o Equador, o páramo de El Ángel, que faz divisa com Chiles-Cumbal, enfrenta um dilema semelhante: a pecuária e a agricultura corroem suas bordas ano após ano, mas ele também abriga um parque nacional com uma paisagem tão monumental que o Equador o indicou este ano a Patrimônio da Humanidade.

Cerca de 300 mil pessoas dependem da água do complexo de páramos Chiles-Cumbal, originada em grande parte na Amazônia, levada aos Andes na forma de chuva e carregada pelos rios até o oceano Pacífico.
Ipiales, a cidade mais alta da Colômbia, capta sua água de um rio que nasce nesse páramo. Ainda assim, as autoridades locais não investem em sua preservação. Devido ao descarte de resíduos rio acima, em Cumbal, e a anos de atrasos na construção de uma nova estação de tratamento, a água potável chega com péssima qualidade e de maneira intermitente. De tempos em tempos, os moradores de Ipiales vão às ruas para fechar as ruas em protesto. Tumaco, o segundo maior porto da Colômbia no oceano Pacífico e uma das regiões com os maiores índices de pobreza e violência do país, capta sua água de um rio cujas nascentes se encontram nesses páramos. O próprio município de Cumbal, com quatro territórios indígenas (ou resguardos, em espanhol) da etnia Pasto que somam 32 mil habitantes, também depende inteiramente dessa água.
Em meio a tantos problemas, um pequeno grupo de pessoas cuida com afinco dessa cadeia de páramos e mantém o fornecimento de água. Neste artigo, vamos contar suas histórias.
Em Chiles-Cumbal, os indígenas cuidam do território de forma voluntária. Não recebem nenhum apoio do cabildo, o governo da comunidade. Ocasionalmente, são beneficiados por programas liderados por órgãos governamentais (como o atual Páramos para a Vida, do Instituto Humboldt) ou por ONGs ambientalistas. Um projeto de venda de créditos de carbono sediado em Cumbal prometeu, em 2022, financiar a preservação dos páramos e da floresta de neblina, mas a maioria das pessoas nem ficou sabendo disso (conforme detalhado na reportagem “O páramo que recebe pagamento por seus serviços hídricos, mas não vê esse dinheiro“, da série Águas Partidas). Até o momento, ninguém sequer viu a cor desses créditos de carbono.
Este é um álbum incompleto, mas expressivo, que conta a história de nove pessoas que assumiram a missão de atuar como guardiãs do páramo e da água. Ele faz parte da investigação Águas Partidas, coordenada pelo Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (CLIP) em parceria com o Instituto Serrapilheira e oito veículos de imprensa latino-americanos.
A propagadora de sementes difíceis

“O monte nevado tem natureza, tem enxofre, tem gelo e é lindo. Ele tem nuvens e lá do alto dá para ver lagoas, umas casinhas de frailejones e umas arvorezinhas”, relatou Liliana Alpala no curta-documentário ‘Los niños del hielo’ (‘As crianças do gelo’), protagonizado por ela há três décadas. Na época, sua família extraía gelo e enxofre da cratera fumegante do vulcão Cumbal para vender. Hoje, ela se dedica a cuidar dessa ‘casinha’ e dessas ‘arvorezinhas’.
Há treze anos, desde que fundou o viveiro Monos Dorados del Sol, Alpala é reconhecida como uma das pessoas mais habilidosas do país na propagação de plantas nativas. Esse talento a levou a ser coautora do livro científico ‘Viveros de páramo’ (‘Viveiros de páramo’), publicado em 2021 pelo Instituto Humboldt, órgão governamental responsável pelas pesquisas sobre a biodiversidade na Colômbia. Seu viveiro original não está ativo no momento, mas ela está construindo uma nova estrutura a um quilômetro do local anterior, onde espera voltar a cultivar 12 mil mudas.
