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A resistência das abelhas nativas de Peru contra o desmatamento

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Fotografías_Gino Tuesta

As abelhas sem ferrão dependem das florestas para sobreviver. Hoje, o que resta de seu habitat são pequenos refúgios mantidos por indígenas e cientistas

Por: Sally Jabiel (América Futura – El País)

Uma por uma, as abelhas sem ferrão voltam pra caixinha de madeira. Algumas chegam com bolotas de pólen grudadas nas patinhas traseiras; outras com a boca cheia de néctar. Entram no ninho, somem por um instante e logo saem de novo. São miúdas, discretas, e mal conseguem voar além de uns cem metros. As Meliponini vivem do que encontram ao seu redor. Seu mundo gira em torno das matas, que elas polinizam há milhões de anos.

Mas seu mundo está cada vez menor. Hoje, para achar essas abelhas no Peru é preciso andar mais de duas horas sob o sol escaldante, atravessando campos estéreis e terras devastadas, até chegar onde ainda restam árvores altas. “As colmeias nativas só sobrevivem onde ainda existe mata virgem”, explica Heriberto Vela, um meliponicultor de 58 anos, que vive na comunidade indígena de San Francisco, sem estrada, nem sinal de celular, ao norte de Loreto, na Amazônia peruana. Às margens do rio Marañón (porção peruana do rio Solimões), o povo kukama kukamiria construiu pequenos santuários de madeira. Protegem esses ninhos da Apis mellifera – a abelha europeia trazida pelos colonizadores e espalhada pelo continente, que se dá bem onde as nativas definham. Cuidar das abelhas nativas é uma forma de resistência.

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Heriberto Vela cría Melipona eburnea (uruçu), Melipona grandis (uruçu grande), Melipona illota, Melipona titania e Tetragonisca angustula (jataí). Ele também colabora com o santuário de abelhas sem ferrão da escola de sua comunidade. Foto: Sally Jabiel

Herdeiras das matas

“Às vezes penso nos anos que perdi sem estudar essas abelhas”, lamenta César Delgado, entomologista de origem kukama kukamiria, e um dos maiores especialistas em abelhas sem ferrão no Peru. Seus olhos, intensos e brilhantes, são próprios de alguém que se dedica a destrinchar o que, para os outros, é apenas um detalhe. Desde 1997, trabalha no Instituto de Pesquisa da Amazônia Peruana (IIAP) e, há uma década, se dedica às Meliponini e seus padrões de polinização. “Sua diversidade é impressionante e estamos longe de compreendê-las por completo”.

Das vinte mil espécies de abelhas no mundo, as Meliponini são uma das linhagens mais numerosas, com mais de 550 espécies. Na América Latina, foram identificadas mais de 400 espécies de abelhas sem ferrão e, no Peru, existem ao menos 175, ainda que esse número possa chegar ao dobro.

De acordo com o livro de Christoph Grüter, que pesquisa insetos sociais, as Meliponini têm mais de 70 milhões de anos de evolução e conviveram com os dinossauros, altura em que perderam os ferrões funcionais. Muito antes da chegada dos colonizadores e da introdução da Apis mellifera, no Perú, em 1857, os povos indígenas já conheciam bem essas abelhas: em que árvores se instalavam, quando coletar o mel e como usá-las. Seu vínculo com as abelhas nativas é tão antigo – e tão espiritual – quanto a floresta. A sobrevivência de ambos depende da resistência de seu território.

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As abelhas sem ferrão têm rainhas, operárias e zangões. Porém, ao contrário da Apis mellifera, a nova rainha das Meliponini não fica na colmeia original e sai para formar seu próprio ninho. Foto: Gino Tuesta

Curam, polinizam e sustentam a floresta

Heriberto Vela conheceu César Delgado em 2018, quando era guarda florestal da Reserva Nacional Pacaya-Samiria, em Loreto. Naquela época, ele cuidava de três colmeias silvestres sem muito conhecimento técnico. Aos poucos, ele aprendeu e, agora, os dois trabalham juntos no meliponário familiar de San Francisco, onde Vela cria cinco espécies de abelhas sem ferrão. Uma das mais populares é a Melipona eburnea, conhecida no Brasil como uruçu.

Delgado confere uma das 46 caixas de criação e revela uma arquitetura viva de potes de mel, pólen e cera, construída por essa espécie de corpo robusto e acobreado. “Cada caixa é uma pequena comunidade que se organiza melhor do que nós”, explica Vela, que também toma conta de 40 ninhos silvestres em árvores, localizadas por GPS.

“Elas nem percebem que estou coletando o mel”, continua encontra extrai uma gota com a seringa. Mais líquido que o mel da Apis mellifera, seu sabor é resultado da paisagem que polinizam: mais cítrico, mais herbal, menos enjoativa. Vela explica que esse mel é alimento e remédio contra machucados, infecções e até resfriados para os kukama.

Essa tradição ancestral encontrou respaldo em uma pesquisa pioneira de César Delgado e Rosa Vásquez Espinoza, bióloga química e fundadora da ONG Amazon Research International. O estudo confirmou que o mel produzido pela Melipona eburnea e pela Tetragonisca angustula, conhecida no Brasil como jataí, contém moléculas medicinais com propriedades anticancerígenas, antibacterianas, anti-inflamatórias e antivirais.

