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Como opera a ofensiva digital contra quem questiona a reativação de uma polêmica mina de cobre no Panamá

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Ilustración: Alejandra Saavedra López.

Mais de cem contas amplificam o apoio à reabertura da mina da First Quantum Minerals no Panamá. Várias delas protagonizaram mais de 500 casos de assédio digital contra defensores ambientais. Por trás há perfis com identidade fictícia, páginas que simulam ser veículos panamenhos e funcionários da Cobre Panamá. Algumas, com indícios de serem administradas a partir de uma mesma estrutura, gastaram cerca de 60 mil dólares em publicidade paga na Meta.

Por Sol Lauría e Pablo Medina Uribe

Em 28 de novembro de 2023, os defensores ambientais do Panamá conseguiram algo único: frear uma mina a céu aberto localizada em um corredor biológico protegido. Após protestos sem precedentes, a Corte Suprema de Justiça declarou inconstitucional a lei que prorrogava a concessão de extração de cobre e outros metais à filial local da empresa canadense First Quantum Minerals.

A notícia correu em celebrações por todo o país. Na fronteira com a Costa Rica, os indígenas ngäbe tocavam plenas nos acampamentos sobre a Panamericana, onde haviam resistido à repressão. À beira do projeto minerário, barqueiros que haviam levado o protesto ao mar — bloqueando o porto da empresa — comemoraram como em um campeonato mundial. Professores e camponeses que durante o levante popular haviam visto morrer cinco dos seus dançavam e agitavam bandeiras ao grito de “sim, foi possível” do lado de fora do palácio da justiça, onde montaram vigílias durante semanas à espera da decisão.

“Decidimos por unanimidade declarar inconstitucional toda a lei 406”, disse a presidente da Corte Suprema de Justiça, María Eugenia López.

A decisão vinha encerrar uma história carregada de conflitos. A concessão já havia sido declarada inconstitucional em 2017. A exploração da mina havia acumulado centenas de danos ambientais nas montanhas de Donoso, conforme documentado pela autoridade ambiental do Panamá. E desde o início, como já foi reportado, o negócio gozou de proteção política. A sentença de 2023, de 234 páginas, que determinava que 25 artigos da Constituição haviam sido violados, parecia encerrar a batalha. Foi selada ainda por uma lei de moratória que bloqueia qualquer nova licença para extração de metais.

No entanto, dois anos depois a briga pela mina continua. E um de seus capítulos mais intensos é a ofensiva nas redes sociais contra quem protagonizou a defesa do meio ambiente nesses anos. Os ataques se voltam contra quem defende o acórdão e questiona a reativação do projeto.

É que chegou um novo governo, o de José Raúl Mulino, que a princípio jurou que respeitaria “o acórdão da Corte” e “o pedido do nosso povo” para depois anunciar sua intenção de reviver o enorme projeto minerário, agitando as bandeiras do emprego e do desenvolvimento. Mulino descreveu os opositores da mina como “cinco gatos” e disse que o projeto reabriria por contrato direto, sem passar pelo Congresso. Ignorava assim o parecer dos magistrados, que haviam sentenciado que, por afetar direitos fundamentais — vida, ambiente saudável, saúde infantil —, essas concessões exigiam licitação pública e participação cidadã.

https://www.elclip.org/wp-content/uploads/2026/06/Mulino-Julio-2024-Hay-que-respetar-las-leyes-el-fallo-de-la-corte-y-el-pedido-de-nuestro-1.mp4

https://www.instagram.com/reel/C85QwI7Pzkr/

A partir daí, proliferaram contas com identidade duvidosa nas redes sociais defendendo a reabertura do projeto, falando de “mineração responsável” e apontando contra quem se opõe a ela.

O Taladores Digitales, uma investigação transfronteiriça liderada pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística, CLIP, em aliança com a Concolón e La Prensa no Panamá e seis veículos da região, identificou mais de cem contas que amplificam conteúdos a favor da mineração e atacam defensores ambientais com o interesse posto na reativação do projeto Cobre Panamá. Entre elas, há contas de fachada informativa e falsas que investem milhares de dólares em publicidade. A aliança jornalística documentou, além disso, mais de 500 casos de assédio digital contra pessoas defensoras do meio ambiente, com injúrias, campanhas de desprestígio e exposição de informações pessoais, conhecida como doxing.

Desinformação em três níveis

Os ataques digitais operam em três linhas simultâneas. Em um nível, há perfis falsos, com identidades fictícias, contas anônimas no Facebook, Instagram, X (ex-Twitter) ou YouTube que produzem mensagens de difamação contra os defensores ou ataques sexualizados dirigidos a lideranças mulheres, além de doxing. Em outro, páginas do Facebook e outras redes se apresentam como veículos de notícias panamenhos com administração oculta que produzem informações falsas. E em um terceiro, há contas de atores com possíveis vínculos trabalhistas ou econômicos com a empresa mineradora que participam do debate.

Dentro do primeiro grupo se destaca Wilson Jaramillo, ativo no Facebook, Instagram e YouTube. Trata-se de um perfil que parece projetado para simular proximidade com o povo, que usa gírias de rua e diz ser do Barrio Sur de Colón — um dos cantos mais pobres e esquecidos do país. Essa conta ataca ativistas, estudantes, trabalhadores e juristas que integram o Movimiento de Abogados por la Patria. O alvo recorrente de suas publicações são sempre mulheres: as ambientalistas Camila Aybar e Raisa Banfield, mas também a jornalista Sabrina Bacal, a quem acusou de “extorquir”. Diz que “pagam do exterior” para desestabilizar o país, que são parte do “comunismo woke” ou agentes do chavismo. Difunde a teoria conspiratória (e sem provas) segundo a qual da Espanha “foram enviados mais de 23 milhões de euros” aos indígenas que protestaram em 2023.

