O gigante amazônico chegou à Bolívia há quase meio século e se tornou uma ameaça para peixes nativos em diversos rios. Agora, comunidades indígenas e pescadores artesanais vendem sua carne para o Brasil, o Peru e, em menor escala, para as principais cidades bolivianas, o que pode ajudar a controlar sua expansão. Na vanguarda, chefes de cozinha passaram a incluir o peixe em seus menus.
Por: Rocío Lloret Céspedes
O filé de pirarucu é firme, de fibra longa e cor perolada. Não tem gordura, nem espinhas. Textura densa e suculenta. Toque pegajoso. Odor sutil. Sabor de… nada?
É quase meio dia, abril em La Paz, e a ameaça de chuva paira sob um céu escuro. No casarão colonial que abriga o restaurante Popular Cocina Boliviana — dois andares, varandas e um pátio interno — uma fila de clientes se forma aos poucos, esperando sua vez de entrar e experimentar o cardápio da semana. Um menu que inclui o exótico peixe que chega à cidade, a 3600 metros de altitude, vindo desde o Amazonas, a mais de 530 quilômetros de distância.
“É a segunda vez que venho”, conta Julio Cartagena: não mais que 40 anos, corpo robusto, pele bronzeada. O homem observa a porta insistentemente, como se assim pudesse abri-la mais rápido. Por fim, com o badalar do meio-dia, vindo da Catedral Metropolitana, a meio quilômetro dali, a hostess anuncia o menu de três etapas que será servido nesta refeição: entrada, prato principal e sobremesa. Ao todo, 99 bolivianos, ou cerca de 15 dólares no câmbio oficial; um valor que não é tão acessível para o boliviano médio atualmente, já que a escassez de moeda estrangeira, somada a outros fatores como preço alto de alimentos e falta de combustível, mergulhou o país em uma profunda crise econômica. Ainda assim, a casa está lotada, como todos os dias. Às 14h30, uma nova turma entrará no restaurante. Outra fila se formará, com clientes ansiosos para que os primeiros terminem logo. Por ora, só resta curtir a experiência..
Juan Pablo Reyes, chef do Popular, começou a trabalhar com carne de pirarucu há mais de sete anos, quando abriu o restaurante. Na época, ao final de 2017, pouca gente conhecia o peixe. A Bolívia tem um dos indíces de consumo de pescado mais baixos da região, de acordo com a FAO; apenas 2,1 kg por pessoa ao ano. Como não é banhado pelo mar, o país tem acesso limitado a peixes e a outras espécies marinhas. O boliviano das grandes cidades prefere aquilo que já conhece: pacu, surubim, curimbatá, vindos das regiões mais baixas; truta e peixe-rei, vindos do Titicaca; considerado o lago navegável mais alto do mundo.
A cada cinco dias, Reyes muda o cardápio do Popular, pois sua cozinha é autoral. Nas três opções oferecidas, nunca falta algum tipo de peixe, que pode ser truta ou, neste caso, pirarucu. “Um peixe que, quando cozido, fica macio e absorve bem o tempero, já que não tem um sabor tão intenso quanto outros”, descreve Reyes.
Das 95 refeições vendidas diariamente no Popular, 42 são de pirarucu. Naquele dia, o peixe foi preparado em rolinhos delicados, banhados por um molho avermelhado. Ao servir, o garçom detalha os ingredientes – frutos amazônicos como o maracujá – e descreve os paladares e sensações. Como o sabor do pirarucu não é tão intenso quanto o do pacu, por exemplo, a criação se adapta perfeitamente às intenções do chefe: agridoce, com um toque de acidez, ou mais encorpado, graças ao alho.
A comida é boliviana, mas o ingrediente principal é estrangeiro. Ou, mais que isso, é invasor.

O colonizador do Amazonas
O pirarucu (Arapaima gigas) chegou à Bolívia “por acidente”. Muitos biólogos concordam que isso aconteceu na década de 1970 (possivelmente em 1976), quando muitos peixes escaparam de um criador no rio Madre de Dios, no Peru, seu habitat natural. Durante uma enchente, eles chegaram ao rio Beni, que é seu afluente e um dos principais rios da Amazônia boliviana.
“Por volta dos anos 2000 a espécie se consolidou e, aparentemente, durante uma enchente muito forte no Beni em 2014, ela foi introduzida no rio Guaporé”, de acordo com Paul Van Damme, biólogo belga que chegou à Bolívia em 1995 e é diretor executivo da Faunagua. A organização trabalha com pescadores em prol da conservação de espécies como o boto-boliviano (Inia boliviensis), endêmico da bacia do rio Madeira, cuja maior população se encontra na Bolívia.