A maior paixão de Liliana, hoje aos 37 anos, é germinar as sementes mais difíceis, recorrendo a técnicas que aprimorou em oficinas ao longo dos anos: de deixá-las de molho em água de coco (como no caso do chilco, com suas pequenas flores brancas em forma de sininho) até levá-las à fervura para amolecer e soltar a casca rígida (como a acácia, muito utilizada como lenha). Com esses truques, ela conseguiu reduzir o tempo de propagação de espécies complexas, como o capote (ou polylepis) de seis meses para apenas um.
No caso do ibilán, um arbusto de flores arroxeadas usado como corante natural, cuja semente é tão minúscula quanto dura, ela utiliza uma lixa e depois a lima. Para a pichanga, um arbusto da família dos sietecueros que atrai muitos beija-flores, ela deixa a semente duas semanas de molho em água da chuva na geladeira. Já a espécie que ela mais sonha em propagar, e que até agora tem sido um desafio, é uma árvore de folhas alongadas e minúsculas flores alaranjadas chamada chita ou quishuar. “Eu vou dar um jeito. Já sei onde encontrá-la”, garante. “Quando a gente começa a propagar, passa a olhar as árvores de outro jeito. Fica atenta ao período de floração, e a quando a semente aparece nos galhos”.
Além dessa iniciativa ‘comercial’, Alpala também faz um trabalho ‘comunitário’: incluindo um coletivo e a biblioteca comunitária “Saberes de los Machines”, criada com a ajuda de seus vizinhos para tratar de temas ambientais. Mas ela ainda tem outra frente, que chama de ‘pessoal’: um lote familiar de 5 hectares de páramo que vem restaurando gradualmente. Tudo isso foi realizado com recursos provenientes de alguns programas estatais e de ONGs ambientalistas, sem receber um centavo sequer do projeto de crédito de carbono.
Todos esses esforços se alinham ao que os cientistas definem como restauração ecológica comunitária ou participativa, estratégia que busca recuperar a biodiversidade, as funções e o equilíbrio de um ecossistema com o envolvimento direto de quem nele habita.
“É fundamental que essas iniciativas locais participem da tomada de decisões sobre o que restaurar, onde e como fazer, justamente pelo profundo conhecimento dessas pessoas em relação ao territória, graças ao convívio diário com a montanha”, explica a ecóloga tropical Diana Isabel Jiménez, doutoranda na Universidade de Marburgo, sobre este e outros 19 processos comunitários semelhantes em cinco estados do país.
Segundo ela, a atuação desses projetos é essencial, já que os moradores locais conhecem a dinâmica da paisagem, as espécies mais adequadas para cada área e os pontos estratégicos para proteger as fontes hídricas. “Mas eles também valorizam esses ecossistemas por uma dimensão cultural, pois fazem parte de sua história no território, de seus ancestrais e até de suas origens”, acrescenta Jiménez, que há mais de uma década estuda a zona de transição entre páramos e florestas de neblina.
Antes de se tornar militante, ainda aos oito anos, Liliana Alpala falava em ‘Los niños del hielo’ sobre um ofício que não existe mais. Mas sua fala no encerramento daquele documentário soa quase premonitória: “Se o Cumbal acabasse, a gente ficaria na miséria”.
O detetive da doença do frailejón

Um dos segredos mais bem guardados dos frailejones, plantas altas e esguias batizadas assim por lembrarem monges na neblina, são suas folhas em forma de roseta e recobertas por uma fina plumagem. É essa estrutura que lhes permite capturar a umidade da neblina e conduzi-la ao solo do páramo. E é justamente esse mecanismo que seu grande inimigo vem destruindo: a larva de uma mariposa recém-descoberta pela ciência, que se alimenta dos tecidos tenros das folhas mais novas.
Há dois anos, Andrés Chalparizan vem investigando essa enfermidade, identificada pela primeira vez no páramo de Chingaza em 2009 e que parece ter se espalhado por outros páramos do país. Ele iniciou esse trabalho como parte de um projeto da Corponariño, a autoridade ambiental do departamento, na lagoa Azufral, um páramo próximo que também integra o complexo Chiles-Cumbal. Naquela altura, ele inspecionava um grupo de 70 frailejones a cada três meses, medindo o crescimento da roseta, contando folhas e flores, verificando a produção de sementes e checando a presença de eventuais necroses.