O personagem Wilson agita o nacionalismo e teorias conspiratórias para desacreditar os defensores.

Ao observar seus vídeos, saltam aos olhos os lábios dessincronizados e a falta de movimento natural nos olhos, o que sugere não se tratar de uma gravação autêntica, mas de um vídeo manipulado digitalmente. Ferramentas como o Hive Moderation — um detector de IA amplamente utilizado por verificadores —, o PimEyes e o TinEye evidenciam que suas fotos de perfil têm entre 99,8% e 99,9% de probabilidade de terem sido geradas por IA. Tampouco tem uma presença digital pública além de seus vídeos. É o rastro típico de uma identidade fabricada.

Embora tenha pouquíssimos seguidores, esse personagem chegou a acumular mais de 100 mil visualizações de um vídeo graças a um investimento publicitário de cerca de 3.300 dólares nas plataformas da Meta para promover 21 conteúdos entre agosto de 2025 e maio de 2026. O caso de Jaramillo não é isolado. O Taladores Digitales rastreou os conteúdos publicitados na Biblioteca de Anúncios da Meta — um repositório de toda a publicidade paga que circula no Facebook, Instagram e Threads — com as palavras “cobre” e “mineração” no Panamá entre 2023 e 2026. A análise mostra uma forte concentração de investimento — 351 dos 462 anúncios rastreados, ou seja, 76% — em narrativas vinculadas à reabertura do projeto e ao desprestígio de quem se opõe a ela por razões ambientais, institucionais ou legais (ver Metodologia ao final desta reportagem).

No YouTube, a interação de Wilson com outras contas é, em geral, escassa: apenas um punhado dos seus 23 vídeos supera os dez comentários. E alguns desses comentários são fruto de um enxame de contas criadas no mesmo dia — 23 de outubro de 2025 — que comentam com hashtags coordenadas como #Panamá, #Panama ou #MinaSí: usuários como @WilliamsOconnor-m8e, @JoseMariscal-x8k e @CuitlahuacCvc.

Quem está por trás dessa conta?

Os próprios dados de transparência publicitária da Meta apontam para uma agência de marketing digital com sede no México: o e-mail de contato declarado pela conta Wilson Jaramillo nos registros dos anúncios pagos nessa plataforma é webmkt[XX]@gmail.com (modificamos parcialmente os dados de contato mencionados nesta nota com “[XX]”), um e-mail também registrado por contas que veicularam anúncios durante a campanha presidencial do México para atacar Claudia Sheinbaum, a candidata que foi eleita presidente daquele país em 2024, segundo reportagens jornalísticas. Mas Wilson não é o único perfil vinculado a esse e-mail.

Mais de 85% dos anúncios sobre a mina na Meta — descontando os de políticos — estão concentrados em duas páginas que pertencem ao segundo grupo de contas identificadas por esta aliança: as que parecem ser veículos de comunicação, mas injetam desinformação e difamam quem protege o território. São o Diario de Panamá e o Panamá en Directo, duas páginas do Facebook que compartilham em seus murais links com notícias de outros veículos para reforçar sua aparência de portais de notícias tradicionais. No entanto, por meio de publicidade paga (que não aparece em seus murais) circulam vídeos e posts que usam a identidade visual de veículos internacionais, locais e outros inexistentes. Juntas, investiram aproximadamente 51.700 dólares em dois anos, segundo os registros da Meta. Junto a Wilson, formam uma tríade que concentra 95% dos ataques diretos a defensores ambientais entre todos os encontrados pela investigação. Produzem vídeos de alto impacto emocional e, como esta investigação comprovou, seus anúncios são veiculados pelo mesmo ator.

Diario de Panamá perfil
Captura Views Wilson
Panama en Directo Perfil (1)

Na Biblioteca de Anúncios da Meta, as três páginas usaram ou o e-mail mencionado acima, ou o número de contato +507-685893[XX]. Algum desses dois contatos também foi fornecido por outras três páginas do Facebook que em seus perfis se identificam como sites de notícias, mas são usadas para promover os vídeos de Wilson que atacam quem questiona a reativação de Cobre Panamá por razões legais, agitam o medo pelo seu fechamento e exaltam o presidente salvadorenho Bukele, por apostar na mineração. Essas três páginas são: Voces Panameñas, Gente del Canal y Conexión Istmeña, que têm aparência semelhante às páginas mencionadas acima e veiculam, também, conteúdos similares a elas. Isso significa que há uma mesma estrutura — seja pessoa ou empresa — por trás de sua publicidade.

Nos dias que antecederam a publicação desta investigação, no início de junho de 2026, os anúncios dessas seis páginas na Meta estavam voltados a contrarrestar informações sobre as contribuições da empresa mineradora ao Estado durante os anos de operação, alertar “o risco de caos” por protestos e o avanço de “grupos criminosos” em busca de mineração ilegal, atacar ambientalistas e — uma novidade — políticos que criticaram as medidas recentes sobre Cobre Panamá, como os independentes do VAMOS, Martín Torrijos e Ana Matilde Gómez.