Com base em relatos de pescadores, o pesquisador também suspeita que pode ter havido outra introdução, vinda do Brasil, por meio da bacia do rio Guaporé, na fronteira com o país vizinho, onde também existem produtores de pirarucu. Chegando ao Guaporé, o peixe se adaptou com facilidade e avançou em direção à bacia de um de seus afluentes, o rio Paraguá. “Trata-se de um rio de águas claras, o habitat ideal para o pirarucu”, afirmou Van Damme.
Este gigante aquático não gosta de águas frias, nem turvas, por isso não chegou à cabeceira dos rios, nas regiões mais altas da Bolívia. Já nas terras baixas e quentes da bacia amazônica, ele avança tranquilamente. Existem até registros de sua presença na Bacia do Prata, e alevinos foram encontrados em aquários ornamentais de Santa Cruz de la Sierra, a capital da região leste da Bolívia, vizinha a Beni, segundo Lila Sainz, coordenadora do corredor Guaporé-Mamoré da organização ambiental WWF Bolívia.
“No momento, há um registro no Pantanal” (Bacia do Prata, em Santa Cruz). Lá também existem rios e lagoas de águas claras. O pirarucu já colonizou praticamente 90 por cento dos rios disponíveis. Falta apenas a parte alta da bacia do rio Mamoré (Puerto Villarroel, Cochabamba), pois as temperaturas são baixas demais, revela o biólogo Van Damme.

Um estranho em casa
O Arapaima gigas não é a única espécie invasora ou exótica na Bolívia. Um estudo sobre sua presença no país revelou que existem outras oito espécies de peixe que “aparentemente se adaptaram bem às condições locais”. Na região do altiplano, a truta-arco-iris (Oncorhynchus mykiss) e o peixe-rei (Odontesthes regia), por exemplo, são consideradas espécies locais, quando, na verdade, foram introduzidas no Lago Titicaca. Atribui-se a elas a redução das populações de espécies nativas como o orestias-do-titicaca (Orestias cuvieri, ou Orestias pentlandii), um pequeno peixe nativo, com escassa presença em seu hábitat natural.
“O mais preocupante a respeito das invasões biológicas é um processo conhecido como naturalização. Isso ocorre quando as pessoas passam a acreditar que a espécie sempre esteve ali”, explicou Guido Miranda, biólogo da organização Wildlife Conservation Society (WCS), que trabalha com pescadores para reduzir as populações do pirarucu. Em restaurantes e barracas de rua em La Paz, a truta e o peixe-rei são apresentados como parte da culinária tradicional. Entretanto, o pirarucu ainda é visto como um peixe exótico.
Pescadores da Amazônia boliviana relatam que houve uma redução nas populações de peixes nativos bolivianos após a chegada do pirarucu. Ainda que não existam estudos científicos que corroborem essas observações, as bacias amazônicas bolivianas contam com a maior diversidade de peixes nativos do país, especialmente no rio Madeira, no Mamoré, e no Beni, de acordo com dados coletados por Luana Costa, João Miguel Moreira, Iago Simões e Marina Méga, que fazem parte do programa de formação em ecologia quantitativa do Instituto Serrapilheira. (Ver gráficos)
Esta reportagem é fruto de uma colaboração apoiada pelo instituto, em parceria com o Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (CLIP), para que jornalistas e pesquisadores explorem, juntos, como os danos a biodiversidade da Amazônia afetam os diversos serviços ambientais que ela presta ao continente.
Nesse contexto, fica claro que um animal com a voracidade e o tamanho do pirarucu – com até três metros de comprimento e mais de 200 quilos – come basicamente tudo o que encontra pela frente.
O biólogo Fernando Carvajal-Vallejos publicou uma série de estudos sobre o tema com Van Damme e outros cientistas. Três dessas pesquisas nos ajudam a entender o que a presença do “rei do Amazonas” representa para a Bolívia. Um dos estudos aborda a genética do peixe, outro sua alimentação e o terceiro, ainda não publicado, a pesca artesanal.
No primeiro caso, Carvajal-Vallejos e a equipe de especialistas buscava saber se a introdução do pirarucu na Bolívia incluía uma, ou várias espécies. Após estudarem exemplares de três regiões – os rios Orton, Madre de Dios e Beni -, concluíram que “são todos mais ou menos da mesma espécie, apesar de algumas variações genéticas”. A respeito da dieta, observaram que se trata de uma espécie onívora, não apenas carnívora como se acreditava no Brasil. Isso pode ter influenciado no sucesso de seu estabelecimento e dispersão, já que, nas palavras de Carvajal-Vallejos, “o pirarucu come de tudo: peixes, plantas e até outros animais”.