Com isso, Chalparizan compreendeu que a mariposa-pluma, espécie descrita pela primeira vez em 2014 por biólogos da Universidade Jorge Tadeo Lozano, deposita seus ovos no interior do frailejón. As larvas de tom ocre encontram ali um verdadeiro banquete, deixando manchas escuras e folhas deformadas por onde passam. O problema central começa aí: ao devorarem os meristemas, os tecidos jovens da planta, elas comprometem seu crescimento, que ocorre do centro da roseta para fora. Para completar, fazem com que as flores amarelas, que se projetam para o alto, produzam sementes inférteis.
Embora a origem e os sintomas já tenham sido identificados, a razão de sua rápida proliferação permanece um mistério: uma das hipóteses relaciona o problema às mudanças climáticas, que teriam favorecido a reprodução da praga e estimulado o surgimento de novas doenças, parasitas e espécies invasoras capazes de alterar o equilíbrio dos ecossistemas.
A preocupação de Chalparizan, técnico em viveiros de 43 anos, aumentou quando ele detectou a doença no páramo situado próximo de sua casa. Em parte porque sempre foi fascinado por essa planta emblemática, estampada na moeda colombiana de 100 pesos e esculpida nos dois lados da porta de sua residência. “Agora que sabemos que eles capturam a umidade da neblina e a liberam gradualmente no solo, como não iríamos aprender a cultivá-los?”, questiona. No quintal de casa, ele vem tentando reproduzi-los, enquanto alimenta o sonho de criar um viveiro dedicado exclusivamente aos frailejones, iniciativa que chegou a iniciar, mas não conseguiu dar continuidade por incertezas sobre sua viabilidade econômica. “Quem vai comprar? Como vou mantê-los se demoram dois anos para ser transplantados? Em muitas dessas iniciativas ambientais, esbarramos na barreira financeira”, desabafa ele, que tem atuado como um autêntico ‘curinga’ (bombeiro, viverista, restaurador) nos projetos de preservação do páramo. Do projeto de créditos de carbono, contudo, não viu a cor do dinheiro.
Enquanto isso, ele planeja elaborar um relatório consolidando todos os dados do seu monitoramento da mariposa, a fim de cruzá-los com registros de outros páramos, além de buscar algum tratamento que dispense inseticidas químicos.

O fotógrafo dos animais do páramo

Até 28 de junho de 2025, ninguém em Cumbal suspeitava da presença de um puma no território indígena, por se tratar de um animal extremamente arredio. Descobriram quando uma fêmea encarou fixamente, em plena meia-noite, a armadilha fotográfica instalada por Armando Aza no páramo. Na manhã seguinte, outro puma, possivelmente o macho, passou de costas diante da câmera.
O puma era um felino presente apenas nos relatos dos mais velhos, e quando colegas da Casa de la Memoria o retrataram em um mural, chegaram a ser ridicularizados. “Quando foi que vocês viram um desse por aqui?”, debochavam. Foi o trabalho de observação participativa da fauna liderado por Aza, engenheiro-agrônomo de 28 anos, que comprovou sua presença real na região.
Ao longo de nove meses, as armadilhas fotográficas posicionadas por ele com o apoio do Instituto Humboldt em 12 pontos do resguardo – metade em áreas preservadas e metade em áreas degradadas, para fins comparativos – renderam 27 mil imagens. O acervo revelou a rica biodiversidade da fauna do páramo: porcos-espinhos, comadrejas, raposas-do-páramo, quatis e o pequeno inhambu-do-páramo, de plumagem salpicada, cuja ocorrência na Colômbia foi confirmada recentemente.
O trabalho, que os cientistas chamam de monitoramento participativo ou comunitário da biodiversidade, consiste em fazer com que os próprios moradores locais registrem sistematicamente dados que ajudem a compreender a dinâmica de um ecossistema ou de seus recursos naturais. A prática assume formatos variados: de crianças contando macacos, a agricultores instalando gravadores nas árvores para captar os sons da floresta. Apesar da enorme relevância, até poucos anos atrás essas ações nem sequer estavam mapeadas no país.