Fora dessas identidades digitais, há duas páginas com contatos diferentes, mas narrativas semelhantes: Noticias de Panamá — alinhada com as mensagens das anteriores — e Noticias Enfoque Nacional, voltada a destacar os atos do governo, mas que também ressalta as contribuições da empresa e aponta os críticos como “desestabilizadores pagos”. Além dessas, existem outras páginas do Facebook que tentaram veicular anúncios, mas cujos conteúdos foram removidos pela Meta por descumprirem as regras de transparência — isto é, por não fornecer informações de contato — ou as normas de publicidade. Algumas delas são Abriendo la Ponchera — em silêncio desde 2024 — e as já extintas La Noticia Panamá e El Pana Noticias. À Cobre Panamá e à First Quantum Minerals também aconteceu: a Meta removeu três anúncios delas por não seguirem suas normas em junho de 2022 (ver aquí e aquí) e dezembro de 2023 (ver aquí).

Esta aliança contatou todas as páginas mencionadas por meio dos dados que elas próprias declararam na Biblioteca de Anúncios da Meta. A Wilson Jaramillo, Panamá en Directo, Diario de Panamá, Conexión Istmeña e Gente del Canal, por meio dos e-mails (webmkt[XX]@gmail.com, panamanoticias@[XXXXXXX].com) e ligações ao número (+507 6858-93[XX]) que compartilharam em seus registros de transparência. O número de telefone corresponde a uma linha que vai direto para a caixa postal e não tem WhatsApp. Também contatamos Noticias de Panamá pelo e-mail redaccion@[XXXXXXXX]-panama.com e por ligação ao +507 6774-49[XX], um número que aparece como inexistente e tampouco tem WhatsApp. Nenhuma das páginas respondeu. No entanto, os anúncios e o perfil de Noticias Enfoque Nacional foram excluídos após serem contatados pelo Taladores Digitales ao telefone +507 6365-52[XX] e ao e-mail davidteje[XXXX]@outlook.com.

Noticias Enfoque Nacional 4
Captura dos anúncios veiculados por Noticias de Enfoque Nacional em abril de 2026, registros que foram removidos após o e-mail e as mensagens de WhatsApp enviados por esta investigação aos contatos do anunciante.

Noticias Enfoque Nacional 1

 

No terceiro grupo de contas que descrevemos, no qual se encontram perfis que impulsionam a reativação da mina e atacam quem se opõe a ela, estão alguns funcionários da Cobre Panamá e atores com possíveis vínculos com a empresa. São mais de vinte contas e várias delas transpareciam sua relação com a empresa, como @ciudadanonacional (administrada por Jonatan Montenegro, biólogo e “embaixador da Cobre Panamá”, segundo publicações de veículos e seu perfil no LinkedIn), ou @KathsMarquez e @aminingwoman, que em suas redes compartilham conteúdos apresentando atividades e momentos como parte da empresa (ver aquí e aquí). Em outros casos, o vínculo exige mais atenção.

HAMBRIENTALISTAS ? pic.twitter.com/fl7siOnZ83

— Aminingwoman (@aminingwoman) May 21, 2026

Um desses casos é a conta do Instagram orgullominerolatinoamerica e a página do Facebook Orgullo Minero Latinoamérica, que publicam conteúdos protagonizados pelo El Profe Minero‘. Esse “Profe” começou nas contas como um personagem animado em seus vídeos, com convidados semelhantes a Wilson como “Mr. Mine” — lábios dessincronizados e vozes de dublagem de desenhos animados — e depois mudou para outro com características mais humanas, que se apresenta como um especialista. Seus conteúdos falam do preço do cobre, da reativação como solução ao desemprego e da presença de movimentos “financiados pela esquerda” que causam perdas de “100 milhões de dólares diários” a cada protesto. Na realidade, por trás está Jaime Torrero, um homem que trabalhou com a mineradora e que administra o grupo do Facebook Orgullo Minero, no qual são publicados conteúdos pró-mina.

“El Profe” produziu vídeos nos quais aparecem tanto o personagem quanto o rosto de Torrero. Os vídeos em que “El Profe” aparece como especialista, por sua vez, parecem ser o rosto de Torrero modificado com inteligência artificial. “Eu trabalho com inteligência artificial na área educacional”, disse Torrero ao Taladores Digitales.

Em uma ligação telefônica de mais de uma hora, Torrero contou que trabalhou 15 anos na Cobre Panamá como coordenador do programa de educação comunitária e que, com a crise após o fechamento de 2023, ficou de fora. Foi enfático: defende a reativação do projeto minerário porque gerou emprego, oportunidades de educação e movimento econômico nas comunidades. Sobre o Orgullo Minero, explicou que “é uma conta que surge no ano 2020, quando a pandemia fechou o projeto”, para que as pessoas “em casa passando dificuldades” compartilhassem “essas dores”. “É uma página séria”, disse, e contou os planos: “Vamos fazer a primeira revista especializada em mineração do Panamá e a primeira associação de profissionais panamenhos da mineração”. Também negou que suas publicações consistissem em ataques: “eu não estou para atacar ninguém, mas se eu vejo que publicam algo que é uma situação tirada pelos cabelos, eu tenho o direito de deixar um comentário”. “Não vão me dizer a mim, que vivi em casa de palha, que sou filho de pescador de quarta geração, que me custou me formar como profissional, que lutei nas ruas pela comunidade estudantil do meu país e trabalhei na minha vida pelo esporte, pela convivência das pessoas, que eu estou do lado errado”, recitou.

Esta aliança jornalística também contatou a filial local da First Quantum Minerals com um questionário de seis perguntas para solicitar comentários sobre vários dos achados desta investigação, entre eles as contas de atores com vínculos trabalhistas com a empresa. A gerente de Relações Públicas e Comunicações da Cobre Panamá, Maru Gálvez, não respondeu às consultas específicas, mas enviou um comunicado no qual disse: “como qualquer empresa formalmente estabelecida no país, temos pleno direito de comunicar de forma aberta, bem como de participar em espaços públicos, educativos, comunitários e informativos. Nossa comunicação e relacionamento se baseiam em informação verificável, participação cidadã, escuta ativa e transparência.”