No terceiro caso, o biólogo e sua equipe apelaram à ciência cidadã e pediram aos pescadores que usassem o celular para monitorar a espécie, com o objetivo de registrar o rendimento da pesca, o tamanho dos exemplares pescados e outros detalhes que contribuam para um manejo sustentável. Mesmo que os resultados do estudo ainda não tenham sido publicados e já tenham cerca de dez anos, ele acredita que os números não tenham variado muito e que esse conhecimento será de grande ajuda para definir quais estratégias adotar.
Avanza en ríos, no en paladares
Nos cardápios de restaurantes autorais e vanguardistas das principais cidades da Bolívia, o pirarucu já e parte do menu amazônico. Também entrou na lista de ingredientes de restaurantes peruanos, servido sobretudo na forma de ceviches e empanado. Contudo, o “rei” ainda não colonizou o paladar da culinária popular boliviana. Em geral, as pessoas não o conhecem e, portanto, não sabem como prepará-lo.
Como maneira de incentivar seu consumo, organizações como a WWF Bolívia e a WCS, promovem projetos que incluem a capacitação em técnicas de pesca, abate e conservação da carne, além de oficinas gastronômicas em feiras de turismo, onde vendedores ambulantes aprendem a preparar pratos com o peixe. “Esperamos incentivar seu consumo. Por exemplo, as pessoas que vivem em comunidades ribeirinhas que sempre consomem pescado, não querem comer pirarucu porque eles não gostam da carne. Eles preferem as espécies com as quais já estão acostumados”, comentou Lila Sainz, da WWF Bolívia.
Algo similar acontece nas cidades.
“Tenho filé de corvina!”, anuncia uma vendedora rechonchuda, adornada por um avental impecável, no mercado Florida de Santa Cruz, enquanto espanta as moscas com um espanador improvisado, feito com um punhado de sacolas plásticas presas a um pedaço de madeira. Aquele pedaço de carne pálida e perolada pode muito bem ser de pirarucu, pois, segundo os pescadores de Beni, essa é uma das maneiras de vendê-lo. Eles explicam que o mesmo acontece nos mercados de sua região. “Como vendem o peixe filetado, é mais difícil identificá-lo”, assegura Leandro Cadima, pescador de Trinidad.
É véspera de Semana Santa e a tradição católica manda comer peixe. Sob o calor escaldante de Ilano, o mercado Florida fervilha: as pessoas se amontoam nos balcões da peixaria, à procura da carne branca do sável e do pacu. Pergunto à casera – como as vendedoras são conhecidas por lá – se ela tem pirarucu.
“Não tenho, mas pode ser que tenham ali”, responde, apontando para o final de um corredor abarrotado de homens e mulheres com sacolas em mãos, à procura de preços baixos, já que mesmo a galopante crise econômica não foi capaz de acabar com a tradição da Sexta-Feira Santa.
No final do corredor, encontro o filé de pirarucu. A casera o oferece a 60 bolivianos por quilo (cerca de seis dólares). “O bom é que dá para aproveitar tudo. E é ótimo para quem tem crianças e idosos em casa”, diz. Como é filé, não tem espinhos. Hoje está mais caro que de costume; no ano passado custava 45 bolivianos.
Em La Paz o mercado para o pirarucu é maior que em Santa Cruz, segundo Roger Yarari Cartagena, indígena Tacana da comunidade Carmen de Lemero, em Ixiamas, no norte amazônico.
Há pouco tempo, o homem de 38 anos trocou deixou a agricultura e agora se dedica à pesca do pirarucu. Ele conta que é fácil pescá-lo, graças às redes grandes, que permitem que os peixes nativos escapem, capturando apenas o pirarucu e outros peixes de grande porte. A espécie se reproduz rapidamente – segundo ele -, embora não seja consumida em seu povoado.
Para Guido Miranda, da WCS, a estratégia de controle por meio da pesca começou tarde, quando o peixe já havia se espalhado. “Percebemos que em todas as lagoas, essa era a espécie mais abundante. O mesmo acontece no rio Beni. Nos últimos anos, o pirarucu começou a se proliferar ainda mais e, foi então, que começamos a nos coordenar com associações de pescadores para promover acordos com os restaurantes (para que eles comprem a carne)”, contou o biólogo.