Aza e seus parceiros selecionaram duas espécies centrais para o estudo. Escolheram o licuango, pequena ave parda chamada pelos observadores de tororói-pardo e avistada quase exclusivamente em habitats bem preservados, e o capote, ou polylepis, árvore que capta a umidade da neblina e cuja casca se desprende em finas lâminas. Ambas funcionam como excelentes bioindicadores da saúde ambiental. “Eram espécies estratégicas para diagnosticar o que está acontecendo em nosso território”, explica.
Para surpresa do grupo, identificaram não apenas uma, mas três espécies de polylepis, sendo uma delas em perigo crítico de extinção em escala global e outra vulnerável. Essa árvore, comum em certas áreas de páramo no Equador e na Colômbia, desempenha um papel crucial no ciclo hídrico. Uma pesquisa realizada pelo ecologista equatoriano Esteban Suárez demonstrou que as florestas de polylepis, também conhecidas como colorado ou árvore-de-papel, estão entre as coberturas vegetais que mais favorecem a infiltração de água no solo, indicador determinante da capacidade do ecossistema de reter e liberar o recurso de forma gradual.
As descobertas de Aza e sua equipe confirmam em campo o que a comunidade científica sustenta há décadas: os páramos abrigam tanta biodiversidade que 60% de suas plantas são exclusivas da região, o que os pesquisadores chamam de endemismo. “Os páramos podem ser definidos como um hotspot (uma zona de altíssima biodiversidade) dentro de outro hotspot, já que estão inseridos nos Andes tropicais”, destacaram o botânico Santiago Madriñán e o geneticista vegetal Andrés J. Cortés em um estudo que provou que os páramos são os ambientes de evolução mais rápida no planeta e que ganhou repercussão no New York Times.
Ao ser perguntado se receberam alguma verba do projeto de carbono, Armando faz que não com a cabeça. “Não, absolutamente nada”. O único respaldo veio do projeto Páramos para a Vida, parceria entre o governo colombiano e o fundo ambiental global GEF.
A cultivadora de batatas nativas orgânicas

Enquanto a maioria dos produtores de Cumbal busca plantar na maior área possível, para Irma Chinguad menos de meio hectare é mais do que suficiente.
Essa área reduzida supre suas necessidades porque ela adota um modelo de cultivo oposto ao de seus vizinhos de localidade. Irma não utiliza agrotóxicos, faz rotação de cultivos e adota técnicas de preparo do solo como as melgas, abrindo pequenas valas horizontais em vez de sulcos contínuos. Além disso, ela não cultiva o mesmo que os demais: no lugar das habituais batatas pastusa ou diacol capiro, Irma, seu pai Alfonso e sua mãe María colhem uma verdadeira coleção de batatas nativas andinas. Somando variedades de batatas ‘chauchas’ (conhecidas pela maioria dos colombianos como crioulas) e ‘guatas’ (que são maiores), a família Chinguad cultiva cerca de 130 tipos de batata. Embora as variações de formato, tamanho e tom da casca fiquem evidentes a olho nu, é ao cortá-las com que se revela um espetáculo de cores: anéis magenta, veios rubi, corações rosados.
Esse diferencial garantiu a Irma um nicho de mercado exclusivo. Em vez de vendê-las na feira livre do município, ela despacha mensalmente um saco de batatas, via transportadora Servientrega, para o chef Óscar René González, em Bogotá. Em seu restaurante Innato Cocina, no bairro de Chapinero, ele as transforma em nhoques ao molho, salchipapas coloridas e sanduíches de pão de batata, proposta que define como ‘fast-food gourmet’, já que nenhum de seus pratos custa mais do que 6 dólares.