A infraestrutura digital mais antiga dentro do universo de contas com narrativa pró-abertura não nasceu para defender a First Quantum Minerals: surgiu em 2013 como propaganda martinelista. A conta Bochinchón, que supera os 130 mil seguidores no Instagram, TikTok e Facebook, nasceu em 2013, quando no Facebook tinha o nome “Candidatos del CD”. Dois anos depois mudou seu nome para Prensa RMB. Esses nomes faziam referência às iniciais de Ricardo Martinelli Berrocal e ao partido com que ganhou a presidência em 2009, Cambio Democrático. Desde então, a página foi “Martinellistas” e “Martinellistas – Ricardo Martinelli” em 2022, quando o ex-presidente aspirava à presidência com Mulino como vice, mas uma condenação por lavagem de dinheiro o deixou exilado na Colômbia e Mulino ficou com o cargo. O nome atual, Bochinchón, data de 2025 e difunde notícias do governo, agita a causa minerária e ataca ambientalistas. O Taladores Digitales tentou contatar os responsáveis pelas páginas por meio de mensagens em seu perfil do Instagram, mas o administrador não respondeu e bloqueou a Concolón em todas as redes sociais.

Bochinhon (1)Outras contas com passado político são a página do Facebook Progresa Panamá, as contas do Instagram @noticiasahora_panama e do TikTok @panamaprogresa_507, que também mudaram de nome várias vezes e estão vinculadas a Yuhariel Chávez. As três contas compartilham conteúdos idênticos e o mesmo texto de descrição: “Medio Digital de Noticias #proyectos????#cultura???#turismo????medioambiente??#panama??”. Enquanto a URL da página do Facebook termina em “yuhariel.chavez”. Chávez se apresenta em suas redes como criador digital e colaborou com figuras vinculadas ao partido panameñista, como o ex-candidato a intendente Willy Bermúdez. Em 2018, seus perfis estavam voltados à campanha e à gestão de José Isabel Blandón como prefeito da capital (2014-2019). Chegou até a postar fotos de Raisa Banfield plantando árvores. Mas em 2025 mudou, e agora essas contas distribuem os mesmos vídeos da rede minerária atacando Banfield, bem como outras ambientalistas e jornalistas.

Chávez disse a esta aliança que administrava esses perfis “para a política”, mas que os vendeu em 2024 quando um “número desconhecido” lhe ofereceu 200 dólares pelo WhatsApp. Indicou que o comprador nunca se identificou e que pagou por transferência bancária. Embora tenha dito ter se desvinculado da administração das páginas — “eu não ando atacando ninguém” —, defendeu a reabertura de Cobre Panamá e desqualificou seus críticos. “Quem é contra já se sabe que é esquerdista, ecossocialista e não quer progresso.” Também pareceu estar ciente dos alvos de ataque dessa rede de contas: “A você a vinculam com o Suntracs, dizem que têm uma tendência esquerdista”, disse à jornalista desta aliança em uma ligação telefônica.

Panama Progresa Sol
Panama Progresa ataque 3
Panama Progresa ataque

Capturas de alguns dos vídeos com ataques a ambientalistas e jornalistas publicados por @noticiasahora_panama e @panamaprogresa_507.

As oito páginas do Facebook que veicularam anúncios na Meta e que mencionamos acima — Diario de Panamá, Panamá en Directo, Wilson Jaramillo, Voces Panameñas, Gente del Canal, Conexión Istmeña, Noticias de Panamá e Notícias Enfoque Nacional — foram criadas em 2024 e aumentaram o investimento este ano: o gasto de todas juntas passou de um total aproximado de 24.600 dólares no ano anterior para 35.200 nos primeiros cinco meses de 2026. Justamente, em janeiro deste ano Mulino autorizou a mineradora, cuja operação havia sido suspensa por ordem da Corte, a processar e exportar milhares de toneladas de material rochoso que já havia retirado da mina. Também deu luz verde à First Quantum para ligar sua termelétrica a carvão — descumprindo com isso pelo menos três compromissos internacionais, como revelou uma investigação da Concolón em aliança com o CLIP —, o que ativou a resistência cidadã.

Isso se replica com as contas do enxame minerário identificadas no X (ex-Twitter): quase dois terços foram criadas a partir de 2024, 60,3%. Entre elas, há 21 perfis criados entre fevereiro e março de 2024 (24% do total) que tuitam com as mesmas hashtags (#Afram e #mineriaresponsable), interagem entre si e replicam seus conteúdos, os de @Cobre_Panama e os de seus funcionários. Alguns atacam diretamente os defensores ambientais. Outros respondem sem insultar e falam das vantagens da “mineração responsável”.

La realidad es q la gente necesita trabajar. Nadie quiere dañar el ambiente, pero tampoco podemos cerrar todo y después preguntarnos por qué falta empleo y oportunidades. ?? Si una actividad se hace con controles, supervisión y responsabilidad. @Cobre_Panama #verdadpanama #Afram pic.twitter.com/5gL8exrDDf

— samuel navarro (@nava_s507) June 8, 2026

Duas fontes vinculadas ao governo e ao universo de assessorias de comunicação, que pediram para não ser identificadas, disseram a esta aliança que, em conversas reservadas com os representantes locais da First Quantum, referências do governo de Mulino mencionaram a necessidade de aumentar o respaldo à reabertura do projeto. Em 2024, pesquisas de opinião do La Prensa, do Centro Internacional de Estudios Políticos y Sociales de Panamá (CIEPS) e do La Estrella reportavam rejeição majoritária não apenas à presença de uma mina a céu aberto no país, mas também à mineração. Até a First Quantum reconheceu essa rejeição em uma circular interna e, como mostrou a investigação jornalística Países Minados II, a empresa lançou um ambicioso plano de comunicação para reverter essa percepção.