Mesmo assim, a venda ainda ocorre em escala muito limitada, em vista da magnitude da invasão. Peixes adultos seguem se reproduzindo, despejando milhares de alevinos nas águas. “No Brasil, os peixes maiores são pescados com arpão, o que praticamente acabou com sua distribuição natural. O mesmo não acontece aqui”, lamentou Miranda.

Entre a versatilidade e a consciência ambiental
Marsia Taha, eleita a melhor chef da América Latina em 2024, é uma das profissionais com quem a WCS firmou uma aliança para comprar o pirarucu diretamente de comunidades como a do pescador Roger Yarari. Há oito anos, Taha começou a usar o peixe como ingrediente de suas criações culinárias, entre outros motivos, por gostar da versatilidade da carne, mas também porque ficou sabendo que era uma espécie que “estava arrasando com as espécies nativas, de menor porte”.
No Arami, seu restaurante na exclusiva zona sul de La Paz, o pirarucu sempre está no cardápio. Até o momento, ela já criou mais de cem receitas, incluindo presunto, charcuteria, conservas e experimento até mesmo técnicas de fermentação japonesas. Além disso, Taha é uma das poucas chefs que aproveita outras partes do peixe, como as escamas, para criar talheres e pratos.
Devido à sua agenda apertada, Taha explicou por telefone que trabalha com pescadores do povo Tacana, embora tenha comprado peixe de outros fornecedores, já que a carne nem sempre chega a tempo.
“Há situações que fogem do controle, como o clima”, contou. O mesmo acontece quando as estradas são interditadas por protestos e manifestações, ou pela cheia dos rios após períodos chuvosos; ambos muito frequentes na Bolívia. Além disso, comprar das comunidades sempre custa mais caro. “Teoricamente, cortar os intermediários ajuda a diminuir custos, mas na verdade sai muito mais caro”, afirma Taha.
Nos mercados pesquisados, o preço do quilo do filé gira em torno de 60 bolivianos (pouco menos de dez dólares, de acordo com o câmbio oficial). Enquanto que, no local de origem, o preço varia entre 10 e 12 bolivianos; na alta, chega a 20 bolivianos (de dois a três dólares). O maior problema é o transporte: 540 quilômetros entre Ixiamas e La Paz, ou da Amazônia ao Altiplano, através de estradas muito difíceis. Por outro lado, um prato em restaurantes como o Arami, supera os 200 bolivianos por pessoa (cerca de 30 dólares), embora existam opções de menor preço, a partir de 10 dólares em restaurantes peruanos e em outros que promovem a culinária amazônica.
Apesar de Santa Cruz estar muito mais próxima de Beni – 387 quilômetros entre as cidades – o principal mercado continua a ser o de La Paz, já que as “capitais” do pirarucu – Riberalta e Bellavista (Beni) – estão mais próximas dali. Em Santa Cruz, o pirarucu pode ser encontrado em restaurantes mais populares, o que não significa que seja mais barato: algo entre 10 e 15 dólares, de acordo com a cotação oficial.
Outro elemento que encarece o filé nas cidades é que a pesca dessa espécie de peixe requer um investimento adicional. O biólogo Van Damme conta que são necessários cerca de 10 mil bolivianos (quase 1.500 dólares) para comprar um tipos específicos de rede, de embarcação e de caixa de gelo, devido ao tamanho do peixe. “É um investimento altíssimo”, conclui.

Um mercado sem Estado
O fato de um único peixe render tantos quilos de filé faz da pesca do pirarucu um bom negócio. Porém, os especialistas alertam que, se a atividade acontece sem regulamentação estatal, em vez de contribuir para a reduzir a população, ela pode gerar outros problemas ambientais. Por exemplo, as redes de malha larga arrastam plantas, sedimentos, causam turbulência e impactam o ecossistema de outras maneiras, afirma Van Damme.
Atualmente, existe apenas um plano de controle na Bolívia, na Reserva Nacional Manuripi, em Pando, o menor e mais amazônico estado do país, onde a espécie está presente. “Neste momento, estamos trabalhando com o Governo de Beni (principal região produtora de pirarucu no país), mas faltam recursos. É muito caro”, lamenta Van Damme
Diante disso, é o mercado que regula, de fato, a pesca do pirarucu. Fica em Bellavista (Beni) um dos principais centros de distribuição desse tipo de carne no país. De acordo com relatos de pescadores que estão em contato com o biólogo, um comerciante privado subsidia a pesca para poder comprar o peixe.
De acordo com os mesmos relatos, sabe-se que atualmente o mercado do pirarucu está distribuído da seguinte maneira: 80 por cento do peixe é vendido para o Brasi, 10 por cento para o Peru e o restante fica na Bolívia.