Mas de que maneira o cultivo de uma batata nativa ajuda a preservar o páramo? A resposta está no ciclo sustentável que os Chinguad promovem ao adotar esse manejo. “Quanto mais natural o cultivo, melhor é a colheita. As batatas saem mais sadias e saborosas. As borboletas visitam a lavoura e ajudam na polinização, e, quando precisamos combater pragas, aplicamos uma infusão de absinto, erva tão amarga que afasta os insetos. Como não usamos produtos químicos nem tratores, recuperamos o solo e evitamos a perda de nutrientes”, relata Irma. Cinquenta metros abaixo de sua lavoura, existe um santuário de frailejones preservados em um pequeno vale, área que a família se comprometeu a jamais desmatar.
A estratégia da família Chinguad vai ao encontro de uma recomendação feita pelos especialistas ambientais: a preservação do páramo não depende apenas de proteger onde ele está preservado e restaurar onde foi degradado, mas também de transformar as práticas produtivas no entorno. Em Cumbal, isso envolve migrar para uma pecuária menos extensiva e reduzir os insumos químicos na agricultura. Esses “modelos agroecológicos conciliam a sustentabilidade econômica com a conservação da biodiversidade”, defende o estudo de ‘transições socioecológicas rumo à sustentabilidade’, pelo Instituto Humboldt. Ou, como resume o biólogo colombiano Felipe Rubio Törgler, com duas décadas de atuação em páramos, “a melhoria na qualidade de vida das comunidades está diretamente associada ao equilíbrio ambiental”.
Projetos de transição produtiva exigem investimentos, mas a respeito do projeto de carbono Irma só ouviu “comentários genéricos”. “No papel é tudo muito bonito, mas como ter certeza de que o dinheiro chega a quem realmente está na ponta, cuidando dos páramos?”, questiona.
Por enquanto, os Chinguad ainda produzem mais do que conseguem vender, por isso continuam em busca de novos clientes.
A primeira socorrista de incêndios

Apenas este ano, Luz Dary Chirán já atuou no combate a dois incêndios. Ambos na faixa de transição entre o páramo e a floresta de neblina, ambos dentro de seu território indígena, e ambos criminosos.
O mais recente, em 26 de junho, destruiu 30 hectares de frailejones, gramíneas e arbustos na localidade de Pilches, em apenas 24 horas no setor de Tasmag, próximo à emblemática Laguna de la Bolsa. Em meio às cinzas, a equipe encontrou dezenas de árvores que haviam sido cortadas rente ao chão, aparentemente com o uso de foices. Mais abaixo, perto do foco inicial do fogo, havia uma estrada aberta recentemente e uma antiga área de pastagem com a terra revirada por arado mecânico. Espalhados pelo local, garrafas de refrigerante e embalagens de salgadinhos. Uma estaca cravada no solo demarcava a área.
Eram sinais claros da intervenção humana para expandir ilegalmente a fronteira agrícola e pecuária, seja para pasto ou para o cultivo de batatas, visando ao lucro rápido à custa do ecossistema que abastece a água de toda a comunidade. Além disso, o emprego de maquinário pesado afasta qualquer hipótese de atuação de pequenos agricultores de subsistência.
Chirán não é bombeira profissional. Para toda a cidade de Cumbal há apenas quatro bombeiros e o contingente é insuficiente. Aos 26 anos, a professora do ensino fundamental atua como coordenadora de uma brigada florestal comunitária, batizada de ‘Guardiões dos páramos para a vida’, focada em prevenir e monitorar focos de incêndio e, quando o fogo se alastra, ser a primeira linha de combate. A brigada conta com 14 moradores locais, organizados em duas equipes. “Cumbal é um dos territórios mais atingidos por incêndios florestais: só este ano já enfrentamos quatro grandes queimadas”, relata.
Sua preocupação é respaldada pela ciência: no fim de 2025, um grupo de pesquisadores da Universidade do Rosário, sob a liderança do especialista em sensoriamento remoto Stijn Hantson, analisou o histórico de incêndios em páramos nas últimas duas décadas. Chiles-Cumbal ocupa a segunda posição no ranking nacional, com 21,3% de sua cobertura vegetal queimada entre 2000 e 2022, superado apenas pela Serra do Perijá.