A publicação dessas medições gerou reações de muitas das contas mencionadas nesta investigação. O episódio mais recente é um exemplo de como funciona a mecânica da narrativa pró-mineração: uma reação unificada e em cadeia, com conteúdos idênticos espalhados e compartilhados por um círculo de contas que parecem agir de forma coordenada.

Tudo começou pelos resultados do Vea Panamá, uma pesquisa realizada periodicamente pelo jornal La Estrella junto à Prodigious Consulting para medir a opinião sobre grandes temas nacionais como o minerário. O La Estrella publicou em 23 de abril último uma nota intitulada “Rejeição à mineração no Panamá sobe para 74% em abril de 2026”. Três dias depois, o Panamá en Directo e o Diario de Panamá lançaram anúncios no Facebook para contrarrestar as evidências com os resultados de uma pesquisa anterior que afirmava que 55% dos panamenhos apoiavam o retorno do Cobre Panamá. Realizada pelo Gallup e apresentada no Consejo Nacional de la Empresa Privada (Conep) em 16 de abril de 2026, essa pesquisa não foi divulgada pelos principais veículos porque, segundo dois de seus diretores, não podiam garantir a confiabilidade dos resultados ou havia suspeita de que a First Quantum a tivesse encomendado: as evidências de outros estudos de opinião apresentavam resultados muito distintos.

Panama en directo anuncio encuenta 26 de abril
Panama en Directo 10 de mayo 2
Panama en Directo 10 de mayo

Anuncio Wilson encuesta febrero 2026
Anuncio de Diario Panamá EL 26 DE ABRIL
Anuncio de Diario Panamá 10 de mayo

Captura dos anúncios referentes a pesquisas veiculados pelo Diário de Panamá e Panamá en Directo após os resultados do Vea Panamá em abril de 2026. Informação retirada da Meta.

O Taladores Digitales perguntou tanto ao Gallup quanto ao Conep quem havia encomendado aquela pesquisa de opinião. A diretora do Conep, Analisa Montenegro, disse que a instituição apenas cedeu o espaço: “Cid Gallup, empresa reconhecida, solicitou espaço [em uma atividade organizada previamente] para apresentar os resultados da pesquisa (sem nenhum custo para o Conep), reconhecendo a importância que esse tema tem para o país.” Para obter comentários da pesquisadora, esta aliança ligou duas vezes para a sede do escritório no Panamá e deixou mensagens para sua diretora — com um número de celular para resposta —, à qual também foi enviado um e-mail para sua caixa de trabalho. Nenhuma dessas consultas foi atendida.

A Cobre Panamá, por meio de Gálvez, não respondeu à pergunta específica sobre a pesquisa, mas disse que “a Cobre Panamá não comenta sobre rumores, hipóteses, interpretações de terceiros ou supostas condutas atribuídas a pessoas, contas ou atores externos sobre os quais não tem controle, ingerência nem responsabilidade”.

Da análise de redes emerge que os três grupos do universo pró-mineração descritos acima se ativaram para compartilhar em bloco a pesquisa do Gallup: as contas que se fazem passar por veículos de notícias e difundem desinformação, as que têm vínculos trabalhistas ou econômicos com a mina e as falsas ou anônimas. Nos três níveis buscou-se desacreditar o La Estrella com termos como “é um pasquim”; ou a pesquisa e quem compartilhou a nota, classificando-os de “obtusos”. A esses ataques se somaram pessoas que trabalham na Cobre Panamá — tanto as que transpareciam o vínculo quanto as que não — e alguns colunistas.

O mesmo mecanismo opera contra defensores ambientais, com mais virulência e mais atores.

A fabricação de um escândalo

Em 7 de outubro de 2025, um comitê cívico desconhecido até então tornou pública uma carta enviada a um doador do Centro de Incidência Ambiental (CIAM) sustentando que os recursos doados eram usados para fins políticos. No dia seguinte, a notícia foi publicada pelo Panamá América. O representante desse comitê das “comunidades vizinhas à mina de Donoso”, Abel Oliveros, foi entrevistado em um programa de rádio cujo apresentador é favorável à reativação de Cobre Panamá, onde questionou o CIAM por “ter causado danos” às comunidades. Depois, desencadeou-se uma onda de ataques.

Conversamos con Abel Oliveros del comité cívico de las comunidades aledañas a la mina de Donoso sobre la carta por la cual denuncian que fondos que le llegan al CIAM (Centro de Incidencia Ambiental) estarían siendo mal utilizados.

Entrevista: https://t.co/6T47H6rc0O@ARCA_Media… pic.twitter.com/194eO0eeCH

— Panamá En Directo (@panamaendirecto) October 8, 2025

Nenhum veículo reparou em um detalhe: Abel Oliveros havia circulado outra carta dirigida ao presidente Mulino, na qual se apresentava como fornecedor da Cobre Panamá e pedia a reabertura — também havia dado entrevistas sobre aquela reunião, e a responsável de relações públicas da mineradora citou uma delas em suas redes. Em suas redes sociais, ele se apresenta como “contratista minerário” e desde 2024 compartilha fotos no projeto da First Quantum, em uma delas posando com o grupo de relações públicas da empresa. O argumento dos fornecedores foi um dos que Mulino usou para impulsionar a reabertura. Além disso, o Comité de Donoso colabora de forma permanente e estreita com a empresa mineradora, segundo suas próprias publicações nas redes sociais. Nas entrevistas, não houve perguntas a Oliveros sobre o financiamento de seu Comitê; o foco esteve nos questionamentos ao CIAM.