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Heriberto Vela e sua filha, Roxana, coletam mel da Melipona eburnea, ou uruçu, uma das abelhas mais populares entre os kukama kukamiria. Outros povos indígenas, como os achaninca, também criam esta espécie. Foto: Sally Jabiel

Contudo, a produção é limitada. Enquanto a Apis mellifera produz entre 20 e 30 litros de mel por ano, as nativas geram de um a três litros. Há três anos, meio litro de mel de jataí custava três dólares, conta Vásquez Espinoza. Depois do estudo, o preço saltou para 20 dólares. Mesmo assim, é um produto com nicho limitado.

Além de seu valor medicinal, essas abelhas também são polinizadoras especializadas, o que contribui para a manutenção da diversidade genética da floresta. “Elas estabeleceram relações especiais com plantas da região. Elas cultivam as espécies nativas com quem evoluíram lado a lado”, explica Marilena Marconi, bióloga italiana responsável pelo meliponário experimental do Centro Urku, em San Martín, na amazônia peruana.

Entre os frutos nativos que se beneficiam da polinização está o camu camu (Myrciaria dubia), cuja produção pode aumentar até 44 por cento. No caso de outras produções comerciais, como o café, a produção melhora cerca de 28 por cento, de acordo com um estudo realizado por Delgado. Em outras palavras, as Meliponini contribuem para o sustento de quem cultiva a floresta.

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Heriberto Vela y César Delgado inspeccionan las cajas de crianza para asegurarse de que no haya moscas negras, una plaga que puede destruir colmenas de abejas sin aguijón. Fotos: Sally Jabiel

Colmeias sem mata

Mais da metade dos habitats das abelhas sem ferrão na Amazônia peruana estão em áreas de alto risco de desmatamento, de acordo com um estudo recente sobre a Melipona eburnea e a Tetragonisca angustula. Essa é a primeira evidência científica que vincula diretamente a destruição da floresta ao declínio da população de abelhas no Peru.

“Elas fazem ninhos em algumas das árvores mais traficadas da floresta. O madeireiro não olha para a colmeia, só para a madeira”, alerta Rosa Vásquez Espinoza, autora do estudo em parceria com Delgado e outros pesquisadores achanincas. Para ela, que também é exploradora da National Geographic, além de contribuir para a manutenção da floresta, as abelhas também representam uma forma importante de resistência da natureza e dos povos que as protegem do desmatamento e do aquecimento global.

As Meliponini nidificam nas árvores mais longevas da Amazônia, como a Virola albidiflora e o Cedrelinga cateniformis, uma das espécies mais usadas no Peru, de acordo com o estudo. Nas áreas mais secas, as abelhas preferem o Ficus insipida, o Ceratonia siliqua e o palo santo (Bursera graveolens), que está em perigo crítico de extinção de acordo com o governo peruano. São árvores que vivem mais de 100 anos, “e que são as primeiras que desaparecem com o desmatamento. Para onde vão nossas abelhas assim?”, lamenta Delgado.

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O guarda florestal achaninca Richar Demetrio e a bióloga Rosa Vásquez Espinoza durante o mapeamento de abelhas sem ferrão no vale dos rios Apurímac, Ene e Mantaro. Foto: Amazon Research

Para mapear o que os povos indígenas já sabiam, a equipe recorreu a quatro comunidades que vivem na Reserva Comunal Achaninca, no Vale dos Rios Apurímac, Ene e Mantaro (VRAEM), uma das regiões mais afetadas pelo cultivo ilegal de coca no Peru. “Saímos à noite para ouvir melhor o zumbido e medimos o diâmetro da árvore, a umidade e a altitude do local”, contou Richar Demetrio, guarda florestal achaninca e um dos autores do estudo. Assim, localizaram centenas de colmeias, muitas das quais em situação de risco. “Na comunidade Pitirinquini, 90 por cento da mata foi derrubada. Quando cortam as árvores, as abelhas morrem”, advertiu.

O desmatamento também chegou ao norte, nas matas secas da costa peruana, onde os madeireiros cortam árvores para vender, ou para obter lenha. “Não existem mais árvores antigas, as abelhas não tem onde morar. Nós estamos perdendo essa batalha”, lamenta Ysabel Calderón, bióloga reconhecida com o Prêmio Midori de Biodiversidade por restaurar esse ecossistema montanhoso.

Uma análise complementar realizada pelos cientistas brasileiros Maria Eduarda Soares, Iago Junqueira e Weslley Cunha, que fazem parte do programa de formação do Instituto Serrapilheira, refuerça essa preocupação: o desmatamento no Peru é muito intenso nas regiões mais aptas para o desenvolvimento da Tetragonisca angustula e da Melipona eburnea, que está fortemente ligada às matas. Essa pressão é cada vez maior, já que, apenas na última década, 2,5 milhões de hectares de floresta foram destruídos no Peru.