Entre as principais recomendações do estudo estão a implantação de sistemas de alerta precoce e a estruturação de brigadas comunitárias de monitoramento, a exemplo do trabalho conduzido por Luz Dary. Quando a iniciativa começou, há três anos, o projeto Páramos para a Vida, do Instituto Humboldt, doou fardamento e equipamentos, e forneceu capacitação técnica para o combate a incêndios. As equipes aprenderam a utilizar o abafador de borracha para apagar o fogo e a manusear pás e enxadas para abrir aceiros que interrompam o avanço das chamas.
Chirán reforça que conter o início das queimadas é mais eficaz do que apagá-las depois de alastradas. Por isso, quer realizar ações educativas nas escolas, tarefa que, devido ao caráter voluntário da brigada, ainda não pôde ser implementada. Os brigadistas não recebem ajuda de custo, nem mesmo para o combustível dos veículos usados no deslocamento até as ocorrências.
Do projeto de carbono, não viram um centavo. “Não fazemos ideia de para onde vão esses recursos”, afirma.
O viveirista das árvores nativas

Em 1996, ao ser fundado o sistema de abastecimento de água comunitário de Aguablanca, que até hoje atende centenas de famílias rurais nas localidades de Boyera, Cuetial, Cuaspud e Cuaical, os usuários precisavam reflorestar a área no entorno do riacho de captação para assegurar o suprimento hídrico no futuro.
José Miguel Aza começou então um pequeno viveiro, onde propagou mudas de caspi, mote e pumamaqui, cujas folhas em forma de palma explicam seu nome em quéchua, ‘garra de puma’.
Essa demanda pontual do sistema deu origem ao viveiro El Manantial, que hoje sustenta quatro famílias. O catálogo de plantas foi bastante ampliado e agora inclui árvores e arbustos nativos característicos das florestas de neblina e dos páramos do sul do país: eles cultivam cerote, colla, chilca, charmelín, pandala, tília, carvalho-andino e até achupallas, cujo miolo macio é o alimento favorito do urso-de-óculos. O viveiro já chegou a abrigar 100 mil mudas simultaneamente e estima-se que, em duas décadas de atividade, mais de dois milhões de plantas já tenham sido produzidas.
Todas as espécies são nativas, com uma única exceção. Por décadas, o uso de lenha na cozinha representou uma das maiores ameaças às florestas de neblina de Cumbal. Como a maioria dos fogões funcionava — e ainda funciona — a lenha, era hábito recorrente entre os moradores entrar na mata para cortar árvores. A solução veio com uma espécie exótica propagada e comercializada por Aza: a acácia-negra, de crescimento muito rápido, que passou a suprir a demanda por lenha e evitou o desmatamento das matas nativas. “A gente ia a cavalo e gastava o dia todo. Hoje ninguém mais precisa subir a montanha para isso”, conta o viveirista de 52 anos, pai de Armando, o pesquisador de pumas.
As espécies nativas do Manantial cumprem uma dupla função. Por um lado, auxiliam na recuperação de matas ciliares e áreas degradadas por meio do plantio diversificado, promovendo o que a ciência define como enriquecimento florestal. Por outro, podem viabilizar uma transição produtiva em Cumbal: tornar a pecuária menos impactante ao reduzir seu caráter extensivo. Em vez de manter poucas cabeças de gado em grandes pastagens, os produtores delimitam a área de pasto. Isso é feito com a introdução de árvores: cercas vivas e bancos de forragem com espécies nativas altamente nutritivas para o gado. Com alimentação de melhor qualidade proporcionada por esse sistema silvipastoril, a pegada ecológica da atividade diminui. Como benefício adicional, essas árvores formam corredores ecológicos que conectam os fragmentos florestais, favorecendo a variabilidade genética das espécies.
Nas palavras de Aza, “essas plantas geram mais vida: atraem aves, enriquecem o solo, protegem a água e as áreas de recarga hídrica. Precisamos urgentemente dessa mudança”, afirma.