Maru Galvez Abel Oliveros (1)

Captura de um post de @comitecivico_ com um tuíte em que a responsável de Relações Públicas da Cobre Panamá, Maru Gálvez, cita Abel Oliveros. Foto retirada do Instagram do Comitê.

O CIAM é uma organização criada em 2007 para defender “o direito humano a um ambiente” mediante litígios, incidência e participação cidadã. Desde então, apresentou mais de 200 ações legais, participou de centenas de consultas públicas e prestou assistência jurídica gratuita a comunidades. Também questiona a mineração a céu aberto pelos danos irreversíveis em um ecossistema ameaçado e acionou o contrato-lei que prorrogou a concessão de cobre à First Quantum Minerals em 2023, declarado inconstitucional pela Corte, assim como os ministros que o assinaram. Embora em seu site publique seus doadores com detalhes de valores, datas e projetos realizados, o comitê cívico de Donoso lançou a acusação que, mediante o eco de contas desinformadoras aqui descritas, transformou em um escândalo.

A partir da entrevista a Oliveros, a maquinaria avançou assim:

  1. Primeiro, os perfis anônimos compartilharam a entrevista de Oliveros

@LoroVerdeDePTY compartilha a entrevista de Abel Oliveros na Radio Panamá:

Fondos ambientales convertidos en bandera política: comunidades denuncian el costo social de la manipulación. pic.twitter.com/0iV1vWC5Vn

— El Loro De Panamá Es Verde (@LoroVerdeDePTY) October 8, 2025

La CIAM recibió financiamiento de la empresa Packard para ayuda social y ambiental en comunidades pero estos recursos se desviaron hacia agendas políticas que produjeron miles de desempleados, déficit económico y comercial en el país, en Coclé y Colón.#noticias #panama ?? pic.twitter.com/D53CEYvWVb

— Caminando Panamá 507?? (@Caminando507Pma) October 8, 2025

https://www.instagram.com/reel/DPjphSggNls/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA== 

2. Depois, as contas com nomes de causas ou de veículos como @justiciasocialpma publicaram vídeos com imagens editadas que misturavam essas declarações, a carta e material dos protestos de 2023 onde supostamente ficava exposta a equipe do CIAM.

@justiciasocialoficial_ #MineríaMásTrabajo #Panamá #ConMulinoMasChenChen #SiaLaMineriaResponsable ? sonido original – Justicia Social Oficial ??

3.  @panamaprogresa_507 e outras contas semelhantes distribuíram esses conteúdos.

@panamaprogresa_507 sobe ao TikTok o mesmo vídeo que perfis como @Caminando507Pma e @LoroVerdeDePTY compartilharam no X: 

@panamaprogresa_507 El financiamiento de la empresa Packard para ayuda social y ambiental en comunidades se desvío hacia el financiamiento de protestas no en contra del contrato minero del PRD sino del proyecto minero en Donoso, el desvío de estos fondos es ilegal e irresponsable. #noticias #panama ? sonido original – Progresa Panamá 507

4- O podcasteiro @xopabrian — com mais de 500 mil seguidores nas plataformas — postou em suas redes uma imagem com a seguinte legenda: “Baia baia baia… $400k em doações da Packard Foundation para @ciampanama Os empreendimentos ‘pseudo-ambientais’ parecem rentáveis (…)”. O post incluía a imagem da carta do Comitê enviada ao doador.

https://www.instagram.com/p/DPkTdMMCffr/?utm_source=ig_web_copy_link

5. No X, as contas pró-mineração compartilharam, responderam e contestaram quem questionava a publicação.

Baia baia baia… $400k en donaciónes de Packard Foundation para @ciampanama?
Los emprendimientos “pseudo-ambientales” se ven rentables ? pic.twitter.com/oQbxocKEgL

— Brian L. (@emprendementeX) October 8, 2025

Qué ironía… ¡Este sí es un verdadero Escándalo Verde!

— El Loro De Panamá Es Verde (@LoroVerdeDePTY) October 8, 2025

Ya que la CIAM me bloqueo su página dice más de $578,000 pero falta los reportes de Fidelity Founding y Mining Watch es mi humilde opinión ?carbono 0 pic.twitter.com/Ce7j0vJyXJ

— KevinDavidPty (@KevinDavidpty) October 9, 2025

Matan al tigre ? y le tienen miedo al cuero??? No es lo mismo llamar al diablo ?. Una demanda y la CIAM ya está pidiendo cacao y aguacate ????Alguien que le envíe el correo a CMW en Canadá ?? que se están acabando los fondos @LoroVerdeDePTY @Caminando507Pma pic.twitter.com/r8XPFHkMUL

— KevinDavidPty (@KevinDavidpty) October 9, 2025

6. Nos dias seguintes, o assédio não arrefeceu. Contas como @anonymous507pa, @grupoelite507 e @SoTruth1, retomavam acusações já instaladas por outras e as mantinham ativas.

Llamen a CIAM y a todos los anarquistas de Vamos y Políticos por recibir fondos para cerrar calles, empresas y precarizar el empleo.