A reportagem do La Región solicitou informações ao Ministério do Meio Ambiente e Águas, e ao Ministério de Desenvolvimento Produtivo a respeito das políticas de regulamentação e incentivo do consumo da carne de pirarucu, mas não obteve resposta até o fechamento do texto. Embora o pirarucu esteja na lista de produtos subsidiados, que o Estado boliviano distribui para mulheres grávidas e mães com filhos de até dois anos, visitas a supermercados revelaram que o peixe não chega com frequência, ou nunca chegou, como no caso de uma rede de supermercados que distribui esse benefício social.
Por meio da publicação de estudos, a ciência também tenta incentivar o consumo, como uma das poucas estratégias para controlar a população do pirarucu. Isso sem contar o potencial de outras partes do peixe, como o couro e os ossos, que também são muito procurados em países vizinhos, como o Brasil.
“Conheço um comerciante de Cochabamba que compra pirarucu com couro e osso. Isso torna o preço mais atraente, uma vez que ele encontrou mercado para esses subprodutos, utilizados para a produzir artesanato e para produzir ração enriquecida com os ossos”, conta Vicent Vos, biólogo holandês que vive desde 2001 em Riberalta, Beni, outro grande centro de distribuição para a carne de pirarucu.
Distantes dessa realidade, separados por mais de 1.300 quilômetros entre Beni e Manaus, João Campos-Silva, que recebeu prêmios por envolver comunidades indígenas na preservação do pirarucu, ameaçado no Brasil; acredita que sem dimensionar o tamanho do problema (da invasão) e sem escutar os povos indígenas, os pescadores artesanais e o próprio governo, será muito difícil falar em controle populacional.
“No Brasil, o pirarucu é uma espécie resistente, bem adaptada a ambientes quentes e com pouco oxigênio. Ele está se recuperando em sua área de ocorrência e está fazendo isso de maneira impressionante, pois, além de contribuir para a preservação do meio ambiente, o pirarucu também traz muitos benefícios para as comunidades tradicionais”, explica Campos-Silva, sobre a importância da regulamentação, tanto para a recuperação, como para a redução de populações, como no caso da Bolívia.

Apostando no pirarucu
A pesca artesanal do peixe tem crescido nos últimos anos. No mercado camponês de Trinidad – capital de Beni – não havia muita carne de pirarucu. Atualmente, é mais comum vê-lo, ainda que peixes nativos como o pacu, o surubim e o tamuatá ainda sejam os preferidos do paladar beniano. O mesmo acontece na praça de alimentação popular do mercado, onde foi difícil encontrar pirarucu empanado, a forma mais comum de preparação do peixe. O preço? Trinta bolivianos, ou quase cinco dólares, ou um dólar mais que o restante dos pratos especiais.
Isso fez com que um número crescente de pesquisadores, como o veterinário Luis Torres, do Centro de Pesquisa em Recursos Aquáticos (CIRA) da Universidade Autônoma de Beni (UAB), buscassem recursos para continuar estudando a atual alimentação da espécie.
Enquanto isso, nas cidades, chefs de alta gastronomia como Marsia Taha dizem que, embora saibam que o pirarucu ainda não tem um papel relevante nos paladares bolivianos, cada vez mais pessoas procuram pela espécie. Ela até encontrou o peixe em um mercado no bairro de Achumani, onde vive, ao sul de La Paz.
“Acredito que os restaurantes de La Paz fizeram um grande trabalho ao criar uma cozinha que não é necessariamente tradicional. Uma culinária mais inovadora e transgressora, mas com identidade boliviana”, assegura.
Uma prova disso é o sucesso do Arami, assim como o do Popular Cocina Boliviana e de outros restaurantes de gastronomia autoral e de vanguarda. Mesmo com a crise econômica e social que assola o país, a oferta culinária que inclui a gastronomia amazônica está presente e, aos poucos, chega a regiões mais tradicionalistas, como Cochabamba e Chuquisaca. Existe público para ela.
O mercado também serve como termômetro e, enquanto o Estado não assume a direção, seu lugar é ocupado por pescadores, povos indígenas, cientistas, consumidores e organizações não governamentais. Pode não bastar, mas é uma barreira natural contra o avanço do rei invasor.
Esta reportagem é o resultado de uma colaboração entre jornalistas e cientistas latino-americanos, promovida pelo Instituto Serrapilheira, do Brasil, e pelo Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (CLIP), para explorar como os danos à biodiversidade da Amazônia prejudicam os vários serviços ambientais que ela presta ao continente.