Diversos estudos científicos confirmam essa tese. Uma pesquisa conduzida pelos hidrólogos equatorianos Bert De Bièvre e Vicente Iñiguez demonstrou que solos de páramo ocupados por árvores exóticas, como o pinheiro-patula, reduzem em até 50% a vazão dos rios que neles nascem. Outro trabalho, de autoria do ecologista equatoriano Robert Hofstede, referência mundial em estudos sobre páramos, evidenciou que áreas de pasto degradadas apresentam menor retenção de umidade no solo.
A exemplo de seus conterrâneos, José Miguel Aza não recebeu recursos do projeto de carbono. “Concordamos que a verba deveria chegar à comunidade e financiar iniciativas como a nossa, que cultiva árvores capazes de produzir oxigênio e sequestrar dióxido de carbono. No entanto, não recebemos nenhuma informação”, lamenta.
A criadora de experimentos sobre o páramo para crianças

Quando os alunos do último ano do ensino médio precisavam definir o projeto comunitário obrigatório para a formatura, uma professora lhes lançou um desafio: por que não recuperar uma área degradada de floresta alto-andina nas margens da famosa Laguna de la Bolsa?
O desafio foi aceito e os estudantes plantaram 3 mil árvores nativas. Além disso, eles cadastraram os dados coletados em uma plataforma governamental, promoveram campanhas de conscientização e planejaram programar um drone para monitorar variações de temperatura, indicar possíveis focos de incêndio e alertar os bombeiros. Essa foi uma das muitas experiências pedagógicas idealizadas por Milena Burbano, professora de ciências naturais e química no Colégio José Antonio Llorente, localizado a duas quadras da praça principal de Cumbal, para engajar os alunos na preservação dos ecossistemas locais.
Com alunos de 15 e 16 anos, a bióloga pesquisou os substratos de solo mais eficientes para a propagação de espécies nativas como o motilón, o pumamaqui e o capote. “Eu não tenho autoridade para proibir o acesso ao páramo, mas posso transformar a mentalidade dos jovens que serão seus futuros guardiões. Plantei a semente, estou cultivando e sei que colheremos bons frutos no futuro”, declara.
Talvez o experimento de educação ambiental mais ambicioso tenha sido o que ela fez com os alunos do quinto e sexto ano, de 10 e 11 anos, analisando como a mudança climática afeta os páramos e as funções vitais das plantas que ali vivem. Fizeram isso construindo dois terrários, nos quais plantaram pequenos frailejones, samambaias, bromélias, chusques (um tipo de bambu), licopódios e colas-de-venado. Em um deles, aumentaram a temperatura em 0,5 grau a cada semana, enquanto o outro, sem intervenção, servia de controle. Em uma planilha, registraram variáveis como a umidade do solo, o crescimento das plantas, a cor e a temperatura das folhas, e quais apresentavam necrose ou morte dos tecidos.
O experimento conduzido pelos alunos de Cumbal reflete as conclusões obtidas pela comunidade científica global. Um estudo liderado por pesquisadores colombianos aponta que a área de ocorrência dos frailejones pode sofrer uma drástica redução na Colômbia até 2050 em razão do aquecimento global. Resultado semelhante foi identificado pelo botânico venezuelano Jesús Mavárez ao analisar os páramos da Venezuela até 2070.
Esse experimento dos estudantes de Cumbal coincide com o que cientistas vêm observando em escala maior. Um estudo liderado por cientistas colombianos prevê que a área de distribuição dos frailejones pode diminuir drasticamente na Colômbia até 2050 por causa da mudança climática. A uma conclusão semelhante chegou o botânico venezuelano Jesús Mavárez para os páramos da Venezuela até 2070.
Até o momento, todos os projetos foram custeados por verbas obtidas em editais públicos conquistados por Burbano junto ao governo de Nariño e ao Ministério das Tecnologias da Informação e Comunicação. O projeto de créditos de carbono não repassou verba alguma.
Os arquivistas da memória do páramo

Trajando ponchos de lã (ruanas), chapéus de feltro e botas de borracha, cerca de dez indígenas escavam juntos uma vala em meio aos frailejones para instalar a captação de um dos variados sistemas de água que nascem no páramo. Ao fundo, ergue-se majestoso o vulcão Cumbal.