Ya esta bueno.https://t.co/PpnywiVKSA

— @SoTruth507 (@SoTruth1) October 14, 2025

 

Ver esta publicación en Instagram

 

Una publicación compartida por ????????? (@anonymous507pa)

En un medio de comunicación televisivo, el periodista cuestionó Sobre el uso de fondos por parte de una fundación. @ciampanama y esperan alguna respuesta. pic.twitter.com/IKzqkw8SzC

— Grupo Elite 507 (@grupoelite507) October 10, 2025

Ya los medios internacionales están hablando del @ciampanama y de Packard Foundation, está vaina se está calentando. https://t.co/zfAsrUDZoE

— Franklyn Robinson (@frobinsonpty) October 10, 2025

7. No dia 10 de outubro, o Panamá América — jornal adquirido com fundos públicos por Martinelli, segundo determinou a Justiça ao condená-lo no caso New Business — publicou outra nota com o título “CIAM fica em silêncio sobre doação; comunitários pedem respostas”. A nota foi compartilhada, junto a outra do site empresarial bnamericas.com (apresentada como “veículo internacional” por quem a compartilhava), para conferir credibilidade à nota original.

@ellorodepanamaesverde Circula en las redes… Ahora andan mudos… Será que cuando se habla de los fondos verdes y las agendas políticas, se les fue la voz. #EscándaloVerde #Hambrientalismo #HipocresíaVerde #Panamá #TransparenciaYa ? sonido original – El Loro de PTY

El CIAM todavía no rinde cuentas sobre los 400.000 dólares que les dio la Fundación David y Lucile Packard que eran para ayuda social y ambiental en comunidades, lo que sí está claro es que tienen una campaña bien orquestada en contra del proyecto de Cobre Panamá en Donoso. pic.twitter.com/9PISKSOVZG

— Caminando Panamá 507?? (@Caminando507Pma) October 13, 2025

https://www.instagram.com/reel/DPo3pwQkzT3/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA== 

? Silencio absoluto… pero el país exige respuestas ? ¿Dónde quedó ese “chen chen”?

El murmullo ya se convirtió en estruendo ??. Tanto @ciampanama como su misterioso fondeador están bajo la lupa internacional ?

? Todos esperan que hablen… ¿hasta cuándo el mutis? pic.twitter.com/CFD5Iwh6mw

— 24/7 Noticias Panamá (@247NoticiasPma) October 10, 2025

8. Panamá en Directo e Wilson Jaramillo tentaram veicular anúncios que não cumpriam as regras, razão pela qual foram removidos pela Meta. Mas Panamá en Directo insistiu e conseguiu veicular um vídeo afirmando que o CIAM tinha doadores obscuros.

Evidência: Avisos Panama en Directo 6 de junio

https://www.facebook.com/ads/library/?id=1922363755016386

https://www.facebook.com/ads/library/?id=1330580544988270

9. Perfis com vínculos com a empresa — alguns declarados, outros possíveis — também se somaram. São mais de uma dezena, mas se destaca o ex-Profe Minero, que no Instagram publicou em colaboração com o comitê cívico que denunciou o CIAM.

https://www.instagram.com/reel/DP17o6IEbr5/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA== 

10. No final de outubro de 2025, @xopabrian acrescentou novas acusações contra o CIAM e outras organizações como Sal de las Redes, o Colectivo Ya es Ya e o capítulo local da Transparência Internacional, a Fundação para o Desenvolvimento da Liberdade Cidadã. Sua presidente, Lina Vega, faz parte da diretoria do CIAM. Segundo @xopabrian, o CIAM não informa quais doações recebe (embora, como mencionamos acima, o faça em seu site).

https://www.instagram.com/p/DQUrgWmiQtf/ 

A rede de contas minerárias compartilhou, respondeu e manteve o tema em circulação. A sequência mostra o padrão de sintonia entre atores aparentemente distintos, que compartilham as mesmas narrativas e concentram sua atenção sobre as mesmas pessoas e organizações ao mesmo tempo.

No início de junho de 2026, o influencer @cris_abrego1 tornou pública uma prática da qual até então se falava em privado. Em um vídeo, contou que uma agência o contatou para contratá-lo a “um preço acima da média” para falar “das coisas positivas” da reativação minerária e “das pessoas que são contra tudo”. Ábrego encerrou o vídeo com uma pergunta aos seguidores: “dinheiro ou princípios?”

O Taladores Digitales consultou influencers, produtores de conteúdo e pessoas vinculadas ao negócio das redes sociais no Panamá. Todos descreveram a prática como habitual: intermediários os contatam para que expressem apoio sem tornar transparente que há uma compensação financeira por trás, uma prática cada vez mais questionada por seu potencial de enganar audiências jovens simulando apoios “orgânicos”. Dois criadores de conteúdo mencionaram uma agência localizada no mesmo edifício que a filial panamenha da First Quantum Minerals: Torres de las Américas.

Esta aliança contactou a agência, mas não obteve resposta. No questionário enviado à empresa mineradora, incluiu-se uma pergunta sobre a denúncia de Ábrego e as afirmações de outros influencers sobre essas contratações. Como indicado antes, Maru Gálvez evitou comentários sobre cada consulta específica. De forma geral, no e-mail de resposta escreveu: “Como empresa legalmente constituída e devidamente estabelecida no Panamá, rejeitamos de forma categórica as insinuações, suposições e afirmações não verificadas contidas em seu questionário, as quais parecem partir de conclusões preconcebidas e não de fatos comprovados.”

De volta às ruas

O assédio a defensores ambientais não é uma novidade, mas a escala atual — pela quantidade de contas, atores envolvidos e recursos investidos — atingiu um volume sem precedentes no Panamá.