De acordo com uma análise geoespacial, foi possível observar um avanço constante do desmatamento, incluindo nos territórios indígenas, onde a destruição foi menos intensa. Para os cientistas, proteger esses territórios é indispensável para salvar as abelhas sem ferrão.

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Em Loreto, foram identificadas ao menos 60 espécies de abelhas sem ferrão. Da esquerda para a direita: Melipona eburnea (uruçu) e Tetragonisca angustula (jataí). Fotos: Gino Tuesta
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Uma competência desigual

O desmatamento transforma a floresta em um campo de batalha para as abelhas. “Quando as fontes de alimento se tornam escassas, só as mais fortes, só as que acordam mais cedo sobrevivem, explica Guiomar Nates, entomóloga especializada em abelhas silvestres na Colômbia. E, quase sempre, quem vence é a Apis mellifera.

As pequenas asas das abelhas sem ferrão permitem que elas voem apenas distâncias curtas. As abelhas invasoras, por sua vez, conseguem cobrir até três quilômetros. “Se elas não encontram flores na curta distância que são capazes de voar, a área se torna um deserto para elas. Mesmo que exista um jardim exuberante a um quilômetro dali, elas não conseguem chegar”, explica Nates. A Tetragonisca angustula consegue voar apenas 500 metros por dia.

O tamanho das colônias também pesa. No México, cientistas observaram que a Apis mellifera, cujas colmeias têm entre 25 e 60 mil indivíduos, defende as flores em períodos de escassez, expulsando as Meliponini, cujas colônias têm entre 500 a 2500 indivíduos. “Às cinco da manhã, a Apis mellifera visita a maior quantidade de flores. Quando as nativas saem, por volta do meio dia, já não resta mais nada”, contou Ysabel Calderón, a partir de suas experiências na floresta peruana.

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Com apoio do Amazon Research, Heriberto Vela geolocalizou as árvores onde as abelhas sem ferrão constroem suas colmeias. Quase todas são árvores centenárias, a mais de duas horas a pé das comunidades, em meio a matas virgens. Fotos: Sally Jabiel
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Meliponicultura sem controle

Até pouco tempo atrás, as abelhas sem ferrão não existiam para a legislação peruana. A lei reconhecia apenas a Apis mellifera e seu valor agroindustrial. “Como poderíamos ajudá-las, se elas nem haviam sido reconhecidas? Nossa missão foi defender seu reconhecimento com base em argumentos científicos e culturais”, explicou Vásquez Espinoza sobre o trabalho realizado em parceria com Delgado, com a ONG Earth Law Center e com diversos meliponicultores indígenas.

Em dezembro de 2024, o Congresso peruano alterou a lei para incluir as abelhas sem ferrão promover a conservação de seus habitats, a plantação de árvores hospedeiras e a meliponicultura sustentável.

A mudança faz parte de uma visão mais ampla, que busca atribuir direitos às abelhas sem ferrão. “Trata-se de uma visão ecocêntrica, que reconhece a natureza pelo que ela é, indo além de sua utilidade para as pessoas. É uma visão que compreende que o ecossistema precisa das abelhas e vice-versa. Os povos indígenas sempre souberam disso. Agora, a ciÊncia está fornecendo dados que respaldem essa plítica”, resumiu Constanza Prieto Figelist, diretora jurídica do Earth Law Center na América Latina.

Ainda assim, existem barreiras internacionais. O Codex Alimentarius, padrão global das Nações Unidas, reconhece apenas o mel produzido pela Apis mellifera. Ao mesmo tempo, o interesse comercial no Peru disparou o número de casos de extração e tráfico de colônias silvestres de abelhas sem ferrão. “Já me ofereceram muito dinheiro para levá-las a Lima. Sem regulamentação, isso é muito arriscado”, comenta Ysabel Calderón.

O tráfico ilegal de Meliponini foi registrado no Brasil que, com décadas de experiência em meliponicultura, proibe o transporte de colônias entre regiões. “No Peru, qualquer pessoa pode se enfiar na mata e retirar as colmeias. Quando fazem isso, carregam parasitas e doenças que podem afetar ecossistemas inteiros”, explica a bióloga Marinela Marconi.

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A diferencia de Apis mellifera, las abejas sin aguijón construyen panales horizontales, como discos apilados, y almacenan su miel en potes. Foto: Sally Jabiel

Mais que essenciais, essas abelhas são sagradas para os povos indígenas. De acordo com a cosmovisão achaninca, as Meliponini já foram pessoas, conta o guarda florestal Richar Antonio Demetrio. Mas Avireri, o deus supremo da natureza, as transformou em abelhas.

Desde então, esses insetos frágeis e de asas pequenas fazem um trabalho impressionante. Polinizam flores que, sem eles, jamais nasceriam, curam doenças com seu mel, protegem a vida. A cada voo, levam consigo a memória da mata e dos povos que, como elas, nunca deixaram de cuidar e de resistir.

Lazos Amazónicos

Esta reportagem é o resultado de uma colaboração entre jornalistas e cientistas latino-americanos, promovida pelo Instituto Serrapilheira, do Brasil, e pelo Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (CLIP), para explorar como os danos à biodiversidade da Amazônia prejudicam os vários serviços ambientais que ela presta ao continente.

 

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