A fotografia, registrada em 1986 e cedida por um morador, pode ser vista na parede da Casa de la Memoria del Gran Cumbal. Instalada no quarto andar da sede do cabildo de Cumbal, Luis Carlos Cuaical e Diana Piarpuezan organizam, há três anos, um acervo audiovisual, que reúne de fitas cassete e fotos impressas a arquivos digitais, sobre os quatro resguardos da região.
Um misto de galeria, arquivo, museu e biblioteca, a Casa de la Memoria preserva desde réplicas do título colonial concedido pela Coroa Espanhola aos povos indígenas Pasto – documento fundador dos atuais resguardos – até fotografias das retomadas de terras que permitiram expandir o território coletivo. Conscientes do patrimônio natural destruído, A Casa da Memória expõe registros da geleira do ‘Taita Chiles’, desaparecida em 1950, e da ‘Mama Cumbal’, que desapareceu em 1985.
Diante disso, a cientista política de 28 anos e o sociólogo de 32 passaram a recolher todo tipo de material histórico sobre Cumbal, de diários de campo da antropóloga norte-americana Joanne Rappaport, que pesquisou o processo de construção da identidade local nos anos 1980, até o acervo do fotógrafo autodidata Helí Valenzuela, que registrou o cotidiano do território e doou sua coleção. Paralelamente à montagem de uma biblioteca temática sobre a região e à exibição de documentários gravados no local, eles aprenderam a restaurar documentos históricos e a digitalizar imagens em alta resolução.
Aplicando técnicas audiovisuais, os dois começaram a documentar e divulgar as queimadas que devastam o páramo. “Qual a relação entre memória e preservação do páramo? Quando há pertencimento e vínculo com o território, a destruição diminui. Os incêndios ocorrem em grande parte pela perda dessa identidade”, reflete Cuaical, cuja família preserva uma área de 60 hectares de páramo na localidade que leva seu sobrenome. “Usamos o registro visual para sensibilizar as pessoas; são nossas ferramentas educativas”.
Para essas ações, captaram recursos do Ministério da Cultura e do governo do departamento de Nariño, mas não obtiveram nenhum repasse do projeto de carbono.
Referências científicas
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Marcela Galvis et al. Claves para la gestión local del páramo. Bogotá: Instituto Humboldt, 2021.
Linda Hernández et al. “A new species of Oidaematophorus (lepidoptera: pterophoridae) from Chingaza National Natural Park in Colombia”. Tropical Lepidoptera Research, 2014.
Robert Hofstede. “The effects of grazing and burning on soil and plant nutrient concentrations in Colombian paramo grasslands”. Tesis doctoral, Universidad de Amsterdam, 1995.
Santiago Madriñán et al. “Páramo is the world’s fastest evolving and coolest biodiversity hotspot”. Frontiers in Genetics, 2013.
Jesús Mavárez et al. “Current and future distributions of Espeletiinae (Asteraceae) in the Venezuelan Andes based on statistical downscaling of climatic variables and niche modelling” Plant Ecology & Diversity, 2018.
Laura Victoria Pérez et al. Viveros de páramo para la restauración ecológica. Bogotá: Instituto Humboldt, 2021.
Esteban Suárez et al. “Influence of vegetation types and ground cover on soil water infiltration capacity in a high-altitude páramo ecosystem”. Avances en Ciencias e Ingenierías, 2013.
Jhon B. Valencia et al. “Climate vulnerability assessment of the Espeletia complex on páramo sky islands in the northern Andes”. Frontiers in Ecology and Evolution, 2020.
Este projeto é resultado de uma colaboração entre jornalistas e cientistas latino-americanos, promovida pelo Instituto Serrapilheira, do Brasil, e pelo Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLIP), com o objetivo de explorar o ciclo hidrológico Atlântico – Amazônia – Andes e as perturbações nos serviços ambientais que ele proporciona ao continente.














