“É terrível porque é complicado distinguir quem decide contribuir com os problemas do país abrindo espaços de debate e quem o faz como sicário ao melhor lance”, disse Lina Vega, da Transparência Internacional. “Saí para explicar, porque sempre saio para explicar, mas a cada vez me respondiam com um novo ataque. O dano que fazem à democracia é enorme.”

“Fizeram isso durante os protestos de 2023”, disse a esta aliança Roberto Ruíz Díaz, do Movimiento de Abogados por la Patria, referindo-se ao assédio e aos ataques digitais recebidos naquele momento. “Agora utilizam mais contas de redes que sabemos serem pagas para atacar pela empresa mineradora, que é a única que obteria um benefício real, além dessas contas pagas.”

“Não posso negar que é desagradável enfrentar diariamente esse tipo de assédio digital”, disse a colunista Sabrina Bacal. “Mas a experiência de 25 anos na profissão me diz que, se me atacam tanto, é porque disse coisas importantes e devo continuar dizendo-as.”

Mais de vinte pessoas atacadas pela rede digital entrevistadas por esta aliança — ativistas, advogados com voz pública e jornalistas investigativos — foram impactadas. Por impotência ou raiva, por autocensura ou pelo tempo que perdem explicando.

Por ter ratificado o Acordo de Escazú — convertido em lei em 2020 —, o Panamá deve proteger quem defende o território, sancionar os ataques e garantir o acesso à informação, à participação e à justiça ambiental. No entanto, na prática esses direitos não são garantidos. A Corte apontou em seu acórdão de 2023 que não foi garantida a participação cidadã no processo de concessão minerária.

Na sexta-feira, 29 de maio, deveriam ser conhecidos os resultados da auditoria ambiental que Mulino disse precisar para tomar uma decisão sobre o futuro da mina Cobre Panamá. Uma semana depois, não foram publicados. No entanto, o presidente anunciou da Grécia a criação de uma equipe interinstitucional integrada pelos ministros da Economia, do Comércio e do Ambiente — dois deles com vínculos com a mina — para avaliar e apresentar recomendações sobre o futuro.

Apesar disso, os defensores panamenhos já estão marchando outra vez.

METODOLOGIA

O Taladores Digitales rastreou os anúncios veiculados com as palavras “cobre” e “mineração” que circularam nas plataformas da Meta (Facebook, Instagram) dirigidos a audiências no Panamá. A busca resultou em 462 casos de publicidade ativada entre 21 de junho de 2022 e 26 de maio de 2026, que foram baixados diretamente da plataforma com as informações que a Meta registra para cada um: nome do anunciante, data de publicação, valor investido e link original.

Narrativa Descrição
Ataque Apresenta defensores ambientais, figuras públicas que questionam a reativação do projeto Cobre Panamá e jornalistas investigativos como “atores pagos”, “ecofamintos”, “comunistas” e outros termos semelhantes para deslegitimar sua atuação pública. Além disso, os responsabiliza pelo desemprego ou pela falta de investimento estrangeiro. (ver exemplos aquí, aquí e aquí).
Desinformação Anúncios que apresentam como fatos estabelecidos afirmações sem provas verificáveis. Inclui vídeos que imitam a identidade visual de redes internacionais ou veículos locais para parecerem peças informativas objetivas. (ver exemplos aquí, aquí, aquí, aquí, aquí, aquí e aquí).
Greenwashing Apresentam atividades extrativas ou projetos com impacto ambiental como inerentemente sustentáveis, responsáveis ou benéficos ao meio ambiente, minimizando ou negando seus possíveis efeitos negativos. Por exemplo, mensagens que apresentam o projeto extrativo como solução para a sustentabilidade e a transição energética. (ver aquí, aquí, aquí e aquí).
Pró-abertura Conteúdos cujo mensagem principal promove a reativação de Cobre Panamá com argumentos econômicos, como a geração de emprego local e as contribuições ao Estado. (ver aquí, aquí e aquí).
Propaganda política Utiliza o debate minerário no contexto da campanha presidencial de 2024 e da discussão atual para promover ou atacar candidaturas e políticos. (ver aquí, aquí e aquí).
Anti-mina Expressa oposição à mina Cobre Panamá. (ver aquí).
Removido Anúncios cujo conteúdo já não está disponível na Biblioteca e não podem ser verificados. Os motivos variam: a Meta os retirou por infringir suas normas publicitárias ou por falta da declaração de responsabilidade exigida para anúncios políticos, ou o próprio anunciante os removeu. (ver aquí, aquí, aquí e aquí).

O Taladores Digitales também elaborou uma base de dados regional, que analisou 789 posts em redes sociais e sites que contêm mensagens de assédio e perseguição contra 77 pessoas, coletivos e comunidades que defendem o meio ambiente e o território no México, Honduras, Guatemala, Panamá, Colômbia e Brasil. A metodologia e o painel com gráficos e infográficos estão disponíveis em taladores-digitales.elclip.org.

Devastadores Digitais

Devastadores Digitais é uma investigação que busca desvendar quais interesses estão por trás das campanhas de descredibilização no espaço digital contra ativistas ambientais em seis países latino-americanos, coordenada pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP), em parceria com AFP (Brasil), Colombiacheck (Colômbia), Agência Ocote (Guatemala), Contracorriente (Honduras), Animal Político e Mongabay LATAM (México) e Concolón (Panamá). Com o apoio da “Global Initiative for Information Integrity on Climate Change” e a revisão jurídica da El Veinte.

 

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